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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Seu Viriato fala com um Preto Velho

 Sou eu, Viriato. Falo aqui como quem escreve em um diário. Talvez este espaço o valha. 

Acordei cansado, mas ansioso. Esses tempos de pandemia desestruturaram minha família. Andei brigando mais com minhas filhas, falei alto com a esposa. Não sou de falar alto com ninguém. Senti-me manchado por ter feito isso. 

As dores do ombro pioraram. Quando começo a me movimentar, o sol melhora o corpo, aquece o ombro, aí dói menos. Os pensamentos estão confusos. Sentei para trabalhar e o dedo se arrastava pelo teclado. 

Vou ter uma consulta logo mais com o ortopedista. Espero que ele me passe algo que melhore essa dor. 

[A consulta com o ortopedista acontece. Foi uma consulta virtual]

Como foi rápido! Eu não tinha muito o que falar mesmo. É apenas um ombro, e ainda mais que é o ombro esquerdo. Vale menos ainda muito papo. 

Já pedi a medicação pelo aplicativo. Nossa! O entregador já chegou. 

- Obrigado!
- Se o senhor poder me avaliar positivamente, agradeço.
- Tudo bem!

O que custa dar um trocado para esse jovem. Ainda me lembro quando eu era da idade dele. Esse ombro não doía assim. Como é mesmo para tomar essa medicação. Ah! Ele disse que tinha de ser com estômago forrado, pois pode fazer úlcera. Deus me livre! Curo o ombro e abro um buraco na barriga! Não mesmo. Seguirei a prescrição. Se é que cura algo. Ele disse que se não funcionar ainda podemos nos valer das injeções. Tudo bem. Não espero mesmo que uma dor que já é minha companheira há tanto tempo saia assim de repente. 

Escrever me ajuda a organizar isso tudo tão confuso. 

Sobre minha ansiedade. Eu falei que havia acordado cansado, mas ansioso. É que no final da tarde vou conhecer um senhor que dizem deixar passar mensagens do além. Particularmente de um preto velho chamado Pai João. Eu nem sabia, mas meu avô participava de rituais assim. Desses de falar com espíritos. A miscigenação das gerações foi clareando nossas peles. Mas vovô era um negro sem qualquer diluição. Eu tinha uma conexão muito forte com ele. E agora, nesse momento medonho, me aparece essa oportunidade de falar com o velho preto do meu avô. Como será isso? O que será que ele tem a me dizer?

[A tarde vem e quase passa. Seu Viriato já está na mesa com o Preto Velho]

- Óia, cê pode ficá bem à vontade aqui, dotô. Tô aqui pá lhe ouvi. Ouvi suas dor, seus pesá, suas encrenca. In nomi de Xangô, salve nosso sinhô Jesus, salve nobreza santa, pode me falar.

(Estranho. Eu sou um homem estudado e venho ter com um tal João que não sabe nem o português direito)

- Pai João, a vida não tá fácil.
- Num tá pá ninguém, fio!
- Minha cabeça tá fora do lugar. Não consigo trabalhar. Tô estressado com a esposa, com as crianças.
- E o casamento tá disgastado, fí?
- Tá por um fio, Pai.
- Difíci cumpri a promessa do altá, das aliança, né mermo?
- Não era pra ser. A vida tava boa, mas o cotidiano e a mesma convivência tá destruindo a gente. 
- Eu te intendo. Amá quando tá tudo bem é fáci. Amá no mêi da tempestadi é difíci. Mas, amá foi aquilo que o nosso sinhô pediu pra fazer, e como o póbi apanhô por defender isso. Dizê que nós tudo é capaz de milagres de amô. Nesses tempo de crise, menino, o amô é moeda rara, tá caro. E basta só uma pacienciazinha pra garimpá ele bem aí no peito. 

(Por que diabos estou chorando? Essa simplicidade dele me toca. Ele fala simples, como quem já viveu muito. Parece meu avô. Se fosse outra pessoa, teria me enfurecido. Me coloca numa posição de menino. Mas, enxergando meu avô detrás dessa entidade, me sinto de novo aquele moleque. Nem consigo falar mais nada. Essa mensagem do amor difícil está em todo o evangelho, mas tem um brilho especial partindo daqui)

- Num se aveche. Se acalme. Eu já vi tanta coisa acontecê nesse mundo. E passô. Renovô. Cê deve tá precisando disso: renová. Tirá coisa velha do peito, da cabeça. Colocá ar novo. Vô lhe passá uns trabáio, que ocê vê com os homi da organização do templo como faz. Anote aí...

O Pai João então me manda para um lugar onde as pessoas dançavam e espalhavam bençãos sobre mim. Depois um fogo passava pelos vários pacientes - vou chamar de pacientes - como que a nos purificar. Dizeres estranhos como que evocações de forças cósmicas animavam os coordenadores dos rituais. Não me cobraram nada, não me obrigaram a nada, deixaram-me livre. Não exigiram minha crença nem minha pertença. Apenas ofereceram o que tinham para dar. 

Talvez seja isso. Estou me cobrando demais, e cobrando os outros. Tenho que me desapegar mais do mundo como eu quero que ele seja, e permitir que o mundo seja o somatório do que podemos ser, respeitosamente. E se eu sentar para ouvir minhas filhas como esse preto velho sentou para me ouvir, sem doutorado, mas com cuidado? Se eu tiver meu coração desperto e meu ouvido aberto para receber a fala da minha esposa como se fosse um ofício sagrado. O preto velho para me ouvir evocou forças divinas. É uma escuta sagrada. Talvez, quem sabe, buscando intimidade com esse sagrado no meu ouvido, toda essa confusão se relativize, e alguma ordem encarne de novo entre nós.

Valei-me! Onde está a dor no ombro? Passou.  

domingo, 21 de abril de 2019

Por um retorno da Alquimia

Como não fui o que se pode chamar aos olhos dos professores de bom aluno, muito embora não parasse de estudar e querer entender a medicina, sou hoje um desgarrado (desgraçado?).

