Sabiam que o simples exercício da anamnese também envolve as três forças que venho tentando mostrar certa coerência entre elas, quais sejam, a força sexual, a do trabalho e a da morte?
A anamnese é aquela atividade básica da medicina de coletar a história da doença da pessoa que nos procura com o intuito de encontrar uma solução para aquela dor.
Como a força sexual aparece aqui? Temos o costume de fecundar a história das pessoas com a nossa lógica. Uma lógica aprendida em seis anos intensos de estudos. Não devemos esquecer, porém, de deixar nossa razão ser fecundada pela lógica delas.
Fecundação aqui parece um termo metafórico de extrapolação duvidosa, porém ele revela todo o cuidado, responsabilidade e paixão (pathos) necessários em uma relação de partilha que deverá gerar filhos (diagnóstico e terapêutica), que são tanto maior motivo de júbilo quanto mais bem concebido tiverem sido.
A força do trabalho se mostra no esforço de resgatar e elaborar uma narrativa da doença que ajude a construir um objeto que guie o retorno à saúde. Após concebida a narrativa, ainda se deve dedicar à lapidação, ao estudo meticuloso dela, ao conserto de conexões quebradas ou incoerentes. Se na etapa da força sexual estávamos no âmbito do primeiro encontro, cheios do viço da novidade, na da força do trabalho, caímos no lugar da escultura, da técnica, da ars.
Por fim, há uma ética que percorre todo o exercício da anamnese, que é uma que apenas aprendemos de fato ao lidar com diálogos em torno da morte: aprender a ouvir mais do que falar como símbolo do estágio final da aceitação do que a vida traz, incluindo seu fim. Essa ética nos devolve a uma humildade de saber que todo esse esforço pode não resultar em cura, mas pelo menos em uma conversa terapêutica diante de alguém que esteve aberto para tentar algo por aquele que sofre. A filosofia dos cuidados paliativos dizem ainda: alguém que está aberto para continuar tentando, de um outro modo.
É assim que o bom entrevistador passa por estas três zonas sagradas: participar da concepção da história, trabalhar sobre ela, respeitar a cada momento a sua fragilidade. É assim que seis anos de faculdade servem para formar médicos medíocres, e a vida inteira, sábios.
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sexta-feira, 4 de maio de 2018
Amadurecendo
O primeiro blog que criei sobre minhas aventuras médicas chamava-se Desmedicina. O sentimento era bem este: desfazer aquela medicina que tentava se construir em mim. Eram as desditas na faculdade enriquecidas por um conjunto de reflexões que endossavam a revolta.
Desativei-o quando me formei. Entendi que era preciso assumir a máscara da Eumedicina: viver a medicina do cotidiano com o que havia de bom e de ruim. Misturei-me com a atenção primária. Engoli o livro de medicina ambulatorial com um gosto que nunca tive. Eram os pacientes que batiam à porta para os quais teria de dar alguma resposta.
A residência em medicina de família aprofundou essa medicina do cotidiano em mim. Depois vieram os plantões no grande hospital, o lugar de onde sempre quis fugir, mas que o destino me devolveu ao convívio. As rotinas hospitalares, assimilei-as, e até aprendi com os colegas outros tantos truques que não estão nos livros. O cotidiano, dessa vez, me esmagou. Os sofrimentos que anotava em prontuário, com a morosidade do hospital público e a superposição de doenças ao paciente que não havia entrado tão grave, me desleixaram. Entrei em certo patamar de suficiência. Acreditei ter chegado em um ponto ótimo, pelo menos para as necessidades dos lugares em que estava.
Surgiu a oportunidade do mestrado em saúde coletiva. Reacenderam, então, os estudos em filosofia, teologia, sociologia e estética. Eram rascunhos, mas era mais do que se costuma ler entre os esculápios modernos. Junto com eles, a crítica política sobre a medicina que praticava. Todavia, agora ela vinha com uma carga de experiência que tornava meu discurso menos ingênuo, um pouco mais compassivo, mas ainda muito ácido.
O título de mestre me permitiu reingressar em uma faculdade de medicina, agora como professor. Por outro lado, ainda mantinha a prática nas emergências. Um lado ajudava a enriquecer o outro. Como professor de saúde comunitária, meus exemplos sempre foram cheios das vivências do cotidiano. Como médico de emergência e regulação de destinos de pacientes sobressaía-me com falas de filosofia, sociologia, teologia e estética - os rascunhos. Em um contexto ou em outro, tudo isso era uma excentricidade: um professor de saúde comunitária cheio de experiência hospitalar, um clínico de quase-hospital repleto de falas das ciências humanas. Vale ressaltar que no primeiro caso a excentricidade era mais aceita que no segundo, onde me tinham como um maluco beleza.
Algo que vinha como sombra de todo esse movimento era a fuga de enfrentar os lugares mais desconfortáveis para meu espírito. A objetividade, o protocolo, a disciplina, a memorização de itens não explicados, os imperativos, tudo isso se remetia a uma noção de hierarquia que me era repulsiva.
Até que meus estudos se depararam com a crítica da mentalidade revolucionária: o mundo como jamais funcionou. Devolveram-me o respeito pelas tradições, para as quais já tinha o coração aberto: uma porta para papai, outra para vovó.
Mesmo as medicinas alternativas que comecei a estudar como elemento adicional de minha personalidade arredia me apontaram que nada se consegue sem objetividade, protocolo, disciplina, memorização de itens não explicados, imperativos.
Esse movimento último da alma está me conduzindo a retomar os estudos do cotidiano médico oficial ocidental, afastar-me um pouco das ciências humanas. Os discursos sociológicos são intensos, mas as dores das pessoas não se combatem apenas com falas, mas também com elas. Não podemos desprezar o trabalho de todas as medicinas em querer cuidar dos sofredores.
Depois de muito estudo - que ainda é nada - percebi um ponto em comum nas mais diversas experiências médicas, que de outro modo possuem visões de mundo praticamente inconciliáveis: todas são fundadas em tradições sagradas que acumulam esforços para entregar a melhor resposta para os pacientes que batem à porta.
Vamos lá! Próximo capítulo: "distúrbios do equilíbrio ácido-básico". (No leitor de pdf ao celular: "Tibetan medicine, a short introduction").
Desativei-o quando me formei. Entendi que era preciso assumir a máscara da Eumedicina: viver a medicina do cotidiano com o que havia de bom e de ruim. Misturei-me com a atenção primária. Engoli o livro de medicina ambulatorial com um gosto que nunca tive. Eram os pacientes que batiam à porta para os quais teria de dar alguma resposta.
A residência em medicina de família aprofundou essa medicina do cotidiano em mim. Depois vieram os plantões no grande hospital, o lugar de onde sempre quis fugir, mas que o destino me devolveu ao convívio. As rotinas hospitalares, assimilei-as, e até aprendi com os colegas outros tantos truques que não estão nos livros. O cotidiano, dessa vez, me esmagou. Os sofrimentos que anotava em prontuário, com a morosidade do hospital público e a superposição de doenças ao paciente que não havia entrado tão grave, me desleixaram. Entrei em certo patamar de suficiência. Acreditei ter chegado em um ponto ótimo, pelo menos para as necessidades dos lugares em que estava.
Surgiu a oportunidade do mestrado em saúde coletiva. Reacenderam, então, os estudos em filosofia, teologia, sociologia e estética. Eram rascunhos, mas era mais do que se costuma ler entre os esculápios modernos. Junto com eles, a crítica política sobre a medicina que praticava. Todavia, agora ela vinha com uma carga de experiência que tornava meu discurso menos ingênuo, um pouco mais compassivo, mas ainda muito ácido.
O título de mestre me permitiu reingressar em uma faculdade de medicina, agora como professor. Por outro lado, ainda mantinha a prática nas emergências. Um lado ajudava a enriquecer o outro. Como professor de saúde comunitária, meus exemplos sempre foram cheios das vivências do cotidiano. Como médico de emergência e regulação de destinos de pacientes sobressaía-me com falas de filosofia, sociologia, teologia e estética - os rascunhos. Em um contexto ou em outro, tudo isso era uma excentricidade: um professor de saúde comunitária cheio de experiência hospitalar, um clínico de quase-hospital repleto de falas das ciências humanas. Vale ressaltar que no primeiro caso a excentricidade era mais aceita que no segundo, onde me tinham como um maluco beleza.
Algo que vinha como sombra de todo esse movimento era a fuga de enfrentar os lugares mais desconfortáveis para meu espírito. A objetividade, o protocolo, a disciplina, a memorização de itens não explicados, os imperativos, tudo isso se remetia a uma noção de hierarquia que me era repulsiva.
Até que meus estudos se depararam com a crítica da mentalidade revolucionária: o mundo como jamais funcionou. Devolveram-me o respeito pelas tradições, para as quais já tinha o coração aberto: uma porta para papai, outra para vovó.
Mesmo as medicinas alternativas que comecei a estudar como elemento adicional de minha personalidade arredia me apontaram que nada se consegue sem objetividade, protocolo, disciplina, memorização de itens não explicados, imperativos.
Esse movimento último da alma está me conduzindo a retomar os estudos do cotidiano médico oficial ocidental, afastar-me um pouco das ciências humanas. Os discursos sociológicos são intensos, mas as dores das pessoas não se combatem apenas com falas, mas também com elas. Não podemos desprezar o trabalho de todas as medicinas em querer cuidar dos sofredores.
Depois de muito estudo - que ainda é nada - percebi um ponto em comum nas mais diversas experiências médicas, que de outro modo possuem visões de mundo praticamente inconciliáveis: todas são fundadas em tradições sagradas que acumulam esforços para entregar a melhor resposta para os pacientes que batem à porta.
Vamos lá! Próximo capítulo: "distúrbios do equilíbrio ácido-básico". (No leitor de pdf ao celular: "Tibetan medicine, a short introduction").
segunda-feira, 23 de abril de 2018
Tecer uma narrativa que caiba na realidade
Há alguns mitos gregos que dialogam com a medicina, dos mais óbvios aos menos. O mais, seria o de Apolo, que gerará Esculápio, que será, de algum modo, o ascendente semi-divino de Hipócrates. Esse é o escoamento lendário do poder de cura, desde o absolutamente divino ao humano. O menos, são as Moiras, que fiavam o tecido do destino das pessoas. Estamos estudando, no momento, a anamnese. A entrevista médica tem algo da costura divina, a partir de uma perspectiva humana.
Que é a realidade para nós senão um conjunto de significados que nos são óbvios desde infância? Nascemos já dentro de um tecido linguístico que nos acolhe desde nossa ingenuidade crítica. Vamos aprendendo quem é nossa família e o que são os objetos que se nos avizinham. Vão nos dizendo o que são nossos sentimentos e as vontades que nos motivam, como a de fazer cocô. Coisas óbvias e cotidianas.
Um belo dia, alguma coisa da razão individual se desperta e estranhamos a realidade. Ela não parece óbvia. Tanto mais é assim quanto mais somos acordados pela dor contínua, insistente, torturante. Os conceitos que nos foram dados não são suficientes para sanar o estranhamento provocado pela dor. "O que é essa pontada que maltrata meu peito? Nunca senti isso por tanto tempo. E agora vem com essa febre. Quando vai parar? E por que com calafrios?".
Do lado divino, o das Moiras, é uma história que se fia desde o alto, acima da vida humana, superior aos construtos racionais que deixava nossa vida coerente. Toda nossa vida é fiar um manto, a partir de nossa perspectiva mortal, que cubra o mais perfeitamente possível o que nos foi dado pelo destino. A perda radical da coerência gera o desespero. Do lado humano, o dos médicos, tenta-se fazer surgir da pessoa em desespero uma tessitura que revele qualquer forma possível com que se possa trabalhar e novamente devolver ao indivíduo o poder de retomar a coerência de sua existência. O caminho de retorno à coerência se dá na esperança.
Na escola platônica, a arte da anamnese consistia em fazer relembrar a forma do manto das Moiras, que, supunha-se, a alma teria entrevisto antes de cair no mundo sensível. Estou lhes dizendo que, em um mundo onde se acredita numa verdade acima do humano, haveria como ou relembrá-la ou tentar imitá-la diuturnamente através de construtos racionais que nos fizessem devolver a razão de ser das coisas que nos afetam. O segundo caminho é o mais aceito em diálogo com as ciências humanas hoje em dia, isto é, a reconstrução de narrativas que tornem a vida coerente e suportável.
Toda a técnica que vocês utilizaram para apresentar o caso para nós foi um exercício mitológico de tessitura de narrativas que nos devolvesse (a nós e aos pacientes) a coerência da vida para seguir lutando por ela. A clínica médica diária se apoia nessas narrativas, tentando fazê-las cada vez mais verossímeis através das relações com os achados patológicos evidentes no próprio corpo humano ou no corpo social.
Duas conclusões de tudo isso que expus:
Que é a realidade para nós senão um conjunto de significados que nos são óbvios desde infância? Nascemos já dentro de um tecido linguístico que nos acolhe desde nossa ingenuidade crítica. Vamos aprendendo quem é nossa família e o que são os objetos que se nos avizinham. Vão nos dizendo o que são nossos sentimentos e as vontades que nos motivam, como a de fazer cocô. Coisas óbvias e cotidianas.
Um belo dia, alguma coisa da razão individual se desperta e estranhamos a realidade. Ela não parece óbvia. Tanto mais é assim quanto mais somos acordados pela dor contínua, insistente, torturante. Os conceitos que nos foram dados não são suficientes para sanar o estranhamento provocado pela dor. "O que é essa pontada que maltrata meu peito? Nunca senti isso por tanto tempo. E agora vem com essa febre. Quando vai parar? E por que com calafrios?".
Do lado divino, o das Moiras, é uma história que se fia desde o alto, acima da vida humana, superior aos construtos racionais que deixava nossa vida coerente. Toda nossa vida é fiar um manto, a partir de nossa perspectiva mortal, que cubra o mais perfeitamente possível o que nos foi dado pelo destino. A perda radical da coerência gera o desespero. Do lado humano, o dos médicos, tenta-se fazer surgir da pessoa em desespero uma tessitura que revele qualquer forma possível com que se possa trabalhar e novamente devolver ao indivíduo o poder de retomar a coerência de sua existência. O caminho de retorno à coerência se dá na esperança.
Na escola platônica, a arte da anamnese consistia em fazer relembrar a forma do manto das Moiras, que, supunha-se, a alma teria entrevisto antes de cair no mundo sensível. Estou lhes dizendo que, em um mundo onde se acredita numa verdade acima do humano, haveria como ou relembrá-la ou tentar imitá-la diuturnamente através de construtos racionais que nos fizessem devolver a razão de ser das coisas que nos afetam. O segundo caminho é o mais aceito em diálogo com as ciências humanas hoje em dia, isto é, a reconstrução de narrativas que tornem a vida coerente e suportável.
Toda a técnica que vocês utilizaram para apresentar o caso para nós foi um exercício mitológico de tessitura de narrativas que nos devolvesse (a nós e aos pacientes) a coerência da vida para seguir lutando por ela. A clínica médica diária se apoia nessas narrativas, tentando fazê-las cada vez mais verossímeis através das relações com os achados patológicos evidentes no próprio corpo humano ou no corpo social.
Duas conclusões de tudo isso que expus:
- A realidade que nos circunda, tanto mais a da dor, é sempre superior a qualquer narrativa que possamos engendrar. Não raro ela nos esmaga, nos deixa perplexos diante do incognoscível. Não é de se admirar recorrermos à fé, cuja narrativa provém de um discurso revelado, pretensamente, advindo do Deus ou dos deuses. É como se as Moiras rasgassem um pouco do destino e deixassem-no entre nós.
