sábado, 26 de maio de 2018

Intenções da aula sobre Saúde e Espiritualidade

Fui convidado para dar uma aula sobre Saúde e Espiritualidade ao curso de ciências da saúde da faculdade em que leciono. O evento maior tratava da Saúde das Minorias. Eu tinha um mundo de coisas para falar. Há muito meus estudos se direcionam para tentar construir um discurso que torne academicamente válido as abordagens acerca da espiritualidade. E, uma vez tendo me formado em medicina, unir a profissão com o tema. O que vem se evidenciando uma tarefa inglória. 

Contudo, esforços dos últimos anos estão logrando este êxito, aqui no Brasil isto é pelo menos, de forma mais consistente, há vinte anos. Acesse aqui este link* para ler um livro importante no assunto.

Nesta postagem quero registrar as intenções da aula que dei, o que pode servir também de ramificações para aulas posteriores. Pretendo mesmo disponibilizar um material inteiro em vídeos curtos na minha página do Youtube. Aqui estão:


  • Ao expor as filiações religiosas que se apresentam em minha história de vida logo à introdução quis que soubessem que ninguém fala de lugar nenhum. A boca fala do que o coração está cheio. O coração está cheio daquilo que vivemos. 

  • É verdade que existe um movimento forte no universo anglo-saxão que estuda a temática, tendo Harold Koenig (1951-) como um grande expoente conhecido em nosso meio. Sua abordagem, como o faz aqui no Brasil o professor Alexandre Moreira-Almeida (1974-), tenta conciliar saúde e espiritualidade com pesquisas que utilizam a metodologia científica pragmática, se valendo muitas vezes de ferramentas quantitativas para provar seu ponto. Esse caminho não é o meu, mas importa saber que ele existe.

  • Dividi a aula em três partes que são quase que dialeticamente conectadas. A dialética é um tipo de abordagem que, confrontando o cartesiano, quer devolver a dinâmica do espírito para a ciência. Hegel (1770-1831) foi o principal nome desse movimento. Não tive tempo de mostrar como a minha divisão da abordagem do tema já era, em si, uma abordagem do tema. Saí do "espírito confuso com a matéria", passando pelo "espírito contra a matéria", chegando em "o espírito para além da matéria". Como falei, vou fazer um vídeo para cada um desses pontos esclarecendo melhor. Desde já cabe entender que essa forma de fazer crescer a argumentação flerta com a alquimia, esta ciência que, como se sabe hoje, influenciou sobremaneira o filósofo alemão Friedrich Hegel, e todo o romantismo alemão. 

  • Na parte "o espírito confuso com a matéria", trouxe as vivências e os estudos de um psicólogo que venho estudando intensamente: Juan Alfredo César Müller (1927-1990). Evocando diretamente suas reflexões, estudos e descrevendo algo da sua prática, iniciei, assim, a exposição com o espírito (da questão) confundido com a matéria (do cotidiano). Juan Müller, se fosse médico, eu diria que teria sido o Paracelso moderno. Talvez ele tenha sido mesmo, tanto mais quanto menos era médico, mas um psicólogo que se utilizava de uma medicina desprezada, a homeopatia, logrando o êxito da cura em vários pacientes, segundo testemunho de alguns luminares que com ele conviveram. 

  • Falei logo no início de experiências parapsicológicas e de comunidades alternativas como a de Findhorn para ilustrar o tema caro ao Dr. Juan Müller, a da psicomagia. Com um tema por assim dizer, inteiramente alienígena ao discurso acadêmico atual, mas extremamente presente na prática desse psicólogo acredito ter provocado vertigens na plateia que, pela novidade radical do assunto, deve ter estranhado tantas informações.

  • Na parte "o espírito contra a matéria", é o momento que, sem me desviar do tema da psicomagia, trago o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009) para contra-argumentar o poder universal desta potência humana. Este senhor traz um conjunto de experiências de desmascaramento de xamãs que o levaram a concluir que, já que o xamanismo, por outro laudo, provocava várias curas exitosas, deveria fazê-lo por compartilhamento de uma estrutura simbólica que comunicava o poder terapêutico ao paciente membro da comunidade. Aqui representei a primeira parte da contradição: quando a matéria (científica) se volta contra o espírito (dos xamãs). Contudo, ainda assim, ela aceita a sua eficácia em parte. 