O que sempre me inquietou na nossa prática foi o distanciamento que temos da alma humana, ficando em uma superfície fastidiosa e infinita. Naqueles dias de faculdade, passava com penar ao ver exposto na biblioteca um tratado de milhares de páginas exclusivamente sobre ribossomos. Vitória do cristianismo, ou melhor, de certo tipo de cristianismo

Muitos abordam a questão de esse cristianismo ter calado a filosofia (tida como ciência natural) e mais tarde a própria ciência (experimental) e ainda mais as ciências humanas sobre o que é de mais caro ao homem: a salvação de sua alma. Naquela idade média tardia se dizia que qualquer conhecimento que se afastasse da teologia oficial era insuficiente para abordar esse tema, provocando mais confusão do que salvação. Hoje, derrotada a igreja, simplesmente venceu o discurso de que salvação da alma é balela de missa. Quando muito, o trabalho desse tema foi relegado ao divã de psicanalistas que estão privados de abordar qualquer tipo de transcendência. Tudo da mente do homem deve se explicar dentro da sua própria história tangível. De certa forma, então, a igreja tinha razão: a ciência, dita moderna, amputou-se dos instrumentos e da linguagem de falar da alma, para a alma. Alguma psicologia sobrou no lugar, apartada da medicina.

Inventamos, os modernos, a arte de cuidar da psique? Não. O conhecimento disso é antigo. Quando dizemos hermético, referimo-nos a conhecimento da época de certo Hermes Trimegisto, um deus, um semi-deus, um homem-deus, do Egito antigo que desenvolveu ou revelou conhecimentos tidos hoje como ocultos. A necessidade de segredo não era outra coisa senão a precaução de não deixar a coisa escapar para mentes inábeis. De outro modo, conhecimentos que eram superiores demais a ponto de ofuscar os incautos. 

Teríamos sido mais honestos se tivéssemos rejeitado esses conhecimentos como complicados em vez de supersticiosos. É assim que toda uma história da ciência foi forjada a partir da ideia que astronomia ultrapassou a astrologia, química a alquimia, e parapsicologia a teurgia. Como se houvesse continuidade entre elas ao ponto de se poder falar em ultrapassagem. Não há. A química aborda um conhecimento muito específico, se valendo de técnicas muito particulares do que antes era do campo do alquimista. De outro modo, a alquimia é um mundo, e a química, uma vila. 

Se da química, temos nossas principais terapias cotidianas na medicina, não é de se admirar o caráter lacunar desta. Pelo menos, bem mais do que o era a alquimia. Justiça seja feita, onde progredimos? Progredimos no esforço de tornar problemas nebulosos em palpáveis e assim, passíveis de democratizá-los. Saímos de uma sociedade de castas para uma de acesso universal. Para tanto, conhecimentos herméticos não são possíveis sob pena de não se enquadrarem no modelo político que surge pós era revolucionária, a francesa e a americana como paradigmas dessa era. A educação oficial disseminada para todos exigia um currículo comum e reprimia aglomerados de nobres que poderiam gerar um contra golpe. A materialidade da ciência não apenas possui um motivo inerente a natureza da própria ciência, como também se refere ao teor da capacidade de assimilação das massas.  Veja que na Revolução Francesa, o culto aos santos foram substituídos ao culto dos dias da revolução ou aos mártires da mesma, os meses tomaram nomes de estações do ano. Tudo ao gosto do que é mais imediato para as gentes. Nem mediato, nem transcendente.

Movimento contraditório: a igreja lançou o interdito para a ciência, a ciência rejeita a igreja. Veja bem que não era uma questão de a metafísica não existir, mas de ser temerário a deixar nas mãos de qualquer um. A ciência moderna surge de mãos dadas com o jacobinismo, então, não poderia haver ciência que não fosse do povo para o povo. Vitoriosa a república, conhecimentos tidos como de elite foram desprezados. Esse processo é um que se estende por todos os séculos vindouros com idas e vindas conflituosas, mais ou menos representadas por achaques entre esquerda e direita.

O que temos hoje? Por um lado, um movimento antropofágico que quer devorar todos os conhecimentos tidos antes como ocultos numa era em que o compartilhamento da informação rompe todos os diques. Esse movimento é, em certo sentido, ainda fruto daquelas revoluções. Por outro, uma crítica necessária de que os conhecimentos trazem responsabilidade de uma vida inteira para adquiri-los e de outra vida para utilizá-los. Contradição imposta às ciência ocultas: se querem voltar nos dias de hoje terão de se submeter a vulgarização, mas para sobreviverem com toda a grandeza de antes poucos a conseguirão. Deverá ser para o povo, mas de elite. 

Esse conflito foi o mesmo enfrentado por Platão contra as seitas órficas. Por Jesus contra os fariseus. E longe de mim dizer que Platão e Jesus estejam errados. Talvez mesmo desconsideremos, nas nossas análises ligeiras, que mesmo Platão e Jesus tinham conhecimentos para o povo e conhecimentos para os seletos. Cabe aqui ressaltar, por exemplo, apenas para tocar com um dedo e fazer vibrar a superfície do assunto, que um dos temas mais picantes é a alquimia cristã, herética por natureza, já que surge de uma comunidade católica, ressignificando os fundamentos dos dogmas canônicos. Essa questão de se há duas linhas de revelação a partir de Cristo é a base dos movimentos heréticos e sua perseguição.

Os obstáculo sociais para as ciências ocultas terem espaço nos dias de hoje, aqui representada pela alquimia, são:
  • Como vulgarizar o conhecimento sem deixá-lo vulgar?
  • Como reproduzir uma prática cuja linguagem é inteiramente simbólica, de um simbolismo cultivado de forma milenar, sob um respeito de conservação sagrado, em uma sociedade que tudo quer traduzir para a linguagem dita atual, efêmera por natureza?
  • Como reproduzir um conhecimento que não separe palavra, gesto e rito, em seu mais alto grau de interdependência, em um mundo que vem transformando tudo em binário (0 ou 1), dispensando a presença, convertendo-a em realidade virtual?
  • Como reproduzir os resultados, atalho pragmático que se dá para a aceitação se não da ciência inteira, pelo menos de sua técnica, se os melhores resultados, talvez, se dão apenas na plenitude do exercício da ciência com todos os pressupostos de sua metafísica?
  • Em um mundo ainda preso sob duas censuras, as da ciência moderna, quando o assunto é desvendar a matéria, e as da teologia católica, quando o assunto toca o espírito, como reivindicar a autoridade de se mexer com estes dois polos do humano sem ser rechaçado da comunidade científica ou excomungado da igreja? Parece restar às catacumbas, no segredo da terra onde se sussurram espíritos, a evocação desses temas malditos.  