- A força do exercício de narrar a vida em um todo coerente é tamanha que se poderia afirmar que uma fratura só não é curada pela fala porque ainda não se encontrou as palavras certas para a coligir.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
Entendendo a astrologia da vida
Estamos falando todo tempo destas três forças vitais: sexo, trabalho e morte. Sim, morte é uma força vital, veremos porque.
Na astrologia, dividem-se os signos em três grupos que são as modalidades cardinal, fixo e mutável. Diz-se que são as três energias moventes dos seres: a que gera o impulso inicial, a que mantém e a que faz mudar.
Acho que podemos enxergar, sem grandes prejuízos, sexo, trabalho e morte com este molde. Sexo compreende as forças cardinais, trabalho, as fixas, morte, as mutáveis. Claro que o sexo pode ajudar a manter um relacionamento, e sem paixão, pouca coisa sobrevive. O sexo pode ser destrutivo, também, e como pode! Os românticos sabem disso. Assim como há trabalho para se iniciar algo, e sem a morte do desnecessário é impossível estabilizar um empreendimento.
Veja que não falei que a morte é o fim. Nas modalidades astrológicas não se fala em fim, mas em mudança. Ora, da nossa visão geocêntrica, de onde a astrologia se originou, que é uma mera questão de perspectiva, mas que, todavia, não deve ser jogada fora, o universo que circunda a Terra não morre. Esteve antes de nós e permanecerá. De tal modo que não há uma energia de morte, mas de mudança. A morte, portanto, pode perfeitamente ser encarada como a necessidade da mudança, do fechamento de ciclos, do término de uma obra, para o início de outra.
Aqui vai mais um contributo para encarar estas três questões dentro de um quadro unitário lógico:
Na astrologia, dividem-se os signos em três grupos que são as modalidades cardinal, fixo e mutável. Diz-se que são as três energias moventes dos seres: a que gera o impulso inicial, a que mantém e a que faz mudar.
Acho que podemos enxergar, sem grandes prejuízos, sexo, trabalho e morte com este molde. Sexo compreende as forças cardinais, trabalho, as fixas, morte, as mutáveis. Claro que o sexo pode ajudar a manter um relacionamento, e sem paixão, pouca coisa sobrevive. O sexo pode ser destrutivo, também, e como pode! Os românticos sabem disso. Assim como há trabalho para se iniciar algo, e sem a morte do desnecessário é impossível estabilizar um empreendimento.
Veja que não falei que a morte é o fim. Nas modalidades astrológicas não se fala em fim, mas em mudança. Ora, da nossa visão geocêntrica, de onde a astrologia se originou, que é uma mera questão de perspectiva, mas que, todavia, não deve ser jogada fora, o universo que circunda a Terra não morre. Esteve antes de nós e permanecerá. De tal modo que não há uma energia de morte, mas de mudança. A morte, portanto, pode perfeitamente ser encarada como a necessidade da mudança, do fechamento de ciclos, do término de uma obra, para o início de outra.
Aqui vai mais um contributo para encarar estas três questões dentro de um quadro unitário lógico:
- Sexo: a força que dá vida aos seres;
- Trabalho: a força que mantém a vida dos seres, a própria vida em perpétua re-construção;
- Morte: a força que modela a vida, enriquecendo-a, lapidando-a, embelezando-a, pois.
A comunidade arredia
Tivemos hoje grandes insights com a fala do médico do trabalho da empresa que visitamos. Vindo da saúde comunitária, com toda a teoria de vigilância em saúde dela, olha-se para aquele conjunto de relatórios, gráficos e planejamentos em torno da saúde dos funcionários com um desejo que na comunidade fosse também assim.
Mostra-nos o médico da empresa três grandes calhamaços com gráficos, tabelas, análises dos processos de adoecimento da população que ele assiste. Falo-nos que tudo aquilo provoca ações de prevenção de agravos e promoção da saúde. Pela cultura daquela empresa, que busca deixar prosseguir empregado quem não tenha graves motivos para sair, ele acaba também sendo um médico que acompanha uma longa parte do ciclo de vida do trabalhador.
Ele tem, ainda, um olhar tanto do todo da empresa como de fatores de risco setorizados, podendo assim particularizar medidas. Conta com algumas equipes ao seu redor para dar vazão às ações que ele achar necessário.
Trabalho em equipe, mapeamento de riscos, planejamento de ações, visão do coletivo. Ora, isso é a menina dos olhos dos teóricos da atenção primária. Contudo, uma fala era recorrente no discurso desse médicos:
- Aqui, eu tenho controle sobre o cuidado do paciente. Posso pedir retorno e sei que ele vai vir. Na comunidade, eu lanço a demanda, mas o paciente se perde e nunca mais volta.
A grande diferença entre uma fábrica e uma comunidade comum está exatamente aí: a rebeldia do real. É da natureza de toda profissão da saúde tentar organizar o caos. As pressões desestruturantes que existem ao nosso redor, a vitória delas é que determina o adoecimento e a morte. A vida é um contrafluxo rebelde à terceira lei da termodinâmica. Desde a primeva explosão a ciência entende que o destino é nos desorganizarmos. Esforçamo-nos para prolongar o tempo de isso não acontecer enfim.
A própria mitologia grega nos sugere esse conceito. No princípio era o caos. Houve uma briga entre os deuses. Venceu aquele que organizou tudo e dividiu o cosmos entre cada irmão, cada um cuidando da sua parte o mais divinamente possível. Contudo, a humanidade encarnou a ideia da que rompe o equilíbrio, ameaçando a ordem, qualidade de quem é mortal. Aqueles, diz a sabedoria grega, que se adequam à ordem do universo, descobrem sua imortalidade essencial.
O que é a comunidade onde atua o médico de família? Nem é o caos, nem é o cosmos. É o caosmos. Quando formos estudar as neoplasias, os mecanismos de proteção que o organismo inventou contra a proliferação desmedida falam um pouco disso. Existe em nós, seres homeostáticos, uma tendência ao caos que chama a atividade de ordenação, e uma atividade de ordenação que provoca caos em algum lugar. Saímos de uma visão estática e linear do biológico para enxergá-lo em complexidade.
Toquei nesse assunto para dizer que talvez não seja desejável ter a comunidade na mão. Quanto de liberdade deve ser sacrificada a fim de fazer caber nos olhos do médico todos os movimentos possíveis que vão contra a saúde? Valeria a pena sacrificar? Não estaríamos amputando o que faz do humano demasiadamente humano?
Vejo o ofício do médico do trabalho algo da ordem do fogo e da terra - combustão e solidez. O do médico de família, algo da ordem da água e do ar - flexibilidade e leveza. Claro que, como somos todos feitos destes quatro elementos, temos de empregar a energia de todos para o bom trabalho. Todavia, creio na preponderância de alguns em certos lugares.
Mais na frente, lidaremos com as doenças que ferem a sexualidade humana. Haverá outro lugar em que haja mais fogo ou que nos mostre mais o quanto somos feitos de terra? Haverá outro lugar em que, nós profissionais, devamos ir com mais água nos gestos e mais ar na fala? De outro modo, quanto mais os profissionais da vigilância epidemiológica querem tratar a questão a fogo e terra - cauterizar e conter - mais as pessoas são água e ar, deslizam por entre os mecanismos de contenção, voam para longe, onde podem exercer sua intimidade em paz.
Algo que os debates metafísicos não conseguiram chegar ao consenso: que felicidade é mais feliz, a determinada pelas leis ou a criada pelo espírito? Pergunta talvez errada. As duas dimensões são as faces irredutíveis da realidade.
Mostra-nos o médico da empresa três grandes calhamaços com gráficos, tabelas, análises dos processos de adoecimento da população que ele assiste. Falo-nos que tudo aquilo provoca ações de prevenção de agravos e promoção da saúde. Pela cultura daquela empresa, que busca deixar prosseguir empregado quem não tenha graves motivos para sair, ele acaba também sendo um médico que acompanha uma longa parte do ciclo de vida do trabalhador.
Ele tem, ainda, um olhar tanto do todo da empresa como de fatores de risco setorizados, podendo assim particularizar medidas. Conta com algumas equipes ao seu redor para dar vazão às ações que ele achar necessário.
Trabalho em equipe, mapeamento de riscos, planejamento de ações, visão do coletivo. Ora, isso é a menina dos olhos dos teóricos da atenção primária. Contudo, uma fala era recorrente no discurso desse médicos:
- Aqui, eu tenho controle sobre o cuidado do paciente. Posso pedir retorno e sei que ele vai vir. Na comunidade, eu lanço a demanda, mas o paciente se perde e nunca mais volta.
A grande diferença entre uma fábrica e uma comunidade comum está exatamente aí: a rebeldia do real. É da natureza de toda profissão da saúde tentar organizar o caos. As pressões desestruturantes que existem ao nosso redor, a vitória delas é que determina o adoecimento e a morte. A vida é um contrafluxo rebelde à terceira lei da termodinâmica. Desde a primeva explosão a ciência entende que o destino é nos desorganizarmos. Esforçamo-nos para prolongar o tempo de isso não acontecer enfim.
A própria mitologia grega nos sugere esse conceito. No princípio era o caos. Houve uma briga entre os deuses. Venceu aquele que organizou tudo e dividiu o cosmos entre cada irmão, cada um cuidando da sua parte o mais divinamente possível. Contudo, a humanidade encarnou a ideia da que rompe o equilíbrio, ameaçando a ordem, qualidade de quem é mortal. Aqueles, diz a sabedoria grega, que se adequam à ordem do universo, descobrem sua imortalidade essencial.
O que é a comunidade onde atua o médico de família? Nem é o caos, nem é o cosmos. É o caosmos. Quando formos estudar as neoplasias, os mecanismos de proteção que o organismo inventou contra a proliferação desmedida falam um pouco disso. Existe em nós, seres homeostáticos, uma tendência ao caos que chama a atividade de ordenação, e uma atividade de ordenação que provoca caos em algum lugar. Saímos de uma visão estática e linear do biológico para enxergá-lo em complexidade.
Toquei nesse assunto para dizer que talvez não seja desejável ter a comunidade na mão. Quanto de liberdade deve ser sacrificada a fim de fazer caber nos olhos do médico todos os movimentos possíveis que vão contra a saúde? Valeria a pena sacrificar? Não estaríamos amputando o que faz do humano demasiadamente humano?
Vejo o ofício do médico do trabalho algo da ordem do fogo e da terra - combustão e solidez. O do médico de família, algo da ordem da água e do ar - flexibilidade e leveza. Claro que, como somos todos feitos destes quatro elementos, temos de empregar a energia de todos para o bom trabalho. Todavia, creio na preponderância de alguns em certos lugares.
Mais na frente, lidaremos com as doenças que ferem a sexualidade humana. Haverá outro lugar em que haja mais fogo ou que nos mostre mais o quanto somos feitos de terra? Haverá outro lugar em que, nós profissionais, devamos ir com mais água nos gestos e mais ar na fala? De outro modo, quanto mais os profissionais da vigilância epidemiológica querem tratar a questão a fogo e terra - cauterizar e conter - mais as pessoas são água e ar, deslizam por entre os mecanismos de contenção, voam para longe, onde podem exercer sua intimidade em paz.
Algo que os debates metafísicos não conseguiram chegar ao consenso: que felicidade é mais feliz, a determinada pelas leis ou a criada pelo espírito? Pergunta talvez errada. As duas dimensões são as faces irredutíveis da realidade.
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Minha história de vida médica rumo à astrologia (parte III)
Falei-lhe sobre a homeopatia. Engraçado que desta medicina sem evidências robustas na literatura médica você não discorda, tendo peito aberto quase como eu tenho para acolhê-la como terapêutica para sua vida. Quero lhe mostrar como da homeopatia para a astrologia é um pulo.
Os estudos homeopáticos me foram de tal forma desestruturantes da forma de ver a medicina, que pela brecha que ele rompeu em meus muros epistemológicos, uma avalanche de vontade de conhecer outras medicinas se me apoderou.
Passei a estudar o que se conhece atualmente como racionalidades médicas, e vi que há dezenas no mundo inteiro. Localmente tão legítimas quanto a medicina oficial do ocidente, porém sem força - particularmente política e econômica - para se tornar universal como esta se tornou.
Outra medicina, porém, vem ganhando terreno pelos nossos países: a medicina tradicional chinesa. Esta vem logrando minar os preconceitos dos médicos ocidentais mais do que a homeopatia. Todavia, veja que lástima, nossa ciência moderna, cedendo aos resultados da acupuntura, não quer aceitar a doutrina que a fundamenta, haja vista, meridianos, yin-yang, chi. Vem suando sangue para mostrar que os tais meridianos não passam de projeções dos nervos na derme dos pacientes.
A doutrina chinesa do Imperador Amarelo não fala isso. Os meridianos são caminhos presentes em outro tipo de corpo que não o celular, estudado pela anatomia. O chi é uma energia imensurável, cujo estudo é apenas possível pelo próprio movimento dela, e não pela dissecção microscópica. Qualquer semelhança disso com a energia vital dos homeopatas não é coincidência.
O que me perturbou, de forma positiva, ao estudar acupuntura foi ver uma doutrina médica ainda mais concatenada que organizava TUDO, eu disso TUDO, em uma cosmologia universal, conectando homem e natureza. Os sintomas dos repertórios homeopáticos, muitos deles tidos como bizarros para a medicina alopática, se enquadram no sistema chinês com uma lógica assombrosa.
Há um princípio universal, por assim dizer verbo de Deus (uma forma cristã herética de traduzir), que é o yin-yang: o movimento perpétuo dos contrários. Destes surgem os cinco elementos - Madeira, Metal, Água, Terra e Fogo - cuja relação, de dominância ou geração, justifica a saúde e doença das pessoas e das populações. Cada órgão e víscera do corpo humano tem um correspondente mais ou menos análogo no sistema de meridianos, vasos pelos quais corre nosso chi. Nossas emoções encontram espaço confortável nessa estrutura, por exemplo, o fígado tendo a ver com a raiva, e o coração com a alegria. E até mesmo as estações do ano e as horas do dia encaixam-se nessa antropologia cósmica.
Agora chego na parte que queria. Certo dia, perguntando sobre a causa das doenças nas pessoas, o professor nos fala sobre a proveniência mater-paterna do chi escoando ao corpo em formação, porém deixa escapar a influência dos astros na estruturação deste mesmo corpo. Até com os astros os chineses decidiram trabalhar para explicar o processo saúde-doença! E nossa astrologia ocidental tem um afinidade enorme com a forma dos chineses de verem o complexo homem-mundo-cosmos.
Ao final do século XIX, um médico francês chamado Gérard Encausse toma conhecimento das sabedorias orientais, de escolas esotéricas. Era uma época de muita abertura, com efervescente troca entre os dois hemisférios. Porém, questiona-se se o ocidente não teria também sua tradição de sabedoria. Descobre que sim. Funda uma escola de estudos das sabedorias ocidentais, entre elas, as formas de astrologia que viemos estudando desde a Idade Média, até mesmo entre santos cristãos. Sua escola pretendia se contrapor ao materialismo do ensino médico de então.