  • A segunda parte da contradição é quando o espírito (das religiões) se volta contra a matéria (a tentativa de materializar o espírito). Essa discussão parte da pergunta "quem cura?". A princípio, é importante frisar que cura é uma categoria que só se pode trabalhar em âmbito metafísico, ou religioso, pois para falar de curar apenas é possível se considerarmos o todo. Assim, nenhuma ciência cartesiana tem a possibilidade de abordar o tema, nem pode prometer tal coisa, haja vista, trabalhar com um método fragmentário e fragmentador por natureza. Vou deixar essa questão em um ponto isolado, pois merece uma explicação à parte. 

  • As respostas para a pergunta levantada no item anterior envolvem dois elementos opostos. Quem cura? [1] Deus (ou o círculo da divindade) ou [2] o homem (ou o círculo dos mortais). As várias religiões ou concepções de mundo se dividem por estas respostas. Senão vejamos: é Deus (judaísmo, islamismo), é o homem (materialismo, psicologismo), é o homem que pode o divino (humanismo), é Deus que se fez homem (cristianismo, hinduísmo), é o círculo divino ou angélico que age pelo homem (as diversas concepções mediúnicas da relação com o sagrado), é Deus que floresce no homem (hermetismo), é o homem que é Deus e não sabe (gnose), é o homem que é Deus e não tem consciência disso (budismo). Porque o fundamento de cada uma dessas concepções são radicalmente diferentes, uma não pode aceitar a veracidade da outra sem se destruir. Quando muito podem assimilar em sua complexidade a possibilidade do fenômeno do outro e suas simbologias, adapatando-as organicamente na própria identidade. Eu não consegui aprofundar este tema na exposição tamanha a complexidade do mesmo, o esgotamento do tempo e o cansaço da plateia. 

  • A última etapa foi "o espírito para além da matéria" ou "o religioso depois da religião", em uma superação dialética. O objetivo era esboçar possibilidades de assimilar o espírito (tudo o que mais ou menos englobamos neste conceito nebuloso de espiritualidade) na matéria (do contexto clínico). Isso implicaria, como acontece no modelo dialético, ultrapassar a contradição da etapa anterior (o espírito contra a matéria) sem desperdiçar a experiência de qualquer um dos polos. Nesta tentativa, duas correntes de pensamento se evidenciam na história da filosofia. A primeira, spinozista, que entende ser a razão humana possível de acessar o todo da questão, em um processo de, no dizer de Spinoza, beatificação da inteligência. A segunda, kantiana, que entende ser a razão humana radicalmente limitada, impossibilitando o acesso ao todo da questão, tornando novamente legítimo a aceitação do mistério entre nossas tentativas de buscar a verdade ou, nesta argumentação presente, a cura. Há coisas que nos são interditadas, apesar de, nem por isso, serem impraticáveis. Outro tema de uma complexidade cujo aprofundamento estava para além do tempo de exposição e do ânimo da plateia. 

  • Por fim, falar da presença inequívoca e ubíqua do tema da espiritualidade no momento em que todo o sentido dado pelas intervenções médicas se esfacela, no surgimento, feito ferida aberta, da vulnerabilidade extrema do ser humano, ou da terminalidade da vida. É o lugar comum do tema. Quando ele aparece mais óbvio por um motivo simples: a morte aponta para a vida exigindo dela o que foi feito para merecer a morte. Merecer aqui em, pelo menos, dois sentidos. O primeiro, relacionado à justiça, por que justamente eu tenho que morrer? O que fiz de errado para merecer a morte? O segundo, relacionado à grandeza, o que fiz de bom para merecer a morte? Em outros termos, de um lado a morte como castigo, de outro, como prêmio. Nenhuma alma humana consegue encarar o fim da vida fora destes extremos. Ou é o desespero ou a esperança. É a convulsão ou a aceitação. O inferno ou o céu, ainda que esses lugares não existam como um topos, que sejam ao menos um topoi, isto é, um ponto de partida argumentativo para se imaginar o desfecho da vida humana, quando a história de cada um chega no topo. Ainda que esses lugares u-tópicos representem o que se passa na consciência de cada um no derradeiro instante. 