Nesse sentido, vejo que do jeito que estão estruturados os lugares de veiculação do conhecimento superior nada podemos fazer mais do que uma história disto ou daquilo. Daí para atualizar, no sentido aristotélico do termo, as ciências que foram desprezadas pelos modernos, convertê-las em algo do que pretendiam ser, faz-se necessário, no mínimo, a devoção à princípios e a aceitação de métodos cuja análise mesquinha relegaram a superstições do espírito de época.   

sábado, 26 de maio de 2018

Intenções da aula sobre Saúde e Espiritualidade

Fui convidado para dar uma aula sobre Saúde e Espiritualidade ao curso de ciências da saúde da faculdade em que leciono. O evento maior tratava da Saúde das Minorias. Eu tinha um mundo de coisas para falar. Há muito meus estudos se direcionam para tentar construir um discurso que torne academicamente válido as abordagens acerca da espiritualidade. E, uma vez tendo me formado em medicina, unir a profissão com o tema. O que vem se evidenciando uma tarefa inglória. 

Contudo, esforços dos últimos anos estão logrando este êxito, aqui no Brasil isto é pelo menos, de forma mais consistente, há vinte anos. Acesse aqui este link* para ler um livro importante no assunto.

Nesta postagem quero registrar as intenções da aula que dei, o que pode servir também de ramificações para aulas posteriores. Pretendo mesmo disponibilizar um material inteiro em vídeos curtos na minha página do Youtube. Aqui estão:


  • Ao expor as filiações religiosas que se apresentam em minha história de vida logo à introdução quis que soubessem que ninguém fala de lugar nenhum. A boca fala do que o coração está cheio. O coração está cheio daquilo que vivemos. 

  • É verdade que existe um movimento forte no universo anglo-saxão que estuda a temática, tendo Harold Koenig (1951-) como um grande expoente conhecido em nosso meio. Sua abordagem, como o faz aqui no Brasil o professor Alexandre Moreira-Almeida (1974-), tenta conciliar saúde e espiritualidade com pesquisas que utilizam a metodologia científica pragmática, se valendo muitas vezes de ferramentas quantitativas para provar seu ponto. Esse caminho não é o meu, mas importa saber que ele existe.

  • Dividi a aula em três partes que são quase que dialeticamente conectadas. A dialética é um tipo de abordagem que, confrontando o cartesiano, quer devolver a dinâmica do espírito para a ciência. Hegel (1770-1831) foi o principal nome desse movimento. Não tive tempo de mostrar como a minha divisão da abordagem do tema já era, em si, uma abordagem do tema. Saí do "espírito confuso com a matéria", passando pelo "espírito contra a matéria", chegando em "o espírito para além da matéria". Como falei, vou fazer um vídeo para cada um desses pontos esclarecendo melhor. Desde já cabe entender que essa forma de fazer crescer a argumentação flerta com a alquimia, esta ciência que, como se sabe hoje, influenciou sobremaneira o filósofo alemão Friedrich Hegel, e todo o romantismo alemão. 

  • Na parte "o espírito confuso com a matéria", trouxe as vivências e os estudos de um psicólogo que venho estudando intensamente: Juan Alfredo César Müller (1927-1990). Evocando diretamente suas reflexões, estudos e descrevendo algo da sua prática, iniciei, assim, a exposição com o espírito (da questão) confundido com a matéria (do cotidiano). Juan Müller, se fosse médico, eu diria que teria sido o Paracelso moderno. Talvez ele tenha sido mesmo, tanto mais quanto menos era médico, mas um psicólogo que se utilizava de uma medicina desprezada, a homeopatia, logrando o êxito da cura em vários pacientes, segundo testemunho de alguns luminares que com ele conviveram. 

  • Falei logo no início de experiências parapsicológicas e de comunidades alternativas como a de Findhorn para ilustrar o tema caro ao Dr. Juan Müller, a da psicomagia. Com um tema por assim dizer, inteiramente alienígena ao discurso acadêmico atual, mas extremamente presente na prática desse psicólogo acredito ter provocado vertigens na plateia que, pela novidade radical do assunto, deve ter estranhado tantas informações.

  • Na parte "o espírito contra a matéria", é o momento que, sem me desviar do tema da psicomagia, trago o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) para contra-argumentar o poder universal desta potência humana. Este senhor traz um conjunto de experiências de desmascaramento de xamãs que o levaram a concluir que, já que o xamanismo, por outro laudo, provocava várias curas exitosas, deveria fazê-lo por compartilhamento de uma estrutura simbólica que comunicava o poder terapêutico ao paciente membro da comunidade. Aqui representei a primeira parte da contradição: quando a matéria (científica) se volta contra o espírito (dos xamãs). Contudo, ainda assim, ela aceita a sua eficácia em parte. 

  • A segunda parte da contradição é quando o espírito (das religiões) se volta contra a matéria (a tentativa de materializar o espírito). Essa discussão parte da pergunta "quem cura?". A princípio, é importante frisar que cura é uma categoria que só se pode trabalhar em âmbito metafísico, ou religioso, pois para falar de curar apenas é possível se considerarmos o todo. Assim, nenhuma ciência cartesiana tem a possibilidade de abordar o tema, nem pode prometer tal coisa, haja vista, trabalhar com um método fragmentário e fragmentador por natureza. Vou deixar essa questão em um ponto isolado, pois merece uma explicação à parte. 

  • As respostas para a pergunta levantada no item anterior envolvem dois elementos opostos. Quem cura? [1] Deus (ou o círculo da divindade) ou [2] o homem (ou o círculo dos mortais). As várias religiões ou concepções de mundo se dividem por estas respostas. Senão vejamos: é Deus (judaísmo, islamismo), é o homem (materialismo, psicologismo), é o homem que pode o divino (humanismo), é Deus que se fez homem (cristianismo, hinduísmo), é o círculo divino ou angélico que age pelo homem (as diversas concepções mediúnicas da relação com o sagrado), é Deus que floresce no homem (hermetismo), é o homem que é Deus e não sabe (gnose), é o homem que é Deus e não tem consciência disso (budismo). Porque o fundamento de cada uma dessas concepções são radicalmente diferentes, uma não pode aceitar a veracidade da outra sem se destruir. Quando muito podem assimilar em sua complexidade a possibilidade do fenômeno do outro e suas simbologias, adapatando-as organicamente na própria identidade. Eu não consegui aprofundar este tema na exposição tamanha a complexidade do mesmo, o esgotamento do tempo e o cansaço da plateia. 