Meu estranhamento primeiro é por que conhecimentos tão amplos foram jogados no lixo histórico depois de termos inventado a ciência moderna? Nesse ponto, o exercício da ciência é apenas reativo: não aceitar o que não apresentar uma evidência gritante aos olhos, à prova das experimentações, com metodologia rigorosa, reprodutibilidade global, e, tanto melhor, capacidade de previsão da repetição dos fenômenos quando submetida às mesmas condições geradoras.
O que venho vendo nas situações da homeopatia e da medicina chinesa, aceitando toda a tradição reflexiva desta, é a impossibilidade de nossa ciência moderna, conduzida do jeito que é, dar conta da complexidade das abordagens das chamadas medicina alternativas.
Alguns deslizes para a mentalidade do cientista moderno provoca a rejeição integral de toda uma paraciência. Por exemplo, o não-geocentrismo ou o rebaixamento de Plutão para asteróide fez com que se jogasse fora milênios de reflexão astrológica na busca de entender o homem a partir do cosmos. A inexistência de princípio ativo materialmente significativo faz rejeitar toda a experiência dos homeopatas que se esforçam em tratar o ser humano abordando todos os seus sintomas como um movimento único do corpo em busca de se reorganizar.
"O problema é o absolutismo da teoria!" Você pode me contrapor. Não, não é. É o estranhamento profundo com o núcleo identitário do nosso paradigma. Nossa ciência é um corpo rejeitando o invasor estranho.
Estava lendo um artigo sobre a acupuntura em uma enciclopédia francesa, e ela levantava vários êxitos dessa técnica no controle de dores, apontando teorias neurais que davam conta de alguma explicação. Porém, ela mesma confessava que sobre os êxitos da acupuntura em outros processos como transtornos de humor ou infecções, a teoria neural ainda era falha para explicar.
É uma ambição gnóstica, talvez, e um grave pecado aos olhos da igreja católica, eu sei, minha busca por uma medicina que abarque uma explicação que envolva das energias sutis ao sistema solar. Mais do que critérios laboratoriais ou experimentais, venho aprendendo a respeitar o esforço dos nossos ancestrais que dialogam, do infinito, comigo. Gerárd Encausse era grande amigo de León Denis, cujo livro Depois da Morte, revelando a unidade das grandes sabedorias do passado, converteu o professor Eurípedes Barsanulfo.
Pela nossa amizade, você pede que eu tome cuidado com essa vida de lutar contra moinhos de vento. E seu conselho me fez pensar por dias. Na verdade, ainda reverbera na alma. Mas, a energia que me conduz a essa busca é tão febril, que caso venha a terminar como D. Quixote, serei mais um fidalgo franzino esmagado por uma cultura que esvazia, sem piedade, o sentido da existência. Ao menos morrerei lutando.
Os estudos homeopáticos me foram de tal forma desestruturantes da forma de ver a medicina, que pela brecha que ele rompeu em meus muros epistemológicos, uma avalanche de vontade de conhecer outras medicinas se me apoderou.
Passei a estudar o que se conhece atualmente como racionalidades médicas, e vi que há dezenas no mundo inteiro. Localmente tão legítimas quanto a medicina oficial do ocidente, porém sem força - particularmente política e econômica - para se tornar universal como esta se tornou.
Outra medicina, porém, vem ganhando terreno pelos nossos países: a medicina tradicional chinesa. Esta vem logrando minar os preconceitos dos médicos ocidentais mais do que a homeopatia. Todavia, veja que lástima, nossa ciência moderna, cedendo aos resultados da acupuntura, não quer aceitar a doutrina que a fundamenta, haja vista, meridianos, yin-yang, chi. Vem suando sangue para mostrar que os tais meridianos não passam de projeções dos nervos na derme dos pacientes.
A doutrina chinesa do Imperador Amarelo não fala isso. Os meridianos são caminhos presentes em outro tipo de corpo que não o celular, estudado pela anatomia. O chi é uma energia imensurável, cujo estudo é apenas possível pelo próprio movimento dela, e não pela dissecção microscópica. Qualquer semelhança disso com a energia vital dos homeopatas não é coincidência.
O que me perturbou, de forma positiva, ao estudar acupuntura foi ver uma doutrina médica ainda mais concatenada que organizava TUDO, eu disso TUDO, em uma cosmologia universal, conectando homem e natureza. Os sintomas dos repertórios homeopáticos, muitos deles tidos como bizarros para a medicina alopática, se enquadram no sistema chinês com uma lógica assombrosa.
Há um princípio universal, por assim dizer verbo de Deus (uma forma cristã herética de traduzir), que é o yin-yang: o movimento perpétuo dos contrários. Destes surgem os cinco elementos - Madeira, Metal, Água, Terra e Fogo - cuja relação, de dominância ou geração, justifica a saúde e doença das pessoas e das populações. Cada órgão e víscera do corpo humano tem um correspondente mais ou menos análogo no sistema de meridianos, vasos pelos quais corre nosso chi. Nossas emoções encontram espaço confortável nessa estrutura, por exemplo, o fígado tendo a ver com a raiva, e o coração com a alegria. E até mesmo as estações do ano e as horas do dia encaixam-se nessa antropologia cósmica.
Agora chego na parte que queria. Certo dia, perguntando sobre a causa das doenças nas pessoas, o professor nos fala sobre a proveniência mater-paterna do chi escoando ao corpo em formação, porém deixa escapar a influência dos astros na estruturação deste mesmo corpo. Até com os astros os chineses decidiram trabalhar para explicar o processo saúde-doença! E nossa astrologia ocidental tem um afinidade enorme com a forma dos chineses de verem o complexo homem-mundo-cosmos.
Ao final do século XIX, um médico francês chamado Gérard Encausse toma conhecimento das sabedorias orientais, de escolas esotéricas. Era uma época de muita abertura, com efervescente troca entre os dois hemisférios. Porém, questiona-se se o ocidente não teria também sua tradição de sabedoria. Descobre que sim. Funda uma escola de estudos das sabedorias ocidentais, entre elas, as formas de astrologia que viemos estudando desde a Idade Média, até mesmo entre santos cristãos. Sua escola pretendia se contrapor ao materialismo do ensino médico de então.
Meu estranhamento primeiro é por que conhecimentos tão amplos foram jogados no lixo histórico depois de termos inventado a ciência moderna? Nesse ponto, o exercício da ciência é apenas reativo: não aceitar o que não apresentar uma evidência gritante aos olhos, à prova das experimentações, com metodologia rigorosa, reprodutibilidade global, e, tanto melhor, capacidade de previsão da repetição dos fenômenos quando submetida às mesmas condições geradoras.
O que venho vendo nas situações da homeopatia e da medicina chinesa, aceitando toda a tradição reflexiva desta, é a impossibilidade de nossa ciência moderna, conduzida do jeito que é, dar conta da complexidade das abordagens das chamadas medicina alternativas.
Alguns deslizes para a mentalidade do cientista moderno provoca a rejeição integral de toda uma paraciência. Por exemplo, o não-geocentrismo ou o rebaixamento de Plutão para asteróide fez com que se jogasse fora milênios de reflexão astrológica na busca de entender o homem a partir do cosmos. A inexistência de princípio ativo materialmente significativo faz rejeitar toda a experiência dos homeopatas que se esforçam em tratar o ser humano abordando todos os seus sintomas como um movimento único do corpo em busca de se reorganizar.
"O problema é o absolutismo da teoria!" Você pode me contrapor. Não, não é. É o estranhamento profundo com o núcleo identitário do nosso paradigma. Nossa ciência é um corpo rejeitando o invasor estranho.
Estava lendo um artigo sobre a acupuntura em uma enciclopédia francesa, e ela levantava vários êxitos dessa técnica no controle de dores, apontando teorias neurais que davam conta de alguma explicação. Porém, ela mesma confessava que sobre os êxitos da acupuntura em outros processos como transtornos de humor ou infecções, a teoria neural ainda era falha para explicar.
É uma ambição gnóstica, talvez, e um grave pecado aos olhos da igreja católica, eu sei, minha busca por uma medicina que abarque uma explicação que envolva das energias sutis ao sistema solar. Mais do que critérios laboratoriais ou experimentais, venho aprendendo a respeitar o esforço dos nossos ancestrais que dialogam, do infinito, comigo. Gerárd Encausse era grande amigo de León Denis, cujo livro Depois da Morte, revelando a unidade das grandes sabedorias do passado, converteu o professor Eurípedes Barsanulfo.
Pela nossa amizade, você pede que eu tome cuidado com essa vida de lutar contra moinhos de vento. E seu conselho me fez pensar por dias. Na verdade, ainda reverbera na alma. Mas, a energia que me conduz a essa busca é tão febril, que caso venha a terminar como D. Quixote, serei mais um fidalgo franzino esmagado por uma cultura que esvazia, sem piedade, o sentido da existência. Ao menos morrerei lutando.
Minha história de vida médica rumo a astrologia (parte II)
Havia lhe falado das minhas frustrações com uma medicina fragmentada, que impunha sobre nós o mesmo olhar contra o ser humano.
Contra a homeopatia eu tinha todas as reservas que os acadêmicos tem, mais por um sentimento de aderir a crença da horda do que de avaliar a eficácia e o sentido com meu próprio esforço.
Esse preconceito começou a ser dirimido por causa da cultura popular que encontrei ao redor da nossa querida cidade de Sacramento, onde certo professor muito querido da região, Eurípedes Barsanulfo, exercera ampla caridade curando muitas chagas com os remédios homeopáticos que artesanalmente fabricava ao seu Colégio Allan Kardec.
Voltei em busca de uma especialização no assunto. Encontrei-a. Iniciei o estudo da mesma, e qual não foi minha surpresa ao me deparar com uma medicina que possuía uma doutrina médica vasta, coerente, concatenada. Ela se fundamentava no que entendia fazer da pessoa um ser vivo e homeostático, e não na dimensão apenas mensurável do corpo, que na medida em que os microscópios ganham poder de penetrar, mais buracos encontram. Esse algo que caracterizava os seres vivos como organismos portadores de impulso vital, que reagia às agressões do ambiente com vontade de mais vida, a homeopatia deu o nome de energia vital.
Como é do meu feitio, fui em busca de me aprofundar no assunto, e, nova surpresa, o conceito de energia vital não era de agora, mas já vinha com a humanidade há milênios, tendo sido sepultado, aqui no ocidente, à época da medicina microbiológica, quando imputaram a causa de todas as funções que o organismo vivo apresenta a estruturas bem delimitadas que seriam as responsáveis por conduzir o bom andamento dessa ou daquela tarefa. O organismo vivo funcionava bem por causa de seus órgãos e organelas que funcionavam bem. Era como dizer que as rodas rodam por causa das rodelas, que o céu era azul por causa das partículas azuis que o compõem, que os sonhos são o que são por causa dos micropensamentos que o possibilitam. É reduzir o fenômeno ao microfenômeno.
De todo modo, ainda que o conceito de causa seja controverso na atual filosofia da ciência, as unidades a que tentavam reduzir o fenômeno não davam conta da complexidade do mesmo.
No caso do organismo vivo, a noção de energia vital me parecia mais capaz de elevar a teoria médica a altura do vasto universo das queixas das pessoas, bem como os remédios dinamizados, que imagina-se atuar estimulando o indivíduo na sua inteireza, tinha maior possibilidade de restabelecer a saúde. Como uma aspirina pode prevenir o infarto sem acarretar algum outro problema em outra parte do organismo? Não estamos falando de um complexo orgânico? Ora, pela teoria dos sistemas, nenhum elemento é perturbado sem que afete todo o resto. A farmacologia homeopática parte desse princípio e não desiste dele.
Os físicos e biofísicos, químicos e bioquímicos, farmacologistas, todos querem desmerecer a farmacologia homeopática pela inexistência laboratorial de matéria que dê razão ao remédio dinamizado. Todavia, para um médico que aprendeu a dar pouco valor para as ciências isoladas caso elas não venham a explicar o que vemos na prática diária, as falas dos cientistas de laboratório pouco me coçam. Para mim era mais importante os resultados que eram reproduzidos no mundo inteiro, para além do ocidente (!), por todos aqueles que se submetiam a esta outra medicina que já dura dois séculos. Além dos diálogo íntimo que essa medicina fazia com minhas principais convicções.
A indústria da medicina baseada em evidência, que vem estudando a eficácia pragmática do exercício homeopático, alega que não há evidências a favor da homeopatia, e que, portanto, substituir o tratamento convencional pelo homeopático seria criminoso. A luta está nesse patamar.
Para onde meu olhar se desviou, com bastante fundamentação filosófica a respeito? Existe uma carência gigantesca de metodologias de pesquisa que deem conta da riqueza do real. Qualquer um que estude a homeopatia seriamente vê que as pesquisas conduzidas para comprovar sua eficácia a mutilam já na construção do estudo antes de começar qualquer experimentação. Onde se averígua a eficácia dessa medicina dando força para sua resistência? No cotidiano dos consultórios homeopáticos. O que isso tem a ver com a astrologia? Vou lhe falar mais adiante, quando lhe explicar meu desvio pelo estudo da acupuntura.
Contra a homeopatia eu tinha todas as reservas que os acadêmicos tem, mais por um sentimento de aderir a crença da horda do que de avaliar a eficácia e o sentido com meu próprio esforço.
Esse preconceito começou a ser dirimido por causa da cultura popular que encontrei ao redor da nossa querida cidade de Sacramento, onde certo professor muito querido da região, Eurípedes Barsanulfo, exercera ampla caridade curando muitas chagas com os remédios homeopáticos que artesanalmente fabricava ao seu Colégio Allan Kardec.
Voltei em busca de uma especialização no assunto. Encontrei-a. Iniciei o estudo da mesma, e qual não foi minha surpresa ao me deparar com uma medicina que possuía uma doutrina médica vasta, coerente, concatenada. Ela se fundamentava no que entendia fazer da pessoa um ser vivo e homeostático, e não na dimensão apenas mensurável do corpo, que na medida em que os microscópios ganham poder de penetrar, mais buracos encontram. Esse algo que caracterizava os seres vivos como organismos portadores de impulso vital, que reagia às agressões do ambiente com vontade de mais vida, a homeopatia deu o nome de energia vital.
Como é do meu feitio, fui em busca de me aprofundar no assunto, e, nova surpresa, o conceito de energia vital não era de agora, mas já vinha com a humanidade há milênios, tendo sido sepultado, aqui no ocidente, à época da medicina microbiológica, quando imputaram a causa de todas as funções que o organismo vivo apresenta a estruturas bem delimitadas que seriam as responsáveis por conduzir o bom andamento dessa ou daquela tarefa. O organismo vivo funcionava bem por causa de seus órgãos e organelas que funcionavam bem. Era como dizer que as rodas rodam por causa das rodelas, que o céu era azul por causa das partículas azuis que o compõem, que os sonhos são o que são por causa dos micropensamentos que o possibilitam. É reduzir o fenômeno ao microfenômeno.
De todo modo, ainda que o conceito de causa seja controverso na atual filosofia da ciência, as unidades a que tentavam reduzir o fenômeno não davam conta da complexidade do mesmo.
No caso do organismo vivo, a noção de energia vital me parecia mais capaz de elevar a teoria médica a altura do vasto universo das queixas das pessoas, bem como os remédios dinamizados, que imagina-se atuar estimulando o indivíduo na sua inteireza, tinha maior possibilidade de restabelecer a saúde. Como uma aspirina pode prevenir o infarto sem acarretar algum outro problema em outra parte do organismo? Não estamos falando de um complexo orgânico? Ora, pela teoria dos sistemas, nenhum elemento é perturbado sem que afete todo o resto. A farmacologia homeopática parte desse princípio e não desiste dele.
Os físicos e biofísicos, químicos e bioquímicos, farmacologistas, todos querem desmerecer a farmacologia homeopática pela inexistência laboratorial de matéria que dê razão ao remédio dinamizado. Todavia, para um médico que aprendeu a dar pouco valor para as ciências isoladas caso elas não venham a explicar o que vemos na prática diária, as falas dos cientistas de laboratório pouco me coçam. Para mim era mais importante os resultados que eram reproduzidos no mundo inteiro, para além do ocidente (!), por todos aqueles que se submetiam a esta outra medicina que já dura dois séculos. Além dos diálogo íntimo que essa medicina fazia com minhas principais convicções.
A indústria da medicina baseada em evidência, que vem estudando a eficácia pragmática do exercício homeopático, alega que não há evidências a favor da homeopatia, e que, portanto, substituir o tratamento convencional pelo homeopático seria criminoso. A luta está nesse patamar.
Para onde meu olhar se desviou, com bastante fundamentação filosófica a respeito? Existe uma carência gigantesca de metodologias de pesquisa que deem conta da riqueza do real. Qualquer um que estude a homeopatia seriamente vê que as pesquisas conduzidas para comprovar sua eficácia a mutilam já na construção do estudo antes de começar qualquer experimentação. Onde se averígua a eficácia dessa medicina dando força para sua resistência? No cotidiano dos consultórios homeopáticos. O que isso tem a ver com a astrologia? Vou lhe falar mais adiante, quando lhe explicar meu desvio pelo estudo da acupuntura.
Minha história de vida médica rumo à astrologia (parte I)
Amigo,
Hoje vou lhe falar os motivos pessoais que vem me conduzindo para essa arte milenar.
Você sabe o quanto não me dei bem com a medicina que me foi ensinada na faculdade. Os estudos que formaram minha personalidade, particularmente na adolescência, me fizeram ter um gosto por uma espiritualidade ampla, que envolvia o conhecimento dos caminhos do ser humano enxergados a partir das mais diversas áreas do saber. De outro modo, tive acesso a uma forma de organizar estes conhecimentos bem sistemática. A doutrina que tanto eu quanto você abraçamos nos permitia responder às mais diversas perguntas com facilidade e lógica. Tudo parecia fazer sentido em um imenso sistema metafísico.
Quando entrei na faculdade, me deparei com um infinito de conhecimentos sobre o corpo humano extremamente fragmentário. Não existia uma doutrina médica propriamente dita, mas como que vários laboratórios disputando corrida de quem descobria mais curiosidades sobre o biológico. Desse conjunto de panos, cabia ao que eles denominavam de clínica costurar alguma coisa que parecesse bom como proposta terapêutica ao paciente singular que se apresentava à nossa frente.
Um ramo da epidemiologia (estudo dos fenômenos populacionais), chamada medicina baseada em evidência, tentava, não costurar, mas filtrar todo o conhecimento produzido por aquela corrida de laboratórios de pesquisa, a fim de, pelo menos, deixar montanha de panos menor, quem sabe assim facilitasse a vida do clínico.
O que deveria ser a racionalidade médica que nos ajudaria a colocar as coisas em ordem - a fisiologia, a patologia e a farmacologia - eram impérios de conhecimentos difícil de se comunicarem, além do que, de vez em quando desmerecidos pelas assim chamadas evidências. Qualquer brilhante conexão que fizéssemos usando estas três ciências poderia ser colocada por terra se a evidência não a chancelasse.
Terminávamos assim, a faculdade, como camelos, carregando em nosso lombo um sem fim de dados, toscamente organizados por alguns casos clínicos que ajudamos a conduzir durante a formação. Cada pessoa que vinha ao consultório em que estagiávamos contribuía para dar um sentido e alguma face para aquele monturo de informações médicas. Era como permitir a encarnação das matérias, das disciplinas.
Falava-se de médicos lendários que após decênios de prática possuíam a coisa com alguma forma apreciável na mente, como que uma pedra melhor esculpida do que nossa ainda incipiente arte abstrata. Geralmente eram professores que conhecíamos ao final da faculdade, conduzindo visitas por leitos hospitalares.
Depois que me formei, fui logo para os ambulatórios da atenção básica, matéria pobremente abordada na nossa formação. Ali me deparei com o que não nos era dito, ou que foi silenciado. A maior parte das feridas das pessoas não são contempladas pela medicina que nos é ensinada na faculdade. A colcha de retalhos que nos ensinaram a costurar era, na verdade, eivada de buracos pelos quais sinais, sintomas, queixas, lágrimas, gestos, semblantes, insinuações passam por inteiro sem nem serem tocados. Essa constelação de assuntos humanos, que a medicina oficial não tem olhos para enxergar, são tidos como "frescura", "piti", "exageros". Fui atrás de saber se o exagero dos pacientes na verdade não seria o reflexo de uma falta por parte da nossa prática. Aqui entra meu namoro com a homeopatia, que lhe contarei na próxima postagem.
Hoje vou lhe falar os motivos pessoais que vem me conduzindo para essa arte milenar.
Você sabe o quanto não me dei bem com a medicina que me foi ensinada na faculdade. Os estudos que formaram minha personalidade, particularmente na adolescência, me fizeram ter um gosto por uma espiritualidade ampla, que envolvia o conhecimento dos caminhos do ser humano enxergados a partir das mais diversas áreas do saber. De outro modo, tive acesso a uma forma de organizar estes conhecimentos bem sistemática. A doutrina que tanto eu quanto você abraçamos nos permitia responder às mais diversas perguntas com facilidade e lógica. Tudo parecia fazer sentido em um imenso sistema metafísico.
Quando entrei na faculdade, me deparei com um infinito de conhecimentos sobre o corpo humano extremamente fragmentário. Não existia uma doutrina médica propriamente dita, mas como que vários laboratórios disputando corrida de quem descobria mais curiosidades sobre o biológico. Desse conjunto de panos, cabia ao que eles denominavam de clínica costurar alguma coisa que parecesse bom como proposta terapêutica ao paciente singular que se apresentava à nossa frente.
Um ramo da epidemiologia (estudo dos fenômenos populacionais), chamada medicina baseada em evidência, tentava, não costurar, mas filtrar todo o conhecimento produzido por aquela corrida de laboratórios de pesquisa, a fim de, pelo menos, deixar montanha de panos menor, quem sabe assim facilitasse a vida do clínico.
O que deveria ser a racionalidade médica que nos ajudaria a colocar as coisas em ordem - a fisiologia, a patologia e a farmacologia - eram impérios de conhecimentos difícil de se comunicarem, além do que, de vez em quando desmerecidos pelas assim chamadas evidências. Qualquer brilhante conexão que fizéssemos usando estas três ciências poderia ser colocada por terra se a evidência não a chancelasse.
Terminávamos assim, a faculdade, como camelos, carregando em nosso lombo um sem fim de dados, toscamente organizados por alguns casos clínicos que ajudamos a conduzir durante a formação. Cada pessoa que vinha ao consultório em que estagiávamos contribuía para dar um sentido e alguma face para aquele monturo de informações médicas. Era como permitir a encarnação das matérias, das disciplinas.
Falava-se de médicos lendários que após decênios de prática possuíam a coisa com alguma forma apreciável na mente, como que uma pedra melhor esculpida do que nossa ainda incipiente arte abstrata. Geralmente eram professores que conhecíamos ao final da faculdade, conduzindo visitas por leitos hospitalares.
Depois que me formei, fui logo para os ambulatórios da atenção básica, matéria pobremente abordada na nossa formação. Ali me deparei com o que não nos era dito, ou que foi silenciado. A maior parte das feridas das pessoas não são contempladas pela medicina que nos é ensinada na faculdade. A colcha de retalhos que nos ensinaram a costurar era, na verdade, eivada de buracos pelos quais sinais, sintomas, queixas, lágrimas, gestos, semblantes, insinuações passam por inteiro sem nem serem tocados. Essa constelação de assuntos humanos, que a medicina oficial não tem olhos para enxergar, são tidos como "frescura", "piti", "exageros". Fui atrás de saber se o exagero dos pacientes na verdade não seria o reflexo de uma falta por parte da nossa prática. Aqui entra meu namoro com a homeopatia, que lhe contarei na próxima postagem.
terça-feira, 11 de julho de 2017
Preparação para Residência médica (o que não se ensina)
Não vou falar de matérias, mas das coisas do espírito. É que a medicina é grande demais, e em um texto não cabe tudo que cai no processo seletivo da residência. Das questões espirituais, cabe tão pouco, mas vale, ao menos, um alerta, que se ninguém fala, passa batido.
É mais para quando estiver já dentro. Você tem que se desfazer de uma ilusão: "não espere assessoria absoluta". Falei sobre o medo na postagem passada. Lá pelas tantas disse que, mesmo em equipe, a solidão da decisão lhe acompanha. No final, é sempre você. Só que, pode ser que no começo e no meio do processo também se encontre sozinho.
Participei da greve geral dos residentes ao ano de 2010. Testemunhei as discussões sobre "quem daria suporte para as emergências", e as réplicas de que "qualquer serviço deveria poder funcionar sem residentes". Fui um dos que compareceu ao Conselho Regional de Medicina para discutirmos a ética da nossa greve e do esvaziamento que faríamos aos serviços. Reivindicávamos não sermos mão-de-obra barata nos hospitais. 1. Melhorar as estruturas hospitalares; 2. Aumentar o suporte de preceptores; 3. Respeitar nossos limites (de hora, de sono, de necessidade de auxílio-moradia); 4. Aumentar nossa bolsa. Deu em pouca coisa o fuzuê inteiro.
Foram dois anos difíceis com péssima estrutura hospitalar, fraco suporte de preceptores, desrespeito aos nossos limites, bolsa exígua. Algumas vezes ouvi boatos de residentes que choravam, mas lamentação no repouso era o que não faltava.
Então, o que quero lhe falar é que nunca na história da humanidade conseguimos conciliar a verdade social com a verdade da alma. Sempre o ideal ficou além e apenas nos serviu de ideia reguladora. Mas, serviu.
Essa minha fala pode ser usada para dois propósitos opostos. Um ruim, que é uma má-fé. Gestores podem se apoderar dela e dizer: "viu, trabalhem e estudem, é uma virtude!". Um bom, que é uma virtude: "trabalhem e estudem, apesar de tudo". Essa dica é para a alma, não é para os gestores.
Se fôssemos esperar pelos que assumem os altos cargos, não cresceríamos. Nossos principais movimentos de amadurecimento vêm de dentro. As pressões exteriores que querem nos esmagar (lembrem do sistema músculo-esquelético, da lei da Frank-Starlin) só podem nos fazer mais fortes, se suportarmos. A diferença é que enquanto a matéria esgarça, o espírito prossegue.
Não encontrei um grande médico nessa jornada que não tenha gerado grandeza da miséria, da opressão, da dificuldade. Esse é o último sentido da alquimia. Fazer sublimar o metal menor de que somos feito no ouro do espírito.
Alguns se perdem no caminho. As doenças que afetam a auto-estima e a vontade são batalhas épicas à parte. Se remédios forem precisos, são bem-vindos. Temos de terminar essa vida tentando chegar no sonho, pouco importa se enfaixados. As cicatrizes sinalizam as lutas; os calos, o trabalho; a pele causticada e rugosa, não termos temido o sol. As flechas do inimigo são tantas que encobrem o céu? Ótimo, combateremos à sombra.
O que quero lhes prevenir é da desistência, acreditando que não há mais jeito. É uma ilusão a ausência de saída. A única saída inescapável é a morte. Se não morremos ainda há fuga, é possível estratégias. Se tivermos morrido... bem, não estaríamos mais tendo essa conversa.
Não nesse molde.
domingo, 9 de julho de 2017
O medo de enfrentar a vida profissional
Estou com dois amigos próximos se formando em medicina. Depois de seis anos de preparação estão com medo de enfrentar as doenças que o trabalho traria. Conversava com minha esposa acerca do mesmo sentimento que nos tomava à época.
Não quero falar que vai passar. Não passa. Um professor emérito dizia: "paciente-livro-paciente". Mas, o medo não cessa. Adquire-se uma técnica de deslizar pela realidade. Alguns padrões de raciocínio e de conduta são enraizados. O medo sempre fica.
Não podemos deixar de viver porque ele está presente. Ele nos protegeu de muitas quedas. Salvou-nos de grandes apuros. Protege-nos, mesmo, de ferir as pessoas com a exposição impensada de tudo o que tem dentro de nós.
De fato, seu excesso, congela. Sentia vontade de não sair do sofá. É um momento de crise. Depois de seis anos de faculdade, apascentado pelos preceptores, um dia, você está sozinho.
Cinquenta por cento das procuras ao médico poderiam ser resolvidas com atos simples, conhecimentos básicos, orientações, nortes (dia desses um senhor de oitenta anos aparece à minha esposa ignorando que beber refrigerante no café-da-manhã prejudica o controle da diabetes). Se esmiuçássemos, mesmo a estes cinquenta por cento, poderíamos fazer mais por eles munidos de conhecimento, experiência e tempo. A rotina não vai permitir se aprofundar na consulta. Mas, a rotina também salva. Os padrões, os algoritmos, os protocolos, os manuais limitam a compreensão de cada caso, mas permitem o início do acolhimento.
Nessa época de redes, as hiperconexões vem permitindo a resolução de dúvidas cotidianas à beira da mesa que antes levaríamos para casa a fim de estudar e dar uma resposta daqui a uma semana, um mês. O medo se dilui na rede. A pesca aos amigos já não é crime, mas imperativo.
O que mais me salvou depois de formado foram os amigos que formei. E isso nem estava no currículo: aprofundar amizades. Eles acolhiam minhas dúvidas como se fossem deles. Por vezes, sentia-me legião ao lado do paciente. Um destes amigos, que sempre foi meio bruto, respondeu tudo o que questionei. Era o que melhor sabia daquilo, e que melhor poderia me explicar. Pedi desculpas pelo incômodo, no que me devolveu: "Por favor, você não sabe a importância que tem para mim lhe ajudar."
Todavia, metade das vezes estará sozinho. E mesmo no sentimento de equipe, cada gesto seu é um protagonismo solitário. Um paciente está no primeiro andar, o seu parceiro, no térreo. Há uma intercorrência ao seu lado. Ao lado dele, também. É o momento de acreditar em si, e naqueles seis anos. O tempo será seu mestre, e o giro da terra provoca as estações. Às vezes está sereno, outras, temporal. Algumas doenças revisitam a cidade, abarrotam as instituições, prejudicam a todos.
Alguns não suportam a urgência dos males, e buscam se resguardar na meditação da clínica. Não tem como. A vida anda de montanha russa. Cedo ou tarde o que é imperioso e inadiável lhe cai nos braços.
No mais, foi gratificante, ao início, ter pacientes entendendo meu raciocínio lento (leia-se: cauteloso) e dizendo: "ele demora, mas é bom!". Ou ainda: "me disseram que sua consulta é psicológica". Seja lá o que isso quer dizer.
Aqui pelo Ceará, porque as engrenagens do sistema de saúde ainda engatinham, nem tudo o que você sabe poderá ser colocado em prática. Dormir com casos mal resolvidos na consciência, boa parte será porque não houve como os resolver. Estava além de suas forças. Importa, pelo menos, tê-las empregado conforme podia.