  • A última etapa foi "o espírito para além da matéria" ou "o religioso depois da religião", em uma superação dialética. O objetivo era esboçar possibilidades de assimilar o espírito (tudo o que mais ou menos englobamos neste conceito nebuloso de espiritualidade) na matéria (do contexto clínico). Isso implicaria, como acontece no modelo dialético, ultrapassar a contradição da etapa anterior (o espírito contra a matéria) sem desperdiçar a experiência de qualquer um dos polos. Nesta tentativa, duas correntes de pensamento se evidenciam na história da filosofia. A primeira, spinozista, que entende ser a razão humana possível de acessar o todo da questão, em um processo de, no dizer de Spinoza, beatificação da inteligência. A segunda, kantiana, que entende ser a razão humana radicalmente limitada, impossibilitando o acesso ao todo da questão, tornando novamente legítimo a aceitação do mistério entre nossas tentativas de buscar a verdade ou, nesta argumentação presente, a cura. Há coisas que nos são interditadas, apesar de, nem por isso, serem impraticáveis. Outro tema de uma complexidade cujo aprofundamento estava para além do tempo de exposição e do ânimo da plateia. 

  • Por fim, falar da presença inequívoca e ubíqua do tema da espiritualidade no momento em que todo o sentido dado pelas intervenções médicas se esfacela, no surgimento, feito ferida aberta, da vulnerabilidade extrema do ser humano, ou da terminalidade da vida. É o lugar comum do tema. Quando ele aparece mais óbvio por um motivo simples: a morte aponta para a vida exigindo dela o que foi feito para merecer a morte. Merecer aqui em, pelo menos, dois sentidos. O primeiro, relacionado à justiça, por que justamente eu tenho que morrer? O que fiz de errado para merecer a morte? O segundo, relacionado à grandeza, o que fiz de bom para merecer a morte? Em outros termos, de um lado a morte como castigo, de outro, como prêmio. Nenhuma alma humana consegue encarar o fim da vida fora destes extremos. Ou é o desespero ou a esperança. É a convulsão ou a aceitação. O inferno ou o céu, ainda que esses lugares não existam como um topos, que sejam ao menos um topoi, isto é, um ponto de partida argumentativo para se imaginar o desfecho da vida humana, quando a história de cada um chega no topo. Ainda que esses lugares u-tópicos representem o que se passa na consciência de cada um no derradeiro instante. 

Para cada item desse me sinto motivado a fazer um vídeo. Acredito ser um esboço interessante para a introdução do tema Saúde e Espiritualidade. Segue o que imagino ser o programa ideal dos vídeos, correspondendo a cada um dos tópicos anteriores:



 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

As três forças da anamnese

Sabiam que o simples exercício da anamnese também envolve as três forças que venho tentando mostrar certa coerência entre elas, quais sejam, a força sexual, a do trabalho e a da morte?

A anamnese é aquela atividade básica da medicina de coletar a história da doença da pessoa que nos procura com o intuito de encontrar uma solução para aquela dor.

Como a força sexual aparece aqui? Temos o costume de fecundar a história das pessoas com a nossa lógica. Uma lógica aprendida em seis anos intensos de estudos. Não devemos esquecer, porém, de deixar nossa razão ser fecundada pela lógica delas.

Fecundação aqui parece um termo metafórico de extrapolação duvidosa, porém ele revela todo o cuidado, responsabilidade e paixão (pathos) necessários em uma relação de partilha que deverá gerar filhos (diagnóstico e terapêutica), que são tanto maior motivo de júbilo quanto mais bem concebido tiverem sido.  

A força do trabalho se mostra no esforço de resgatar e elaborar uma narrativa da doença que ajude a construir um objeto que guie o retorno à saúde. Após concebida a narrativa, ainda se deve dedicar à lapidação, ao estudo meticuloso dela, ao conserto de conexões quebradas ou incoerentes. Se na etapa da força sexual estávamos no âmbito do primeiro encontro, cheios do viço da novidade, na da força do trabalho, caímos no lugar da escultura, da técnica, da ars.  

Por fim, há uma ética que percorre todo o exercício da anamnese, que é uma que apenas aprendemos de fato ao lidar com diálogos em torno da morte: aprender a ouvir mais do que falar como símbolo do estágio final da aceitação do que a vida traz, incluindo seu fim. Essa ética nos devolve a uma humildade de saber que todo esse esforço pode não resultar em cura, mas pelo menos em uma conversa terapêutica diante de alguém que esteve aberto para tentar algo por aquele que sofre. A filosofia dos cuidados paliativos dizem ainda: alguém que está aberto para continuar tentando, de um outro modo. 

É assim que o bom entrevistador passa por estas três zonas sagradas: participar da concepção da história, trabalhar sobre ela, respeitar a cada momento a sua fragilidade. É assim que seis anos de faculdade servem para formar médicos medíocres, e a vida inteira, sábios.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Como Tântalo

Ontem estive à missa, e minha eventual participação junto à esposa que vinha sendo sincera não aconteceu. Fiquei olhando o Ressuscitado com dúvida. Não de que ele não tenha ressuscitado ou que ele não tenha todo o poder que dizem ter, mas de porque não vejo esse poder cotidianamente. Já que ele rasgou o véu do templo, e até cadáveres perambularam pelas ruas daquele dia esquisito da crucificação, a partir da constatação do corpo ausente dentro da gruta com a pedra rolada, o mundo das experiências imediatas deveria ter se tornado radicalmente outro. Uma avalanche de milagres deveria ter invadido as horas do café-da-manhã à ceia. Não foi isso o que aconteceu. 