Não saia de seu psicólogo, se o gasto com a família que formar ainda o permitir. Sair com os amigos para sempre e inevitavelmente falar dos casos alivia um pouco, mas geralmente não é lugar para chorar.
Um pensador de que gosto muito falava que "cinco, seis, sete anos são necessários para formar um médico medíocre, e a vida, um sábio." Medíocre, no sentido de mediano. Sábio seria no sentido de suficiente. Eu, hoje, interpreto como sábio no sentido de consciente. Consciente da condição humana, da nossa fragilidade, do nosso desequilíbrio irremediável, irredutível, de que nunca teremos o último remédio, a última resposta. Daí, o medo sempre espreitar. Contudo, na sabedoria, ele não vai ser mais um sentimento temido, mas um irmão. Velhos, sentaremos com ele num balanço, acariciando os cabelos de quem amamos, sabendo que pode partir logo mais. Ter consciência da nossa impotência não nos redime de lutar, nem da nossa finitude, de viver.
Sejam bem-vindos ao corpo místico hipocrático.
Não quero falar que vai passar. Não passa. Um professor emérito dizia: "paciente-livro-paciente". Mas, o medo não cessa. Adquire-se uma técnica de deslizar pela realidade. Alguns padrões de raciocínio e de conduta são enraizados. O medo sempre fica.
Não podemos deixar de viver porque ele está presente. Ele nos protegeu de muitas quedas. Salvou-nos de grandes apuros. Protege-nos, mesmo, de ferir as pessoas com a exposição impensada de tudo o que tem dentro de nós.
De fato, seu excesso, congela. Sentia vontade de não sair do sofá. É um momento de crise. Depois de seis anos de faculdade, apascentado pelos preceptores, um dia, você está sozinho.
Cinquenta por cento das procuras ao médico poderiam ser resolvidas com atos simples, conhecimentos básicos, orientações, nortes (dia desses um senhor de oitenta anos aparece à minha esposa ignorando que beber refrigerante no café-da-manhã prejudica o controle da diabetes). Se esmiuçássemos, mesmo a estes cinquenta por cento, poderíamos fazer mais por eles munidos de conhecimento, experiência e tempo. A rotina não vai permitir se aprofundar na consulta. Mas, a rotina também salva. Os padrões, os algoritmos, os protocolos, os manuais limitam a compreensão de cada caso, mas permitem o início do acolhimento.
Nessa época de redes, as hiperconexões vem permitindo a resolução de dúvidas cotidianas à beira da mesa que antes levaríamos para casa a fim de estudar e dar uma resposta daqui a uma semana, um mês. O medo se dilui na rede. A pesca aos amigos já não é crime, mas imperativo.
O que mais me salvou depois de formado foram os amigos que formei. E isso nem estava no currículo: aprofundar amizades. Eles acolhiam minhas dúvidas como se fossem deles. Por vezes, sentia-me legião ao lado do paciente. Um destes amigos, que sempre foi meio bruto, respondeu tudo o que questionei. Era o que melhor sabia daquilo, e que melhor poderia me explicar. Pedi desculpas pelo incômodo, no que me devolveu: "Por favor, você não sabe a importância que tem para mim lhe ajudar."
Todavia, metade das vezes estará sozinho. E mesmo no sentimento de equipe, cada gesto seu é um protagonismo solitário. Um paciente está no primeiro andar, o seu parceiro, no térreo. Há uma intercorrência ao seu lado. Ao lado dele, também. É o momento de acreditar em si, e naqueles seis anos. O tempo será seu mestre, e o giro da terra provoca as estações. Às vezes está sereno, outras, temporal. Algumas doenças revisitam a cidade, abarrotam as instituições, prejudicam a todos.
Alguns não suportam a urgência dos males, e buscam se resguardar na meditação da clínica. Não tem como. A vida anda de montanha russa. Cedo ou tarde o que é imperioso e inadiável lhe cai nos braços.
No mais, foi gratificante, ao início, ter pacientes entendendo meu raciocínio lento (leia-se: cauteloso) e dizendo: "ele demora, mas é bom!". Ou ainda: "me disseram que sua consulta é psicológica". Seja lá o que isso quer dizer.
Aqui pelo Ceará, porque as engrenagens do sistema de saúde ainda engatinham, nem tudo o que você sabe poderá ser colocado em prática. Dormir com casos mal resolvidos na consciência, boa parte será porque não houve como os resolver. Estava além de suas forças. Importa, pelo menos, tê-las empregado conforme podia.
Não saia de seu psicólogo, se o gasto com a família que formar ainda o permitir. Sair com os amigos para sempre e inevitavelmente falar dos casos alivia um pouco, mas geralmente não é lugar para chorar.
Um pensador de que gosto muito falava que "cinco, seis, sete anos são necessários para formar um médico medíocre, e a vida, um sábio." Medíocre, no sentido de mediano. Sábio seria no sentido de suficiente. Eu, hoje, interpreto como sábio no sentido de consciente. Consciente da condição humana, da nossa fragilidade, do nosso desequilíbrio irremediável, irredutível, de que nunca teremos o último remédio, a última resposta. Daí, o medo sempre espreitar. Contudo, na sabedoria, ele não vai ser mais um sentimento temido, mas um irmão. Velhos, sentaremos com ele num balanço, acariciando os cabelos de quem amamos, sabendo que pode partir logo mais. Ter consciência da nossa impotência não nos redime de lutar, nem da nossa finitude, de viver.
Sejam bem-vindos ao corpo místico hipocrático.
sábado, 22 de abril de 2017
Uma brecha essencial do raciocínio médico moderno
Introdução
Estou lendo uma reflexão de Luc Ferry sobre as implicações políticas das "Filosofias da História", particularmente a do idealismo alemão. A motivação que o levou a escrever tal ensaio, foi a da suspeita de que os totalitarismos europeus tiveram sua origem intelectual em filosofias da história de base hegeliana (acusação feita por Arendt, R. Aron, Castoriadis), cujo hiperracionalismo fazia com que a verdade fosse assumida como tão imediatamente palpável ao ponto de ser o valor principal pela qual se deveria lutar. A democracia, de outro modo, coloca a verdade política ou como inalcançável ou como impossível de se chegar se não pelo diálogo dos contrários. Nos totalitarismos, um único partido estará com a razão, e sua missão é fazer de todo o possível para assumir o poder, já que a verdade está em seu bolso. Na democracia, o pluripartidarismo é imprescindível, e os diálogos de construção das possibilidades do futuro, a única saída para os problemas de hoje.Então, vislumbrei que essa crítica pode ser feita para o universo médico. A palavra história nos dá o ponto de encontro das temáticas.
Não conseguirei aqui desenvolver com tanta proficiência o que Ferry o fez no seu estudo sobre as Filosofias da História. Mesmo ele percebeu que havia tocado em um ponto tão crucial que precisaria de muito mais fôlego para dissecá-lo a contento. E, ainda assim, fez um trabalho ímpar. Contudo, eu devo deixar nesta página o que seriam nortes para o fôlego que algum dia eu posso ou outro possa ter para desenvolver a temática, que acredito urgente para a medicina.
Pontos norteadores
2. Essa visão cega o historiador para as surpresas que o presente pode dar. Reside sobre uma falácia da generalização e do reducionismo, para a qual basta um exemplo maior que a contradiga para fazê-la cair por terra. Reside ainda sobre uma ilusão da metafísica da razão que eleva esse atributo humano a um patamar de onisciência, como se o olho de carne pudesse enxergar o eterno, fotografá-lo e entender sua essência para sempre.
3. Embora a filosofia da história de base hegeliana tenha se pretendido, por exemplo, nas mãos de Marx, científica, ela destrói o exercício primeiro da ciência que é abertura para o novo, para o surpreendente, para aquilo que pode falsear a minha tese abrindo um campo inteiramente novo de pesquisa e perspectivas. Se eu, enfim, descobri as leis vigentes do universo, finda-se meu trabalho de busca, inicia-se meu imperativo de luta para fazer com que elas aconteçam. Quando na política acontece esse movimento: totalitarismo. Quando na ciência acontece esse movimento: uma ciência que serve ao totalitarismo.
4. A medicina se funda sobre a história da doença do sujeito. Nenhum médico pode prescindir dela. E mesmo quando já não há mais sujeito animado, como é o caso do corpo morto ou da peça patológica, um mínimo de descrição história deve existir para direcionar o olhar do médico patologista para encontrar a razão da doença que se encarnou naquele corpo.
5. Existe uma tensão na história da doença do sujeito. Ela nasce destas duas palavras: doença e sujeito. A noção de doença participa da dureza do raciocínio biológico que flerta com as ciências da natureza, cujo exercício é o de encontrar padrões lógicos, e mesmo leis, que revelem o mecanismo de funcionamento a tal ponto de poder chancelar predições. O modelo é: "se isso estiver assim, então aquilo acontecerá". O conjunto de hipóteses que são assim formuladas, trabalhadas, testadas, validadas, forma um corpo de teorias tão denso e fechado que se cristaliza em um calhamaço a que podemos chamar doutrina.
6. Quanto mais distante é, do homem, a natureza do objeto estudado, mais fácil é de acondicioná-lo em teorias que cumpram seu papel de predição de movimentos. Quanto mais próximo, todavia, mais escorregadio. É o caso do sujeito. O homem é o próprio sujeito. Estudar os movimentos do sujeito é ter que entrar no campo das ciências humanas, que cada vez mais tomam consciência da impossibilidade de projetar o exercício da predição das ciências da natureza para sua episteme, guardando, então, apenas o nobre mérito de compreender o que se passa.
7. Estudar a doença do sujeito não é ter que prestar culto aos movimentos que acontecem no próprio sujeito? Como pode haver uma ciência da doença-que-acomete-o-sujeito sem o sujeito? O que ocorre é um exercício de dissecção da realidade em que aos poucos se vai desfazendo os laços infinitos que atrelam a doença ao sujeito até que se tenha aquela em estado puro para análise dela só. Se isso faz com que se revele certa face da realidade, de outro modo é uma revelação de uma natureza desfigurada.
8. A clínica, que é o exercício de entender o que se passa no doente por inteiro (isto é, binômio doença-sujeito, e há época de Hipócrates ainda havia o complexo doença-sujeito-cosmos), há muito foi contaminada com o separacionismo doença versus sujeito. Raciocinamos, hoje, assim: que doença é esta que está nesse indivíduo ao ponto de eu conseguir extrair dele o nome que possa entrar no algoritmo de tratamento adequado a este nome? Quando o mais honesto com a realidade seria dizer: que doente ele é? Ou ainda melhor: quem é este que adoece?
9. Se eu encaro a história da doença sob os moldes do hiperracionalismo que busca um Espírito Absoluto ou uma Razão que esteja sulcando sua identidade no rastro da história do sujeito, meu exercício é de buscar uma verdade que irá me munir de autoridade tal que tornará meus atos sobre o sujeito imunes a qualquer censura. Um único partido para decidir o rumo da política do corpo a ser tratado.
10. De outro modo, com a teoria da doença na mão, estarei prevenido contra qualquer milagre do Ser (expressão heideggeriana, adotada também por Arendt) que venha a brotar no sujeito. Milagres esses que, por definição, desbancam qualquer lei vigente.
11. É um exemplo cotidiano o estudo de casos de pacientes onde as identidades deles, suas histórias de vida, são grandemente ignoradas, e iluminados são os pontos-chaves que fazem a junta médica reconhecer, como num jogo, a face da doença em cuja doutrina médica há um protocolo de intervenção para ela. O modelo infectológico de raciocínio, na busca pelo agente etiológico, com os sucessos de seus dias áureos dos primeiros antibióticos, tornou esse modelo de pensamento ainda mais potente.
12. Contra todo esse assentamento de bases do edifício da crítica que gostaria de erigir, a medicina baseada em evidência pode se insurgir dizendo: "contudo, funciona". Nos dias de hoje, um conjunto de evidências, não menos robustas, vem apontando que - principalmente no campo da psiquiatria, onde a doença se mistura ao sujeito no que consideramos, atualmente, o mais sagrado de seu ser - a eficácia dos medicamentos é repleta de controvérsias, vieses, metodologias de averiguação falhas.
13. Não vamos ignorar que há casos, principalmente os agudos de novo, e não os crônicos agudizados, em que a doença parece recente e facilmente extirpável. Contudo, os crônico-degenerativos, que é o que vem acometendo as populações em envelhecimento, tornam o processo de adoecimento um complexo semelhante aos das doenças psiquiátricas: a doença mistura-se na forma de existir do sujeito.
14. A medicina da doença pode dar conta das singularidades dos sujeitos? Não estaríamos exercendo, há séculos, uma medicina totalitária, submetendo-os, pelo suposto bem deles, a tratamentos hediondos que inserem em seus corpos efeitos colaterais mais devastadores do que a promessa de tratamento pode compensar? As pesquisas que mostram acréscimos de sobrevida não estariam negando a quantidade de Ser que estas pessoas tem? As sombras que o lendário Ulisses encontrou no Hades, em sua Odisséia, eram plenas de sobrevida, contudo, Aquiles, portador dessa imortalidade sombria lamenta que preferia ainda ser mortal e estar entre os seus cultivando suas terras.
15. Claro que as pessoas não são dóceis para esta medicina. Procuram milagres. Muitos são os intermediários: não apenas santos, padres ou pastores, mas xamãs, cirurgias espirituais, sessões do descarrego, de desobsessão, possessões demoníacas, sangrias sagradas, alquimias, práticas corporais com fundo espiritual, práticas ditas bionergéticas, práticas comunitárias, etc. Qual o poder destas práticas de provocar milagres do Ser, enviesando por completo os resultados das pesquisas da medicina baseada em evidência? Não há ciência preparada para analisar estas práticas. Elas seguem conquistando os sofredores que silenciam a respeito delas para os médicos. São estes fenômenos silenciosos que são acolhidos no ventre do sujeito e gestados no ponto cego da ciência que fazem dela um dos pontos de vista mais ingênuos que já se firmou na humanidade para entender o próprio ser humano.
16. O surgimento da ciência moderna, fazendo-nos crer que se tratava de um movimento contra a superstição dos outros tipos de busca de sentido da vida que já se havia empreendido na humanidade, faz-nos ver que ignorou pontos essenciais do ser humano que as outras abraçavam com maestria, haja vista, tudo o que toca no assunto: dos deuses, dos símbolos, dos totens, do sagrado, das múltiplas dimensões engolfando-se umas as outras, do mágico, do sombrio, do demoníaco, da possessão, dos arrebatamentos, dos êxtases, da clarividência, em uma palavra, do transcendente que copula com o imanente, de Urano sobre Gaia.
17. Não é o caso de, capitulando de toda essa busca por respostas, considerar toda resposta possível. Mas sim, de buscar uma ciência (ou qualquer novo nome que queiramos dar a essa atitude humana) que assuma nossa impotência radical de entender a totalidade do Real, e aceite os milagres que dele brotam. É a primazia do estranhamento sem perder a vontade da ação. Como escapar da metafísica da razão totalizadora/totalizante e se inserir no reino do ente que se encontra a deriva no mar do Ser?
quarta-feira, 22 de março de 2017
Calma e Kayros
Carta ao meu amigo aprendiz
Querido,
Só mais uma lição depois de um dia inteiro de aprendizado. Essa é daquelas para pensar por muito tempo, e prestar atenção qual o caminho para a virtude.