***


Tenho algumas pessoas amadas sofrendo ao redor. Parkinson, depressões, ansiedade, transtorno de personalidade, transtorno bipolar. Os últimos esforços intelectuais que venho tendo me fazem enveredar nas medicinas alternativas. Encontrei nelas a possibilidade de enxergar onde o poder terapêutico (milagroso!) de Jesus se escondeu. Porque fala-se em esconderijo, deparei-me com as mais diversas noções de esoterismo ou ocultismo cristão, das quais já partilhava algum conhecimento por vir de berço espírita. Entre estas noções estão as de vários corpos sutis, para além do corpo físico palpável, que nos revestem. São eles passíveis de serem afetados por uma miríade de forças sutis que nos rodeiam, cuja sensação não é a de toque, mas que não deixa de ser menos real. Para conseguir captar essa realidade oculta é preciso desenvolver o olhar, preparar o espírito, estar aberto. É um tipo de ciência que exige a obediência da consciência ao invés da crítica, a disciplina para com os mestres ao invés do enfrentamento desafiador. É um outro reino - dir-se-ia paradigma - este das sutilezas.

A medicina que mais me cativou nesses pontos foi a homeopatia. Para o seu exercício é preciso abraçar todas essas crenças das sutilezas, muito embora ela flerte com o comportamento reativo das ciências normais, tendo surgido através de experimentações em seres humanos, anotando todos os resultados (auto)tangíveis. Desde que nasceu, nunca deixou de ser atacada pela medicina oficial, bem como nunca deixou de contra-atacar. Hahnemann, seu fundador, levantava discussões calorosas e tecia insultos explícitos contra o que denominou de alopatia, a prática médica violenta da utilização dos princípios contrários para lidar com as doenças (anti-inflamatório, anti-histamínico, anti-espasmódico, anti-biótico). Além do que, li testemunhos exitosos na literatura de profissionais de experiência e cultura vastas.

Após dois anos de estudos, ainda não tão profundos, vinha me apropriando das aproximações homeopáticas para o tratamento das doenças. Aventurei-me a dar alguns preparados para duas pessoas do meu círculo. Não funcionaram. Um deles possuía um sofrimento congênito, o outro uma devastação de alma. Culpei minha ignorância e não a homeopatia. Um filho se submeteu à outro preparado, e mais outro. Não funcionou a contento. Culpei o profissional. Todavia, há duas semanas tive uma sinusite clássica associada à uma crise asmática insistente. Falei com a melhor homeopata que já me atendeu, na qual via a excelência de toda a abordagem anamnésica e do raciocínio. A minha era uma crise clássica e aguda. Não acredito que houvesse tantas camadas de doenças assim para dificultar o resultado do tratamento, como às vezes o há em casos crônicos, precisando dissolver o que Hahnemann deu para chamar de miasmas antes de chegar ao núcleo da doença. Não deu certo. Fiquei ainda esperando os efeitos positivos da exoneração do mal, da superficialização dos humores malsãos por dois dias. Descrevi o quadro para minha esposa para ver se ela me ajudava a enxergar se havia algum sinal de melhora. Ela me fez entender que não havia. Era um momento muito especial para mim, por mil motivos. Estava com ventos excelentes nestes meses para me dedicar de vez à homeopatia. Esta ineficácia me foi de uma frustração sem igual.

Olhei ontem o crucificado e todo aquele povo a cultuá-lo. Jovens dedicados ao ministério da música, alegres, entoando cantos, animando os fiéis. O padre, a cada novo pensamento, crescia a voz exultando a páscoa do homem-Deus de Nazaré. Os corpos das pessoas não eram perfeitos. Enxergava mil deformidades por todos os lados. As almas, pelo menos três naquela igreja, eu as via quebradas, a minha e a de mais dois conhecidos. Um jovem à minha frente desviava sua atenção para o celular. Uma criança levantava as mãos imitando a multidão. A secreção do meu nariz diminuía à base do que as medicina alternativas tentam evitar: antibiótico e corticóide. Não são medicamentos sutis. Eles matam muita coisa dentro da gente para poder nos curar. E essa morte secundária por vezes acaba gerando outras doenças. É a denúncia que mais vem crescendo contra a medicina oficial nos últimos anos, pelo menos desde Ivan Illitch contra a iatrogenia.

Não é tanto a derrota para comigo que me infelicita, mas escorrer pelas mãos as possibilidades de tratamento dos sofrimentos das pessoas queridas que se me avizinham. Parkinson, depressões, ansiedade, transtorno de personalidade, transtorno bipolar. Medicamentos se acumulam limitados no efeito, induzindo tolerância, como se o mal estivesse apenas contido, a muito custo. Efeitos colaterais se assomam. 



***


Olho novamente para o Crucificado. Seu rosto ensanguentado mira o chão. Sua cora de espinhos, seu manto cobrindo as partes íntimas, seu corpo cadavérico. O poder dele trouxe vida a tantas pessoas e não conseguiu se salvar - até o dia da pedra rolada. Será se todo o teatro dos milagres era para chamar a atenção para o dia da ressurreição? Será se o poder de cura que ele tinha não é passível de ser apreendido por uma técnica conquistada pelos humanos? Será se o caminho de todo homem é suportar o calvário até a própria cruz, sendo o milagre diário o suportar a vida de deformidades até o acolhimento supremo nos braços do Pai? O milagre da igreja é manter as pessoas na fé, apesar de toda a incoerência e todo o ódio do mundo. 


Há uma razão quase matemática na medicina oficial, pelo menos é onde ela se esforça em se fundamentar. Mas, toda a matemática do mundo não chega perto da promessa de salvação anunciada pela cruz, revelada no túmulo vazio, nas vestes vazias deitadas ao chão. Será essa a nossa sina? Tentarmos sobreviver com os recursos parcos da razão humana, que nos permite rastejar entre dias melhores e dias sombrios até o juízo final? Tarefas menores do dia-a-dia vão dando sentidos menores para a vida. Uma ansiedade de vez em quando paralisa. Rezar para que não dure muito. Esperar que a liberdade final se concretize, um dia.

Desabafos de uma mente inquieta. Não vou parar de buscar. A ignorância dos meios sempre é uma desculpa sensata para continuar a busca. Não quereria o Cordeiro que apenas nos entregássemos sem tantas reservas, sem tentar ser deuses como ele? Se assim o for, o mundo está bem errado. Não faz sentido. Essa dicotomia esgarça o espírito e deixa mais ansiedade do que consolo. Continuar pois, como Tântalo, para quem a sede era tudo.

sábado, 24 de março de 2018

Lidando com a vulnerabilidade

"Tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change." 
(Mallarmé à Edgar Poe)

Neste pouco tempo em que estivemos conhecendo um grande centro de tratamento de pessoas portadoras de câncer, algumas cenas me chamaram a atenção. 