Aquele senhor estava suando e em desespero. O desespero de nenhuma situação pode lhe contaminar. A busca pela assepsia também reside aí. Não é um pedantismo, longe disso. Mas, é que o desespero te tira da sobriedade, em cujo leito deve repousar seu raciocínio.
Como você vai poder ajudar qualquer paciente que lhe venha se não parar para raciocinar em cima de um diagnóstico que te conduza em um caminho terapêutico possível? E, quero que saiba, que o diagnóstico é um campo de batalha na sua cabeça. Parece, às vezes, um jogo de xadrez. O desconforto do paciente move uma peça, você outra, e assim vai. É preciso respiração, presença plena, foco, olho no olho do oponente e decisão. O desespero não ajuda.
É imperioso monitorar? Ok. Mas, o que você vai conseguir afobando a equipe? Você lança a convocação, as pessoas se alertam, você faz propostas, cada um vai acordando para o alarme em um tempo próprio de cada um, vão aderindo ao seu fluxo de comando gradativamente até que uma equipe está em harmonia de ação. Você tem uma equipe coesa? Haverá mais rapidez para a resposta. Você tem um protocolo claro e treinado? Haverá ainda mais rapidez. Você tem um magnetismo pessoal imponente? Haverá mais engajamento aos seus comandos. De todo modo, para conseguir a coesão, a rapidez e o engajamento, é preciso tempo e calma.
Vou falar um pouco sobre o tempo. Os gregos entendiam que havia uma sub-dimensão do tempo que não era simplesmente a sucessão das coisas, mas era também as coisas acontecerem no momento oportuno. Onde podemos enxergar isso naquela emergência?
O paciente estava sudoreico e em desespero? Por quê? Uma cadeia de eventos deveria ter se processado nele para quedá-lo àquela condição. Perdemos essa cadeia de vista e ela nos tomou de surpresa? Calma. Outra cadeia de eventos está se processando no momento da crise, e eu preciso captar o ponto em que posso atuar. Não conseguirei chegar mais rápido em lugar nenhum se eu não souber onde chegar. Não é rapidez, vê? É andar. Mas, por vezes, é parar e olhar.
Poucas pessoas sabem, mas nossa ciência deve muito mais à astronomia do que à física. Os físicos tomam seus objetos de estudo e os controlam em laboratório. Os astrônomos contemplam seus objetos. Os físicos podem controlar variáveis. Os astrônomos tem que calcular o tempo certo da observação. Apenas nessa janela de oportunidade é que ele vai ter as condições necessárias para captar todos os dados possíveis a fim de propor explicações, referendando ou refutando o que já vinha acalentando como hipótese na alma. Se eu perco esse kayros, devo esperar o próximo. Para aquela cadeia de eventos, a oportunidade se foi, mas outra cadeia de eventos segue na órbita do que está acontecendo. É preciso estar aberto para captá-la. Seu desespero não vai fazer com que o astro acelere seu curso, e pode ser que esqueça, desvairado que estava, qualquer instrumento essencial para captar o momento.
Arrume todos seus equipamentos cognitivos, esteja presente, poste-se numa posição de observação privilegiada e siga o instante.
Veja que a saturação dele estava um pouco baixa, que a frequência estava aumentada, que a pressão estava alta. Ainda não havia monitorização cardíaca, mas um membro da equipe estava indo em busca, e o outro havia tido a ideia de aspirar a traquéia, pois era sabido que se tratava de um senhor com muita secretividade e dificuldade de expeli-la. Estávamos pensando em infarto, mas tudo não passava de uma rolha de secreção. Ambas as hipóteses contemplavam a tétrade sudorese profusa, saturação baixa, freqüência aumentada, pressão alta. Mas, enquanto nos preparávamos para o pior, a aspiração traqueal mostrou-se suficiente. Se tivéssemos desesperado a equipe, impedido o movimento de cada um na sua órbita, conforme o impulso profissional individual, tentando submeter ao máximo todas as variáveis à nossa soberania, teríamos começado a dar anti-agregantes plaquetários a um paciente que estava se sufocando.
Arrume todos seus equipamentos cognitivos, esteja presente, poste-se numa posição de observação privilegiada e siga o instante. Você não conseguirá enxergar nada se não souber para onde olhar. Não irá chegar em lugar nenhum se não souber para onde está indo. O tempo é cheio de oportunidades de ouro, é preciso calma para captá-las.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
Visita à comunidade
Elementos para a prática em campo e apontamentos de pesquisa
Quando, no meio acadêmico, fala-se em extensão, tomamos por base que a universidade é um fulcro de produção de conhecimento que deve devolver à sociedade o que nela está sendo investida, isto é, devolver tecnologias que permitam prosseguir nossa caminhada de dissipar a ignorância.
Algumas dessas tecnologias são estritamente utilitárias. Servem a propósitos bem mecânicos, entre os quais potencializar nossos meios de sobrevivência diante das adversidades. A maior parte delas categorizamos como tecnologias duras. Na medicina, são os antibióticos, e toda uma farmacopéia bem elaborada, mas também, os instrumentos de imaginologia que nos permitem devassar o corpo humano para além da visão desarmada, como o PET scan.
Outras tecnologias, que viemos redescobrindo a bem pouco tempo, e que são a menina dos olhos da medicina à beira do leito, dizemos serem leves. É o olhar clínico, a acurácia da palpação, a agudeza da escuta dos mais diversos ruídos do corpo, mas também, e cada vez mais, o olhar entre as pessoas, o toque terapêutico, a abertura para a escuta das mais diversas falas do ser humano que está a minha frente, em presença viva e indiscutível. Há uma verdade, por vezes não exprimível em discurso cognoscível, de tudo o que outro traz na sua história de vida sintetizada naquela presença simples e óbvia logo ali. É mais difícil dizer a que esses conhecimentos se prestam, pois prestam culto à ordem do ser e não do ser-para-algo.
- O ônibus (tecnologia dura) serve para ir à minha amada. Mas, minha amada (o amor entre mim e ela e todas as sutilezas que nos unem - tecnologias leves), pra que serve?
Para visitar a comunidade é preciso desenvolver tecnologias leves. Entre elas, a etnografia, com seu olhar ampliado e sua descrição densa. Mas, uma etnografia desarmada. Desarmada no sentido que vou livre de pré-conceitos(1) e aberto para a descoberta do território que me acolhe. Essa ausência de pré-conceitos não é absoluta. Tenho de calçar certas habilidades que me permitam uma visão mais aguçada para detectar o que passaria despercebido por um olho à toa. Tanto é uma habilidade a ser adquirida (não-inata) que, nas primeiras vezes que se levou os alunos para mapear o território, a atividade foi infrutífera. Que frutos esperar de uma terra não arada, pobre dos nutrientes que poderiam fazer a árvore do conhecimento frutificar? Nesse semestre, decidimos apenas levá-los para já entrar nas casas e entrevistar as famílias, preencher questionários semi-estruturados, e já ir pensando quais informações satisfariam tal ou qual campo de instrumentos de conhecimento da dinâmica familiar (Ecomapa, FIRO, PRACTICE).
Todavia, antes das entrevistas nas casas há o chegar nas casas.
Pelas ruas
Há pelo menos duas grandes ruas que fazem os carros irem e virem da faculdade ou do fórum. Parecem ter sido construídas em planejamento ulterior, pois em sua margem imediata há comércios aglomerados. À montante, uma delas é estreita e vem de uma urbanização não lógica, cortada por alguns matagais, desde um grande lago, contornado por uma imensa avenida deserta, também dando impressão de ter sido forjada ulteriormente para facilitar acessos de carros.
O que parece primordial nestes lugares são as habitações. As travessas que dão para elas não são pavimentadas e são oblíquas. Não há saneamento por estes becos, e um sulco em seu centro escoa as águas das chuvas.
Boa parte das casas são coladas. Compartilham uma parede. A intimidade do som dos interiores parece ser fragilizado por esta arquitetura. O grito de uma casa pode ser perfeitamente ouvido pela outra. Talvez nem é preciso grito, conversas corriqueiras já atravessam o concreto. Não é difícil imaginar ter de sussurrar para guardar segredos. A intimidade das roupas também é exposta. Havendo dificuldade de espaços na profundidade das casas, e estando o sol escasso por estes dias, as roupas em geral, e as íntimas incluso, se acumulam expostas nas varandas e, em muitas delas, na própria frente da casa, em varais improvisados. Essa exposição, que em condomínios de classe média é denunciada rapidamente como corruptoras da estética das fachadas, não parece gerar desconforto entre os moradores e transeuntes dali, naturalizadas naquele cenário.
Cachorros andam aqui e ali. Não parecem ser de raça os de rua, mas alguns domesticados e presos nas casas, sim. Os gatos são em maior número. Como é de praxe entre estes, não parecem ter donos. São mais sujos, também. E um deles parecia estar bem doente e traumatizado logo em frente a uma das casas que entramos.
Eram dez horas da manhã e, desde antes, músicas cortavam o lugar, bregas, sertanejas, antigas, e todas nacionais. Vinham de bares. E já nestes - estamos às dez horas da manhã - alguns homens sentavam em frente de copos de cachaça.
Núcleos de igrejas evangélicas eram mais notáveis, por serem mais numerosas, que igrejas católicas. Parece-me conseqüente da própria estrutura doutrinária destas religiões. A evangélica espalha mais líderes sacerdotais na comunidade. Uma casa, uma garagem, uma sala tem o poder de virar um centro de culto com mais facilidade do que virar toda uma igreja, com abóbada, vitrais e chancela vaticana. Fabricar um sacerdote católico custa mais tempo. Um pastor, em muitas denominações de igrejas reformadas, nasce de uma fidelidade à letra da bíblia, não carece tanto de divagações exegéticas, senão da arte de decorar.
Devemos levar em conta a força de uma referência bibliográfica (não podemos esquecer que a bíblia é um conjunto de livros) que é tão confiável a ponto de o próprio ato de decorar seus versículos já confere poder a quem o faz. Diante de uma modernidade caracterizada pela liquidez de todos os discursos, isso é o que se chama tábua de salvação.
Entre as casas evangélicas, uma placa chamava a atenção. Mostrava a imagem de uma miríade de cadeiras de rodas e muletas abandonadas. Não era para informar à vizinhança que ali havia doação de cadeiras, mas sim que havia força de milagre. Elas haviam sido abandonadas!
Entre os substantivos que davam nomes para as casas de comércio havia anglicismos, nomes próprios, apelidos, nomes jocosos, mas chamou-me a atenção a repetição de um nome em pelo menos dois estabelecimentos: El Shaday. É uma palavra hebraica que significa "Deus todo poderoso". O grande monumento da cultura hebraica é a letra sagrada. O povo judeu só não se quebrou nas diásporas porque a letra os unia. As histórias sagradas davam um senso de identidade para além das terras. Talvez isso, associado a um certo senso mágico, faria com que as pessoas colocassem esses nomes em suas casas. Isso fala a favor, ao mesmo tempo, de um pertencimento cultural e de uma vontade de proteção.
Sobre outras religiões, não as encontrei. O que não implica sua inexistência, já que muitas acontecem nas sombras, e são mais caladas. Apenas uma convivência maior nos becos daquele lugar poderia nos levar a mesas mediúnicas, terreiros de entidades, salas de meditação.
Há carros passando, mas a maioria não são dali. O povo da comunidade anda no lugar a pé ou de bicicleta. Há padarias e mercantis, além de muitas lojas de utilidades e vestimentas, depósitos de construção, marcenarias, consertos em geral. São lojas pequenas. Não há grandes marcas nem centros autorizados. Parecem ser o serviço que a própria comunidade presta àquela vizinhança como auto-provimento.
Nos corpos
O calor de nossos trópicos induz-nos à poucas vestimentas. Homens andam de camisetas ou tórax despido. As mulheres possuem calças curtas, blusas poucas. Grande parte não tem banho de loja ou de cuidados de salão. É um contraste evidente com nossas alunas. Os olhos acostumados à moda que me circunda estranha a combinação de roupas usadas por aquelas gentes. Seria um estudo para ser feito.
Outro efeito dos trópicos é corar os corpos. Claro que há o fator da miscigenação gerado pelo caldeirão de etnias que aqui aportaram. O tipo sertanejo dominou entre nós. Mostra um espectro de peles pardas, muitas delas enrugadas e enrijecidas pelo sol.
O sobrepeso e a obesidade toma conta das mulheres maiores do que quarenta anos. As varizes e as artroses de joelho são evidentes. Segundo os livros, obedecem a lógica da sobrecarga do peso sobre os pés, e da andança de todo dia carregando as compras. Vou abstrair, neste momento, a vulnerabilidade genética que justificaria as discrepâncias.
Os homens eram menos sujeitos ao estereótipo da obesidade, embora ainda os houvesse, particularmente os dos bares. E sabemos que seus joelhos desgastam-se menos por outros tantos motivos anatômicos. Mas, outro estudo a ser feito seria da prevalência das dores de colunas, bem como do alcoolismo que se revela mais gritante à noite. Coloco estas duas entidades lado a lado, porque ambas são o reflexo de más formas de lidar com a dureza da vida. A coluna reclama não apenas das más posturas, mas de ter de sustentar o mundo nas costas - Síndrome de Atlas(2). O álcool ajuda a esquecer as dores dos machos que não se entregam ao desabafo entre pares - Síndrome de Prometeu(2), o titã que roubou o fogo dos deuses e teve seu fígado sujeito a eterna corrosão, apartado de seu irmão.
As mulheres também sustentam o mundo nas costas. Outros mundos. Mais um estudo em perspectiva: quais mundos, naquela comunidade, cada gênero e idade sustenta? Digo idade, porque mesmo na senectude, entre as classes populares, outras obrigações surgem no horizonte, como o cuidado dos netos pelas avós, enquanto a filha adolescente tenta complementar a renda de casa para sustentar o fruto da consecução do desejo não planejado. Daí, outras lógicas pato-lógicas poderiam emergir. Sabemos, da literatura, que se o homem enfrenta os reveses se alcoolizando, a mulher vai desistindo da luta em depressão. Síndrome de Deméter(2), que tem de prover os cereais da comunidade, mas mostra um humor invernal de quando em quando. Por trás das tristezas de Deméter há sempre um amor roubado.
A intimidade dos corpos das mulheres desde cedo, em torno dos vinte e cinco anos, é motivo de pesquisa pela medicina moderna. Sobre ela cai o fardo da prevenção do câncer de colo uterino. Os agentes de saúde reforçam a necessidade de fazê-lo anualmente. Quem não faz é vítima de reprovação. Sabemos que a cada duas prevenções normais, a mulher poderia se dar ao luxo de ser livre dessa invasão por três anos. Mas, prega-se a prevenção anual entre as camadas populares para se criar uma cultura da busca do mal, do achado precoce, da extirpação curativa, e assim cria-se a obviedade de que aquele desejo de intimidade é um prurido a ser combatido. Aos cinqüenta, seus seios deverão ser submetidos à prensa da mamografia, e novo imperativo a faz tirar a roupa. Desta vez a anualidade não tem escapatória. Se a sensibilidade tátil do tecido mamário é maior para esta ou aquela mulher, "trinque os dentes e se entregue que o exame é rápido".
Para os homens, uma medida anual de um mero aperto de braço, o tal "tirar a pressão" é a única coisa que lhes é cobrada, idealmente a partir dos 18 anos. Desde, então, é de bom tom colocar-lhes na cabeça o uso indiscriminado da camisinha. Mas, nenhum oficial médico há de pedir para qualquer deles tirar a roupa no momento do ato sexual a fim de intrometer o condom. Aos cinqüenta anos, e só então, uma certa propaganda urológica quer trazer os homens para a mesa de exame. Os estudos, todavia, são conflitantes e nem todo médico é de acordo que essa medida nos salvaria das mortes do câncer de próstata. Intimidade resguardada.