Primeiro, a presença de símbolos sagrados pelos lugares: a santíssima mãe da tradição católica em vários pontos, particularmente uma grande no centro do prédio, um quadro da santa seia no lugar onde se consomem as refeições junto ao abrigo filantrópico. Segundo, um culto religioso em alto e bom som no quarto andar do hospital. Terceiro, a discussão exegética entre dois rapazotes acerca da verdade da Palavra. 

Uma acadêmica traz uma história de sofrimento de certa idosa, e no meio fala que "porque ela tem fé, parece não temer a doença".  Outra traz novo relato em que o paciente refere ter entendido ser aquele agravo um castigo divino, por isso retornará para a igreja, da qual estava afastado, no lugar de cujas reuniões antes ia beber e se divertir com amigos mundanos.

Uma concepção antiga de psicologia, mas ainda vigente no imaginário de muitos psicólogos é que a religião é um enfrentamento inefetivo dos problemas, um retrocesso infantil em busca de colo na figura simbólica dos pais. Tolice!

Alguns comportamentos no âmbito religioso são menos efetivos que outros no caminho necessário do ser humano para a transcendência. Mas, a busca pela transcendência é o destino humano. Mesmo Sartre ou Marx não escaparam dessa nota. Sartre com seu homem devir. Marx com o devir de uma comunidade, enfim, justa, segundo os moldes apriorísticos que defendeu.

O ser humano, desde que nasce, é este projétil apontado para o infinito. A morte, para alguns, fecha o ciclo, para outros, inaugura-nos na eternidade. De todo modo, ela encerra o que melhor pudera ter acontecido na aventura de viver de alguém. 

É imperioso que saiamos dos condicionamentos biológicos que nos prendem às necessidades mais básicas - ditas baixas - em busca das altas possibilidades do espírito: o intelecto, a arte, a política, a religião. Claro que em todo lugar encontraremos análogos simbólicos das estruturas que foram o berço da nossa concepção de mundo. Dessa forma, sempre haverá um pai ou uma mãe que nos acolhe e nos impulsiona nos diferentes setores da vida que vamos galgando. A diferença é que, se formos bem sucedidos nessa caminhada, cada conquista nos eleva, nos torna maiores, ampliados, e senhores de nós mesmos em certo campo, nascendo para outros. O fim de tudo isso é o cosmos, diziam os gregos, é Deus, para os cristãos. Isto é, metas inatingíveis que nem por isso devamos nos eximir de as mirar.

Participar de cultos, espalhar imagens que remetam a arquétipos memoráveis, submeter-se a ritos, ler e discutir palavras de sabedoria que acumulam mais vida e voz do que nossas mirradas existências sonharão em ter não é infantilização, mas exercício de preparação para adequar-me ao eterno, sem que ele, antes do último suspiro, me esmague sem consolo. 

- "Nele mesmo, enfim, a eternidade o transforma."

terça-feira, 6 de março de 2018

Caminhos novos e sinalizados

Urge registrar, antes que me esqueça, antes que eu seja esquecido. Estas linhas são para aqueles que quiserem seguir um caminho como este que direi, ou para mim, quando voltar daqui há um século, caso ainda brilhe o olho ao ler sobre estes caminhos. 

Depois de batalhas cruéis contra a medicina oficial, venho encontrando autores que conduzem para um pensamento mais inteiro do ser humano. São eles Paracelso, Gerard Encausse (Papus), René Guenon (dissidente de Papus), Juan Alfredo Cesar Müller. Revelam-me:

  • Paracelso: a possibilidade de uma medicina vitalista e analógica, alquímica, espiritualista e teúrgica. 
  • Gerard Encausse: a necessidade de adicionar a visão sobre os múltiplos corpos sutis do ser humano, uma incipiente, mas urgente abordagem da fisiologia do espírito (ou perispírito, como queremos, os espíritas), a necessidade de resgatar os conhecimentos esotéricos do ocidente, ainda que toscamente, haja vista, astrologia, artes divinatórias, cabala. 
  • René Guenon (meu amigo-inimigo, já que abomina o espiritismo): o respeito pela tradição das grandes culturas, particularmente a hindu, a chinesa e a islâmica, em diálogo com o cristianismo, nosso tudo. Suas críticas ácidas contra o cientificismo, na sua pretensão totalitária. 
  • Juan Müller: psicólogo szondiano argentino, utilizador de homeopatia e astrologia na clínica diária. Vários relatos de contemporâneos apontaram seus êxitos em cura. O livro "Alquimia Moderna" traz descrições de casos que provam estes êxitos. Sua forma complexa de ver a realidade é a materialização de tudo que venho estudando - epistemologia, psicologia, homeopatia - o que me induziu a ter renovada paixão pela homeopatia, um desejo voraz pela astrologia e uma vontade de aprofundar os estudos dialógicos entre medicina e psicologia. 

 Alguns agravos de saúde me assustaram nesse último ano, induzindo-me à aceleração dos estudos destes temas. Os esforços não prestam culto à higiene do sono, e por estes dias pouco respeitam até mesmo o imperativo de repouso. Acabará acontecendo como Allan Kardec que, instado pelos Espíritos guias a alentecer o passo, desobedeceu, agilizando o degaste corpóreo, porém deixando legado incomensurável para a humanidade.

Não pretendo atingir as alturas de Kardec. Já me bastou muito tê-lo como mestre. Felicitar-me-ei, tão somente, em não perder mais uma encarnação, estando perdido no caminho das ciências. 

Pela exiguidade do tempo que me ameaça, quero minimamente deixar alguma viela pavimentada e sinalizada a fim de minha próxima personalidade reencarnante saber como continuar. 

Ah! Claro que os doutos riem de mim. Nenhum é meu amigo ou paga a alimentação de minha família. Sem açúcar e sem afeto, pouco me importam suas críticas. 

Meu currículo oficial não cresce. As revistas científicas destes tempos são guetos de reprodução de mesmices. Raramente há uma explosão. As redes sociais, impulsionadas pelos recursos da informática, servem mais para nos conectar com os pares e divulgar nossas ideias. É assim que, em breve, estarei fundando um grupo de estudos de medicina esotérica com três colegas cujo gabarito excedem o meu. Não me admiro, nestes tempos aquarianos, que o grupo cresça e se mova a tal ponto de deixar qualquer risco na história que, mais robustos que estas linhas, me ajudem a chamar a atenção quando o exercício do esquecimento das vidas passadas tiver turvado meus olhos além.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Carta ao meu amigo hoje interno de medicina

Querido,

Você me desabafa que passa mais tempo com as folhas que com as pessoas. Não foi para isso que passou quatro anos de faculdade, eu sei. De manhã é saber como os internados estão, o resto do dia é preencher prontuários e participar de discussões, ao final é ir informar a conduta médica para os interessados. 

Quando você chegar na saúde comunitária, vai ver que boa parte do nosso tempo é dispensando receitas para os que batem à porta. Quase nunca entrar na comunidade, ainda mais nestes tempos de violência que assombram a cidade. Acabamos passando mais tempo com as folhas que com as pessoas, também. 

Penso, todavia, que devamos enfrentar essa situação de peito aberto. Tenho para mim que a formação médica, custosa que pareça, é porque não tem um objetivo racional ao final, não desta racionalidade moderna que o homem de gênio se gaba. Ela é, sempre foi e nunca deixou de ser, mesmo a contragosto, da ordem da magia.

Em certa comunidade oriental, salvo engano Zen, um dos descendentes veio parar por estas bandas eurocêntricas e teve uma visão da deusa do lugar de origem. Ela era filha do fogo. Esse arrebatamento o fez crer que poderia representar a deusa entre os homens. Voltou para sua comunidade primordial e apresentou suas pretensões. Os sacerdotes do lugar deixaram-no passar noites inteiras nos cantos mais gelados, derramando sobre ele baldes de água. Se ele era realmente protegido da filha do fogo, que provasse! E sobreviveu. Voltou com a fala mansa e ígnea para motivar os transeuntes aflitos dos caminhos por onde passava.

Entende onde quero chegar? Tenho para mim que essa nossa pretensão de querer uma medicina "humanizada", como dizem por aí, deve sofrer a prova da desumanização extrema, da mecanização, da negação do corpo e dos sentimentos. É o que tentam fazer por todos os lados as instituições por onde passamos. Sobreviveremos ou morreremos de frio? 

Com um pouco mais de tempo na estrada que você, se eu sobreviver, sentindo o deus do Encontro enfim tomar o corpo, vou te contar como é essa mística de cuidar das pessoas pelo gesto, pelo olhar, pelo toque terapêutico dos xamãs. Por ora, prescrevo e instilo veneno nas veias, escravizam-me papéis. Algum dia, queira Deus, liberto desse jugo, espalhe mais calma, mais conforto, com menos instrumentos entre mim e o outro. O ápice do encontro!  

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O legado cristão para a visão de saúde de nossa cultura

Dentro da medicina, desde o início, uma das matérias que mais nos encanta é a farmacologia, isto é, o estudo de substâncias que podem tratar o mal das pessoas. 

Ela funciona relativamente bem. Se perde na história da medicina o tempo em que usamos elementos estranhos ao organismo humano para cicatrizá-lo. O desenvolvimento tecnológico acompanhado do aumento da nossa capacidade em demonstrar resultados com intervenções específicas ajudou a canonizar os fármacos. Todos acreditam, em maior ou menor medida, no poder das drogas receitadas pelos médicos. 

A religião, que antes era associada com a arte de curar o corpo além de salvar a alma, ajudou a chancelar esse tipo de crença no nosso meio. A salvação que vem de fora: de um xamã, de uma erva. 

De algum modo, o cristianismo muda isso radicalmente, embora não tenhamos assimilado por completo essa radicalidade. Cristo nunca curou ninguém com matéria, salvo em João 9:6 quando se vale de certa preparação de saliva e areia para dar luz à um cego. E muito embora ele devolva para a pessoa a responsabilidade da própria cura pela fé dela, o que fica é que sem ele nada teria acontecido. Jesus foi o grande canalizador das curas, ou melhor, o divino autor delas. Ele permitiu, promoveu, senhoreou-as. É isso o que o torna, na visão do cristianismo oficial, o salvador das pessoas, e não a matéria, e nem nenhum outro que se venha dizer Cristo. 

Os movimentos gnósticos pregam, grosso modo, um Jesus que havia mostrado ao homem como ele mesmo poderia se curar. Trazem a salvação para o chão, colocam-na na mão do próprio homem. Isso deu combustível não só para o cientificismo (a razão e o método que conseguirão enfim a cura dos males), mas aos psicologismos de toda ordem (o homem que com o exercício de um bom pensamento pode se curar). 

Estou simplificando grandes veias históricas para ficar mais claras as relações que costuro. As grandes dicotomias que temos aqui são a capacidade do homem de se auto-salvar ou de apenas poder ser salvo por outro. O que disse até agora é que o cristianismo católico veio alimentar esta última posição, e os ditos gnósticos, a primeira.

A ânsia das pessoas de se medicalizarem para sanar suas angústias guarda laços com este sentimento religioso de espera por uma solução fora de si. O movimento de crítica contra a medicalização desenfreada vem apontando soluções gnósticas para o problema. Acabam dando margens para a possibilidade de um saneamento final do desequilíbrio gerador de doença através de múltiplas respostas que utilizam apenas os elementos terrestres como legítimos salvadores das pessoas.  

O que há por trás da mensagem cristã, em verdade, é que apenas a terra não basta. Jesus morreu tentando salvar as pessoas, e foi sua morte - e ressurreição - o mistério salvador. Ao contrário do que muitos pensam, essa posição é de uma grandeza ímpar. 

Vejamos a falha de outras respostas.

Não raro encontramos pessoas que se desfazem frustradas em buscas de cura. Os médicos e os métodos se sucedem falidos. Mesmo medicinas alternativas caem por terra. Ao final, restam marcas de uma luta inglória, e a sede de um resultado nunca alcançado. Assim são todos os casos refratários, de diagnósticos incertos, de efeitos colaterais mil. Quando tudo esboroa e a doença ganha imensidão, a visão da morte como o selamento da derrota é quase inevitável. 