Outro estudo descritivo sobre os corpos destas pessoas é a respeito das cicatrizes de cesárea. Quantas mulheres a tem? Em um país com número de cesáreas alarmantes, as classes menos favorecidas não parecem ser a que mais alimentam as estatísticas. O Sistema Único de Saúde agradece e força essa cultura do "parto normal" porque é mais saudável, menos sujeito a danos e, muito importante, menos custoso. Não é mentira. Mas, é de se imaginar que se entre as mulheres dali alguma esboça a vontade da cesárea como ato de liberdade de não querer sentir a dor selvagem da parição, será melhor demovê-la dessa ideia torpe, já que as maternidades não dão meios para a consecução dessa liberdade, e não possuem anestesistas para promover um "parto normal" com menos dor. Apesar disso, de todas as mulheres que atendi no posto de saúde próximo dali, nenhuma reclamou dessa falta de livre escolha. Tanto o "parto normal" era o mais óbvio, quanto a amamentação exclusiva.
Nos foi relatado pelos alunos que se depararam, em uma mesma casa, com a discrepância de duas falas, lado a lado. De um lado, uma senhora saudável felicitava a facilidade de acesso aos serviços do centro de saúde, de outro, um senhor, cheio de comorbidades, amaldiçoava a burocracia que o impedia de ter o exames que o médico solicitava em tempo hábil. Veja que o corpo quando adoecido faz mudar completamente a forma como o sistema o acolhe.
Tomemos o câncer como exemplo. As políticas de contenção dos cânceres fazem abrir múltiplas portas para a detecção precoce. A coisa vai ficando mais difícil quando o câncer já está presente e se disseminando. Mais atenção de um só profissional e mais profissionais para uma só pessoa devem existir quando a doença impera. No outro extremo, há um só profissional espalhando um teste simples a mancheia quando a doença ainda nem se revelou. Eis a lógica da clínica, de um lado, e do rastreio, no outro.
Não percebi a presença dos jovens naquela hora do dia. Estaria no trabalho, a maioria? Ou na escola? Ou, se economicamente ativos porém desempregados, dormindo? Aqui e ali lembro de um entregador (de água, de gás, de compras). A juventude permite a resistência e a velocidade que essa atividade exige. Se da literatura temos também o conhecimento alarmante da mortalidade por causas externas afetando este público, outro estudo a ser realizado seria o das marcas da violência nesta comunidade. Mais tempo nela nos permitiria conhecer as gangues que brigam pelo território, as bocas de fumo, os tipos de droga, a estatística do consumo. Uma coisa é visitá-la no começo do dia, outra dinâmica se processa na calada da noite.
Sabe-se, de outras experiências, que a droga ilícita não tem face. Há os que já são demais dependentes. Estes são típicos e induzem medo. Todavia, a maioria não levanta suspeita. Do bêbado no bar ao entregador de água, e mesmo à dona de casa, todos podem já ser consumidores. E qual a proteção que se pode ter contra ela? A cultura do consumismo, da lógica do capital, que induziu a liquefação das crenças mais caras, buscando instilar em todos a necessidade de satisfazer prazeres gerados pelo produto recém-inventado é o fator de risco primeiro para a drogadição. Qual o discurso do drogado senão o "eu preciso daquilo"? É o mesmo dos clientes da Apple frente ao novo modelo de smartphone. Ainda me lembro de vovó que tinha seu vestido costurado várias vezes, e poucos vestidos no armário para renovar o que se perdeu, sob a justificativa extremamente plausível de "não precisar de mais, já que só tinha um corpo". Ela tinha suas certezas, fortalecidas pela religião, que funciona sobre textos que se pretendem superiores à corrosão do tempo. Para gerar um público de consumidores a primeira coisa que se tem de fazer é fragilizar suas certezas, convencê-los da insuficiência do que possuem. Devemos olhar com bons olhos a proliferação de igrejas nas zonas de risco. São formas da comunidade se defender do mal que as invade.
No mais, nosso destino eram idosos que apresentavam no soma o desequilíbrio da pressão arterial (a hipertensão) e do metabolismo da glicose (o diabetes). Estas são doenças ditas crônico-degenerativas que vêm se mostrando multicausal, quebrando o antigo paradigma biomédico que via por trás de cada doença um, e apenas um, agente maligno. Sabe-se que mesmo as infecções surgem e se proliferam porque, na linha que conecta a saúde ao momento da doença, houve uma soma de agressões sobre fragilidades psico-socio-ambientais. Não por outro motivo estas doenças eclodem no meio da vida: acúmulo. Os idosos tinham muito o que falar.
Das casas
Não era tarefa dos professores entrar em nenhuma. Apenas deixamos os alunos entregues às pessoas que podiam recebê-los. No entanto, da porta dava para ver alguns outros tantos elementos que dariam margem para outras muitas observações: os quadros, as cores, os móveis, as fotos, os santos, o cuidado com a casa, o chão.
Os santos de uma casa não são elementos decorativos inertes. Eles anunciam um panteão. Há uma rede de crenças que os fundamenta. Sabemos que, entre as religiões que permitem a iconofilia, elementos de um antigo politeísmo se reencarna na forma das pessoas lidarem com seus ídolos. Cada santo é para um propósito na vida. Pontuo outro estudo: que santos há nas casas das pessoas deste lugar? O que representam? Que poder simbolizam? Por que tê-los em casa?
Assim como o capô de um carro ainda quente revela um passeio recente, as casas, muitas delas, com puxadinhos construídos e tijolos ainda sem pintura nos sugerem movimentos das famílias. Alguém nasceu ali e não teve para onde ir. O dinheiro faltou para a tinta. A família cresceu e se tornou multigeracional. Um membro enlouqueceu ou caducou com crises de fúria e teve de ser isolado. Alguém perdeu a locomoção e as escadas para o quarto de cima se tornaram intransponíveis. Pode ser ainda para alugar o andar de cima a fim de aumentar a renda, ou se mudar para cima no intuito de transformar o andar de baixo em ponto comercial.
Muitos casebres são escuros. A luz do sol é sufocada em um espaço sem ventilação. Constatando-se isso, a vigilância epidemiológica já sabe que terá dores de cabeça com os miasmas(3) circulantes.
Muitas casas ostentavam algumas mudas de plantas na frente. Perguntei para um dos donos de que eram: alfavaca, coentro, salsa, cheiro verde, pimenta. Os espécimes se repetiam. Uma flora domesticada que servia para melhorar a saúde e tornar os alimentos mais apetitosos. Outro estudo descritivo me surge à mente: mapear os elementos das hortas do lugar e, sobre as plantas medicinais, entender qual o conhecimento que as pessoas tem sobre os efeitos daquelas plantas, as formas de preparar o remédio, de consumir.
Algo do espírito
Aqui apenas norteio zonas de investigação. Precisaria de muito mais convívio para tanto.
Difícil abordar esse tema, mas eu começaria pelas festas. Várias religiões se pautam pelas festas, as sagradas e mesmo as profanas. Lembrar que as festas ao deus grego Dioniso eram de vinho, sacrifício e danças esdrúxulas. Lembrar mais ainda que as tragédias são tão violentas quanto sagradas, vide a morte de Cristo. Como as pessoas vivem e ressignificam as datas festivas? Na antiguidade, gregos, romanos, celtas (o mais famoso povo "bárbaro"), bem como, ainda hoje, judeus e cristãos, todos celebram datas que importam para o espírito das gentes.
Deveríamos fazer uma análise dos símbolos, também. Os templos se constroem sobre símbolos. A arquitetura é a mais simbólica das ciências. Desde a abóbada inatingível da catedral católica como a denunciar a pequenez do homem que adentra, até as entidades que se manifestam no terreiro fecundo das religiões afro-descendentes e indígenas a chamar o homem para sua essência telúrica. A astronomia um dia foi uma ciência simbólica, também, mas quem liga para as estrelas nestes dias.
As artes revelam muito do espírito. Todavia, o campo de estudo é movediço. Seria preciso todo um olhar sobre o significado da arte para estas pessoas a fim de começar a fazer correlações. O conceito da arte mudou com o tempo. A relação dela com o divino transformou-se drasticamente. O surgimento da noção de gênio e de gosto na idade moderna reflete toda uma história do desenvolvimento da noção de individualidade e sua relação com o processo criador. Qual a diferença entre a arte técnica e a arte criação? Em que a arte ajudaria como estratégia de enfrentamento das adversidades? Como avaliar seu significado para o indivíduo quando ela se reduz a ganha-pão, quando, como na fábula, a moral da formiga esmaga a da cigarra. De outro modo, mesmo quando a arte mostra sua face de ganha-pão, não haveria nela também os elementos de coping, de resistência e de transcendência?
Por fim, se tempo houvesse, seria o coroamento de todo esse processo sentar e ouvir as histórias das pessoas. Seria um afazer para dias, meses até. A melhor técnica de colher essas histórias seria com perguntas gerais e leves para que pudessem surgir da boca do povo frescas, improvisadas, brutas. Ouvir-se-ia sobre a história da construção daquele lugar ("ainda me lembro quando"), sobre a intimidade dos lares desabafadas entre vizinhos ("tu não imagina o que aconteceu"), sobre as angústias ("por que você está assim"), sobre os fantasmas e lendas ("dizem que"). E se a ética dos confessionários permitisse, com o devido sigilo, entrevistar padres, pastores, pais-de-santo, dirigentes de centros espíritas, figuras de autoridade de religiões xamânicas sobre os pecados do lugar, mas também sobre as virtudes, os exemplos de santidade.
A guisa de conclusão
Falei à introdução que era preciso tecnologia leve para mergulhar em um estudo assim. Era preciso de leveza de um modo geral. Chegar perto das pessoas, saber entrar em uma conversa, saber prosear, saber a pergunta certa na hora certa, sem interromper o fluxo da fala. Saber também, em cada momento, decifrar o que o espaço está dizendo, o fluxo das gentes, as construções sociais.
A pergunta primeira para o estudante de medicina é sobre que utilidade algo assim deve ter para o exercício da profissão dele. De novo volto ao tema, porque importa de fato a distinção: há coisas que não servem para nada. E importa que seja assim.
A primeira das ciências que floresceu na humanidade foi a Astronomia, mesmo entre povos não navegantes como os astecas. Conhecer o céu dava um sentido para Terra, para a vida das pessoas. Vivemos sob a perpétua sombra dele. Com o tempo, o homem vai descobrindo o que fazer com aquilo. A ciência do saber fazer, do transformar o objeto cognoscível em instrumento manipulável é algo que acontece a posteriori. Um físico se debruça sobre o comportamento do núcleo atômico, o outro transforma a energia da fissão nuclear em bomba atômica. Claro que há exemplo melhores, um biólogo estuda os fungos, o outro desenvolve o antibiótico. O ser precede o "o que fazer com o ser".
Aconselho que nesse começo se encantem com o ser das pessoas, da famílias, das comunidades. O diagnóstico é uma ciência futura que precisará do ser como fundamento. A epidemiologia descritiva também precisará apenas disso. Abrir os olhos para descrição é o primeiro exercício da virtude clínica. Saibam que clínica vem do grego, clinamen, que seria uma inclinação. No caso do médico, é uma inclinação ao corpo do paciente, é um debruçar-se, a fim de coletar todos os dados possíveis que o permita enxergar algo que forme uma entidade lógica de funcionamento sobre a qual possamos atuar a favor do restabelecimento ou manutenção da saúde. Contudo, anterior a qualquer formação racional é preciso os dados da realidade que bruxuleia a nossa frente. Com o tempo e prática você vai percebendo o que há de importante num piscar de olhos. Com o tempo e a prática. É preciso todavia estar aberto a surpresas, já que nem três vidas seriam suficientes para que a realidade se revelasse toda ao Espírito. Quantas vidas seria preciso? O Todo é inapreensível! Como o mar poderia caber em uma concha? Todavia, precisamos tentar fazer os recortes que nos ajudam a viver.
Bem, essa prática é um recorte. Estamos voltando aos exercícios de alfabetização em que brincávamos de corte-e-colagem. Em breve aprenderemos a ler. Mas, é imperioso começar.
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Medicina e Espiritualidade para IFMSA
Por estes dias anda acontecendo o encontro da IFMSA (International Federation of Medical Students Associations) em Fortaleza. Convidaram-me para ajudar em um espaço, o de medicina e espiritualidade.
Ao chegar, o jovem que me ajudaria a conduzir perguntou o que achei da energia das pessoas. Sinceramente, disse que sentia-os cansados. Ele me revela que neste encontro há momentos de deliberação organizacional que corta a noite, acrescido de um momento de confraternização festiva.
Tive a ideia, então, de começar perguntando a todos os trinta que apareceram para participar deste espaço quanto tempo eles haviam dormido. Alguns viraram a noite. A maioria dormiu entre 3 e 4h. Havia os de 1 e 2h. Os mais descansados estavam com o sono regulado entre 8h e 10h. Não poderia começar nada sem minimamente equilibrá-los. A yoga vem me fazendo um grande bem. Partilhei alguns movimentos com eles.
Começamos depois, então, o diálogo por aí.
- Sabiam que yoga em sânscrito significa selar o cavalo? Os hindus reconheciam que o espírito era o grande agente do corpo e que deviam fazer do corpo um cavalo domável. Algumas escrituras dizem que os deuses temiam que a prática de yoga provocasse um domínio tal que fizesse que o espírito iogue se desprendesse da carne. Seria uma derrelição da ordem divina.
Queria conhecer mais esse público:
- Vocês acreditam em Deus?
Noventa e nove por cento acreditavam. Fiquei surpreso. Leio tanto livros de ateus que mostram uma realidade tão diferente na Europa, que esperava, entre estudantes de medicina, encontrar mais descrentes. Suspeitei que este Deus não tivesse a mesma imagem para cada um. Alguns definiram como o Deus judaico: o indefinível. Outros como o Cristão: o Amor-Deus. Outros como o Deus dos Iluministas: o Onisciente-Deus. Um garoto nos disse que deixara de acreditar em Deus ao entrar na adolescência. Mas, não era bem uma descrença absoluta. Parecia mais uma moratória. Deus, se existisse, não era acessível à nossa razão. Dever-se-ia esperar morrer para crer. Eu diria que não. Há um equívoco entre crer e saber. Ver Deus face à face: saber. Ter a ideia de Deus organizando a nossa identidade: crer. É o que os hebreus chamavam de sombra de Deus. Deus: uma nuvem.
Perguntei sobre imortalidade da alma. Noventa por cento acreditava, e quem não, pelo menos acreditava ainda em uma realidade transcendente, onde a mente poderia ainda se aproveitar de certo status de independência do cérebro.
Os jovens começaram a falar sobre suas crenças, suas concepções de amor, de Deus, de salvação.
Uma das coisas que quis trazer, em virtude de nosso Ocidente ser filho do cristianismo, é que o discurso judaico-cristão, ao contrário dos muitos discursos que floresceram à época do surgimento da civilização hebraica, era um discurso de derrotados. E isso não é pejorativo. Pelo contrário, demonstra a força que o discurso de um povo teve para manter acesa a coesão deles. Quando os outros povos eram dominados, sua mitologia e seu panteão morriam junto com eles. O discurso só existia enquanto estavam vitoriosos. Não tinha força para se manter vivo após o declínio da civilização deles. Mas, com os hebreus não foi assim.