Para o cristão, há um projeto de vida na dor: encontrar a vontade de Deus que não está sendo cumprida. Os remédios e as medicinas podem fazer parte desta vontade. O mais importante não é eles, mas a lição que deve haver por trás. O aprendizado é guardado no Espírito. Prepara o encontro definitivo com a salvação. Se, depois de tudo, o mal persistir, a morte vem como selamento do mesmo. Após três dias, eis a promessa encarnada em Jesus, a vida eterna ressurge de qualquer sepulcro. A morte não é o fim do homem, mas dos males. A dor é uma purificação. Cada momento pode ser o de receber o toque do Messias. 

Essa visão devolve ao indivíduo o sentido de uma busca que dialoga com uma perspectiva cósmica e eterna. Não o esmaga com a responsabilidade de ser o grande artífice da sua cura, que pode ter infinitas causas que escapam dele completamente. Não o engana com pílulas ou gotas ainda muito imperfeitas para englobar a complexidade de uma história inteira de dor, não raro de raízes plurigeracionais. Não estaria errado o médico dizer que o remédio é apenas um tempo que se está conseguindo para que uma reorganização maior se instale. Busca-se o tempo de Deus fecundando o homem. Se não existir essa Vontade Benevolente querendo se instalar no homem, tudo é vão. O que pode qualquer vitória química diante do universo inteiro desmoronando sobre nós? Um vento do cosmos nos desfaz, pós.

O tópico mais urgente desta era é o resgate de uma história que nos dê sentido diante deste tudo que se desobriga da humanidade. "Se os mortos não são ressuscitados, comamos e bebamos, porque amanhã morreremos."  





quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Obstáculos da medicina para a mística

Semeados em núcleos muito especiais pela humanidade a fora há grupos de indivíduos que deixam manifestar, ao seu redor, fenômenos que intrigariam as mentes cotidianas. Tachamos estes núcleos de esotéricos, ocultistas ou místicos. O que há de comum entre estas três palavras é o caráter íntimo das práticas, antípoda da nossa sociedade de espetáculo

O que denominamos ciência - mal suspeitam os cientistas - é filha dileta da sociedade do espetáculo. Esta sociedade tem por dogma: "tudo o que é bom deve ser compartilhado, da melhor maneira possível". Desde a fundação deste mandamento, nosso céu é quando estamos sob o foco, no palco, na evidência. Evidência é o nome que a ciência usa para a verdade que pode ser vista por qualquer um. Uma verdade só pode ser aceita se o método utilizado para nela chegar puder ser reproduzido por quem quer seja. Reprodutibilidade em massa é um dos deuses que a ciência - e as indústrias - mais adora. 

Nos círculos esotéricos, esta ideia é risível. Um fenômeno místico só pode ser reproduzido por um iniciado que chegou em certo grau de merecimento. Primeiro há a iniciação, que imprime na alma do pretendente uma experiência de pertencimento sem igual. Depois há os estágios de ascensão, desafiadores cada um ao seu modo, que vão permitindo o acesso a conhecimentos e habilidades gradativamente. Mais adiante ainda, não é pelo simples fato de se ter passado em uma prova que o merecimento nasce, não estamos na noção modernista da autonomia do homem para se construir. É preciso, diz-se, de uma certa luz e predisposição para chegar ao topo. Não é possível uma reprodutibilidade em massa disso. Entendem que nem todos estão preparados para certos fins. A distribuição dos dons espirituais é uma injustiça dos deuses. As provações são antes para selecionar do que para preparar.  

Em nenhum destes lugares há transmissão das possibilidades de se fazer milagres sem um caminho de entrega e devoção para o mistério. O senso crítico é o primeiro que fecha a alma para essas possibilidades. O que demos para chamar de ciência oficialmente aqui no ocidente não vive sem o senso crítico, isto é, sem o pressuposto de que nada é verdade até que se prove o contrário. Lá, o primeiro ato do discípulo é baixar inteiramente a guarda. 

Ainda me lembro de um grande professor de medicina nos dizendo que adorava quando alguém o contrariava, porque é assim que a ciência cresce. De fato, se tratamos desta ciência a que venho me referindo. A verdade é um ser anônimo e impessoal construído pelo embate de dois desejosos de formular a melhor definição que a contenha. A verdade para o esoterismo é um encontro com ela. Alguns iluminados encontram-se com ela mesma. Outros encontram-se com ela através de outros iluminados. Para estes, a palavra de ordem é "cala e sente". Uma obviedade se impõe, e dura. Para aqueles, seria "defenda-se". Uma autoridade se conquista, e é sempre passageira.

Então, vem a ciência e diz que nada do que se alardeia acontecer nos círculos esotéricos é real, porque para ela apenas pode ser real o que consegue reproduzir segundo seus critérios. Contudo, estes critérios começam, desde o primeiro passo, quebrando as premissas exigidas por estes círculos. Não dá! Não é possível a ciência acessar qualquer verdade sobre a mística, sobre os fenômenos das ciências ocultas, sobre o que se ensina na sombra esotérica sem deturpar, deformar, reduzir. 

Se alguém quiser nascer e crescer para essas experiências, deve rezar para encontrar uma boa escola iniciática guiada por um grande homem. Há uma multidão de charlatães. Contra eles a ciência é válida. Mas, a favor dos grandes homens, ciência demais apenas atrapalha. A prova negativa de um fenômeno, não prova positivamente a impossibilidade dele existir. Nunca é demais lembrar isso. 

Se quiséssemos construir uma medicina para lidar com os fenômenos de cura mística, deveríamos reconstruir toda a forma de olhar a realidade que veio se fermentando desde Platão, escaldada entre os escolásticos, recheada pelos modernos. A poesia deveria ser adorada como doadora de sentido real, e não simbólico. O silêncio e a não-defesa de qualquer item deveriam ser um (não) discurso acadêmico legítimo. Meditar no telhado dos prédios em detrimento às salas de aula nele contidas não deveria escandalizar. Não conseguir dançar segundo os ritmos da natureza ou na busca de entender o corpo do outro deveria valer reprovação. Sem isso, apenas para começar, sobre esoterismo, ocultismo ou mística nada poderemos dizer.