A perspectiva que eu quis fazer com que eles enxergassem era a de quem via as coisas do plano da Terra, de olhos relativos e mortais. Claro que houve aqui e acolá alguém levantando o discurso do próprio Deus: "Os outros feneceram porque não adoravam o Deus verdadeiro". O meu ponto não era esse. Segundo o Professor Dr. Jacob Wright, da Universidade de Emory, nos EUA, a grande questão, que faz valer a pena estudar profundamente os hebreus em um mundo laico, é entender que mecanismos são estes de sobrevivência que fizeram com que um povo se mantivesse coeso mesmo na desgraça, para além de Estados-Nações territorialmente limitados. Em um mundo globalizado como o nosso, em que os limites territoriais dizem cada vez menos sobre um povo, a resposta para esse questionamento seria uma pérola.
Na medicina, algo muito mais tocante importa para o indivíduo: diante de doenças que nos consomem, por vezes esfacelando nossa identidade diante do espelho (filme: Invasões Bárbaras), que mecanismos teríamos para manter nossa coesão? O discurso da religião aparece entre as respostas.
Trouxe para eles uma divisão didática sobre as ordens a que estão submetidas nossas mais diversas ações e decisões: 1. a verdade (de responsabilidade da ciência); 2. o poder (da política); 3. o dever (da moral e da ética); 4. o amor ou o espírito (da espiritualidade ou da religião lato senso); 5. o absoluto ou Deus (da religião estrito senso ou da filosofia quanto se permite a metafísica). Divisão engendrada pelo filósofo André Comte-Sponville, no livro "O capitalismo é moral?".
Um deles havia dito que Deus seria Ciência. Por esse esqueminha aí de cima, não. Deus estaria no topo, coroando a pirâmide. Mas, ciência, replica ele, envolve tudo isso. Não, minha tréplica, ciência não decide sobre o bem e o mal de uma conduta, apenas se ela é verdadeira ou falsa. Se há um senhor de 77 anos, preso a aparelhos no hospital, sobrevivendo pela bomba de noradrenalina, e seu médico decide desligar a bomba, esse julgamento não é científico. A ciência poderá apenas dizer se vai ser verdade ou não a morte conseqüente ao ato. Que valor moral isso terá? A moral, de outro modo, não implica amor. O comedimento da filha que está lá fora da UTI, pedindo para que não seja desligada a bomba de seu pai, não envolve apenas um imperativo ético, mas uma lágrima de amor. O que não a faz, de todo modo, ter ideia do absoluto. Mas, se, além disso, ela proferir o discurso que o sofrimento de seu pai pode vir a ser recompensando por Deus no momento oportuno, temos aí o campo mais óbvio da religião, embora não seja o único.
Em certo momento, perguntei para os que não acreditavam em imortalidade se, mesmo não acreditando, eles tinham alguma forma de buscar perpetuidade. Um deles falou sobre o renome e a fama. Outro quis desmerecer essa busca. Pedi que não tentássemos diminuir a fala do outro, mas apenas proferir nosso caminho.
Desde há muito, a humanidade se divide na busca de permanência, quiçá infinitude. Os heróis de guerra queriam a glória que firmaria seus nomes na história (Aquiles). Os santos, a ascese. Os pais, os filhos (perpetuação genética). Os budistas, a luz. Os cristãos, Jesus. Cada cultura, cada religião, cada filosofia já formulou discursos para enfrentar a difícil condição de sermos mortais. A vida nunca respeitou esse esforço: sangramos, a pele rompe, perde a elasticidade, mancha-se, os ossos enfraquecem, os músculos secam, esquecemos a todo o instante de tanta coisa. Vamos deixando o que somos pelo caminho que passamos.
Uma mensagem muito importante eu tinha que deixar para aqueles meninos e meninas: somos movidos pelos ideais, pelas paixões. A verdade pode ser uma ordem primordial. Desde que temos consciência, estamos em busca de saber se a realidade que nos cerca é verdadeira ou mentirosa. Todavia, na medida que vamos criando corpo vamos fundando uma doutrina sobre a vida, uma cosmovisão que dá sentido ao que somos, ao que queremos ser, aos nossos sonhos. A busca de nossa verdade, então, vai se tornando uma busca de completar esse quebra-cabeças que somos nós, do que queremos ser. Um quebra-cabeças que já tem um cerne, mas onde peças podem ser adicionadas dando novo contorno, mas quase sem perder a forma (a forma segundo Aristóteles). A ciência é assim. Revelei-lhes que estudiosos da filosofia da ciência vem mostrando, a exemplo de Edgar Morin, que nenhuma pesquisa científica se dá sem influência ou conflito de interesse. Todo pesquisador é um apaixonado. A história de vida de cada um direciona o leme. É o que Morin chama de themata. A minha dica para eles é que não se envergonhassem de seus thematas. Eles dão sentido à busca. No final das contas, voltando para aquele esquema do Sponville, é Deus, ou o amor, ou o espírito que move a verdade. Sem eles, a verdade é nua e oca.
Uma estudante ficou tão encantada com essa revelação que veio falar comigo depois. Não apenas ela, mas três. Os professores, quando entramos na faculdade, vivem pedindo para esquecermos o que fomos, para assumir, de forma isenta, a verdade da ciência. Bem, isso é um engano, falei, talvez eles mesmos não tenham percebido o quanto isso é impossível. Que eu é esse que abandona o si mesmo para ir em busca de algo para si? As pessoas tentam isso. Sim. E é por isso que temos vários indivíduos cindidos. São uma coisa no meio acadêmico, outra em casa ou na rua. Corpos possuídos pelo espírito científico. Quando entram na faculdade, deixam o próprio Espírito no cabide da entrada.
Dos pontos que levei, esse parece ter sido o mais comovente. De uma forma geral, trazer temas de espiritualidade para esse povo foi como ter devolvido alma ao fazer deles. Eu posso ser eu na minha busca de ser mais? Era o que a moça me perguntava, como se eu a estivesse abençoando na jornada dela. Meu Deus, como não?!
Dos milagres mais lindos que presencio na vida é poder compartilhar assuntos que me são caros e são acolhidos com amor no coração das pessoas. Como algo que palpita em mim pode fazer palpitar o que há no peito de outro? Milagre que flui.
Ao chegar, o jovem que me ajudaria a conduzir perguntou o que achei da energia das pessoas. Sinceramente, disse que sentia-os cansados. Ele me revela que neste encontro há momentos de deliberação organizacional que corta a noite, acrescido de um momento de confraternização festiva.
Tive a ideia, então, de começar perguntando a todos os trinta que apareceram para participar deste espaço quanto tempo eles haviam dormido. Alguns viraram a noite. A maioria dormiu entre 3 e 4h. Havia os de 1 e 2h. Os mais descansados estavam com o sono regulado entre 8h e 10h. Não poderia começar nada sem minimamente equilibrá-los. A yoga vem me fazendo um grande bem. Partilhei alguns movimentos com eles.
Começamos depois, então, o diálogo por aí.
- Sabiam que yoga em sânscrito significa selar o cavalo? Os hindus reconheciam que o espírito era o grande agente do corpo e que deviam fazer do corpo um cavalo domável. Algumas escrituras dizem que os deuses temiam que a prática de yoga provocasse um domínio tal que fizesse que o espírito iogue se desprendesse da carne. Seria uma derrelição da ordem divina.
Queria conhecer mais esse público:
- Vocês acreditam em Deus?
Noventa e nove por cento acreditavam. Fiquei surpreso. Leio tanto livros de ateus que mostram uma realidade tão diferente na Europa, que esperava, entre estudantes de medicina, encontrar mais descrentes. Suspeitei que este Deus não tivesse a mesma imagem para cada um. Alguns definiram como o Deus judaico: o indefinível. Outros como o Cristão: o Amor-Deus. Outros como o Deus dos Iluministas: o Onisciente-Deus. Um garoto nos disse que deixara de acreditar em Deus ao entrar na adolescência. Mas, não era bem uma descrença absoluta. Parecia mais uma moratória. Deus, se existisse, não era acessível à nossa razão. Dever-se-ia esperar morrer para crer. Eu diria que não. Há um equívoco entre crer e saber. Ver Deus face à face: saber. Ter a ideia de Deus organizando a nossa identidade: crer. É o que os hebreus chamavam de sombra de Deus. Deus: uma nuvem.
Perguntei sobre imortalidade da alma. Noventa por cento acreditava, e quem não, pelo menos acreditava ainda em uma realidade transcendente, onde a mente poderia ainda se aproveitar de certo status de independência do cérebro.
Os jovens começaram a falar sobre suas crenças, suas concepções de amor, de Deus, de salvação.
Uma das coisas que quis trazer, em virtude de nosso Ocidente ser filho do cristianismo, é que o discurso judaico-cristão, ao contrário dos muitos discursos que floresceram à época do surgimento da civilização hebraica, era um discurso de derrotados. E isso não é pejorativo. Pelo contrário, demonstra a força que o discurso de um povo teve para manter acesa a coesão deles. Quando os outros povos eram dominados, sua mitologia e seu panteão morriam junto com eles. O discurso só existia enquanto estavam vitoriosos. Não tinha força para se manter vivo após o declínio da civilização deles. Mas, com os hebreus não foi assim.
A perspectiva que eu quis fazer com que eles enxergassem era a de quem via as coisas do plano da Terra, de olhos relativos e mortais. Claro que houve aqui e acolá alguém levantando o discurso do próprio Deus: "Os outros feneceram porque não adoravam o Deus verdadeiro". O meu ponto não era esse. Segundo o Professor Dr. Jacob Wright, da Universidade de Emory, nos EUA, a grande questão, que faz valer a pena estudar profundamente os hebreus em um mundo laico, é entender que mecanismos são estes de sobrevivência que fizeram com que um povo se mantivesse coeso mesmo na desgraça, para além de Estados-Nações territorialmente limitados. Em um mundo globalizado como o nosso, em que os limites territoriais dizem cada vez menos sobre um povo, a resposta para esse questionamento seria uma pérola.
Na medicina, algo muito mais tocante importa para o indivíduo: diante de doenças que nos consomem, por vezes esfacelando nossa identidade diante do espelho (filme: Invasões Bárbaras), que mecanismos teríamos para manter nossa coesão? O discurso da religião aparece entre as respostas.
Trouxe para eles uma divisão didática sobre as ordens a que estão submetidas nossas mais diversas ações e decisões: 1. a verdade (de responsabilidade da ciência); 2. o poder (da política); 3. o dever (da moral e da ética); 4. o amor ou o espírito (da espiritualidade ou da religião lato senso); 5. o absoluto ou Deus (da religião estrito senso ou da filosofia quanto se permite a metafísica). Divisão engendrada pelo filósofo André Comte-Sponville, no livro "O capitalismo é moral?".
Um deles havia dito que Deus seria Ciência. Por esse esqueminha aí de cima, não. Deus estaria no topo, coroando a pirâmide. Mas, ciência, replica ele, envolve tudo isso. Não, minha tréplica, ciência não decide sobre o bem e o mal de uma conduta, apenas se ela é verdadeira ou falsa. Se há um senhor de 77 anos, preso a aparelhos no hospital, sobrevivendo pela bomba de noradrenalina, e seu médico decide desligar a bomba, esse julgamento não é científico. A ciência poderá apenas dizer se vai ser verdade ou não a morte conseqüente ao ato. Que valor moral isso terá? A moral, de outro modo, não implica amor. O comedimento da filha que está lá fora da UTI, pedindo para que não seja desligada a bomba de seu pai, não envolve apenas um imperativo ético, mas uma lágrima de amor. O que não a faz, de todo modo, ter ideia do absoluto. Mas, se, além disso, ela proferir o discurso que o sofrimento de seu pai pode vir a ser recompensando por Deus no momento oportuno, temos aí o campo mais óbvio da religião, embora não seja o único.
Em certo momento, perguntei para os que não acreditavam em imortalidade se, mesmo não acreditando, eles tinham alguma forma de buscar perpetuidade. Um deles falou sobre o renome e a fama. Outro quis desmerecer essa busca. Pedi que não tentássemos diminuir a fala do outro, mas apenas proferir nosso caminho.
Desde há muito, a humanidade se divide na busca de permanência, quiçá infinitude. Os heróis de guerra queriam a glória que firmaria seus nomes na história (Aquiles). Os santos, a ascese. Os pais, os filhos (perpetuação genética). Os budistas, a luz. Os cristãos, Jesus. Cada cultura, cada religião, cada filosofia já formulou discursos para enfrentar a difícil condição de sermos mortais. A vida nunca respeitou esse esforço: sangramos, a pele rompe, perde a elasticidade, mancha-se, os ossos enfraquecem, os músculos secam, esquecemos a todo o instante de tanta coisa. Vamos deixando o que somos pelo caminho que passamos.
Uma mensagem muito importante eu tinha que deixar para aqueles meninos e meninas: somos movidos pelos ideais, pelas paixões. A verdade pode ser uma ordem primordial. Desde que temos consciência, estamos em busca de saber se a realidade que nos cerca é verdadeira ou mentirosa. Todavia, na medida que vamos criando corpo vamos fundando uma doutrina sobre a vida, uma cosmovisão que dá sentido ao que somos, ao que queremos ser, aos nossos sonhos. A busca de nossa verdade, então, vai se tornando uma busca de completar esse quebra-cabeças que somos nós, do que queremos ser. Um quebra-cabeças que já tem um cerne, mas onde peças podem ser adicionadas dando novo contorno, mas quase sem perder a forma (a forma segundo Aristóteles). A ciência é assim. Revelei-lhes que estudiosos da filosofia da ciência vem mostrando, a exemplo de Edgar Morin, que nenhuma pesquisa científica se dá sem influência ou conflito de interesse. Todo pesquisador é um apaixonado. A história de vida de cada um direciona o leme. É o que Morin chama de themata. A minha dica para eles é que não se envergonhassem de seus thematas. Eles dão sentido à busca. No final das contas, voltando para aquele esquema do Sponville, é Deus, ou o amor, ou o espírito que move a verdade. Sem eles, a verdade é nua e oca.
Uma estudante ficou tão encantada com essa revelação que veio falar comigo depois. Não apenas ela, mas três. Os professores, quando entramos na faculdade, vivem pedindo para esquecermos o que fomos, para assumir, de forma isenta, a verdade da ciência. Bem, isso é um engano, falei, talvez eles mesmos não tenham percebido o quanto isso é impossível. Que eu é esse que abandona o si mesmo para ir em busca de algo para si? As pessoas tentam isso. Sim. E é por isso que temos vários indivíduos cindidos. São uma coisa no meio acadêmico, outra em casa ou na rua. Corpos possuídos pelo espírito científico. Quando entram na faculdade, deixam o próprio Espírito no cabide da entrada.
Dos pontos que levei, esse parece ter sido o mais comovente. De uma forma geral, trazer temas de espiritualidade para esse povo foi como ter devolvido alma ao fazer deles. Eu posso ser eu na minha busca de ser mais? Era o que a moça me perguntava, como se eu a estivesse abençoando na jornada dela. Meu Deus, como não?!
Dos milagres mais lindos que presencio na vida é poder compartilhar assuntos que me são caros e são acolhidos com amor no coração das pessoas. Como algo que palpita em mim pode fazer palpitar o que há no peito de outro? Milagre que flui.
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