Para cada item desse me sinto motivado a fazer um vídeo. Acredito ser um esboço interessante para a introdução do tema Saúde e Espiritualidade. Segue o que imagino ser o programa ideal dos vídeos, correspondendo a cada um dos tópicos anteriores:



 

sexta-feira, 4 de maio de 2018

As três forças da anamnese

Sabiam que o simples exercício da anamnese também envolve as três forças que venho tentando mostrar certa coerência entre elas, quais sejam, a força sexual, a do trabalho e a da morte?

A anamnese é aquela atividade básica da medicina de coletar a história da doença da pessoa que nos procura com o intuito de encontrar uma solução para aquela dor.

Como a força sexual aparece aqui? Temos o costume de fecundar a história das pessoas com a nossa lógica. Uma lógica aprendida em seis anos intensos de estudos. Não devemos esquecer, porém, de deixar nossa razão ser fecundada pela lógica delas.

Fecundação aqui parece um termo metafórico de extrapolação duvidosa, porém ele revela todo o cuidado, responsabilidade e paixão (pathos) necessários em uma relação de partilha que deverá gerar filhos (diagnóstico e terapêutica), que são tanto maior motivo de júbilo quanto mais bem concebido tiverem sido.  

A força do trabalho se mostra no esforço de resgatar e elaborar uma narrativa da doença que ajude a construir um objeto que guie o retorno à saúde. Após concebida a narrativa, ainda se deve dedicar à lapidação, ao estudo meticuloso dela, ao conserto de conexões quebradas ou incoerentes. Se na etapa da força sexual estávamos no âmbito do primeiro encontro, cheios do viço da novidade, na da força do trabalho, caímos no lugar da escultura, da técnica, da ars.  

Por fim, há uma ética que percorre todo o exercício da anamnese, que é uma que apenas aprendemos de fato ao lidar com diálogos em torno da morte: aprender a ouvir mais do que falar como símbolo do estágio final da aceitação do que a vida traz, incluindo seu fim. Essa ética nos devolve a uma humildade de saber que todo esse esforço pode não resultar em cura, mas pelo menos em uma conversa terapêutica diante de alguém que esteve aberto para tentar algo por aquele que sofre. A filosofia dos cuidados paliativos dizem ainda: alguém que está aberto para continuar tentando, de um outro modo. 

É assim que o bom entrevistador passa por estas três zonas sagradas: participar da concepção da história, trabalhar sobre ela, respeitar a cada momento a sua fragilidade. É assim que seis anos de faculdade servem para formar médicos medíocres, e a vida inteira, sábios.

Amadurecendo

O primeiro blog que criei sobre minhas aventuras médicas chamava-se Desmedicina. O sentimento era bem este: desfazer aquela medicina que tentava se construir em mim. Eram as desditas na faculdade enriquecidas por um conjunto de reflexões que endossavam a revolta. 

Desativei-o quando me formei. Entendi que era preciso assumir a máscara da Eumedicina: viver a medicina do cotidiano com o que havia de bom e de ruim. Misturei-me com a atenção primária. Engoli o livro de medicina ambulatorial com um gosto que nunca tive. Eram os pacientes que batiam à porta para os quais teria de dar alguma resposta. 

A residência em medicina de família aprofundou essa medicina do cotidiano em mim. Depois vieram os plantões no grande hospital, o lugar de onde sempre quis fugir, mas que o destino me devolveu ao convívio. As rotinas hospitalares, assimilei-as, e até aprendi com os colegas outros tantos truques que não estão nos livros. O cotidiano, dessa vez, me esmagou. Os sofrimentos que anotava em prontuário, com a morosidade do hospital público e a superposição de doenças ao paciente que não havia entrado tão grave, me desleixaram. Entrei em certo patamar de suficiência. Acreditei ter chegado em um ponto ótimo, pelo menos para as necessidades dos lugares em que estava. 

Surgiu a oportunidade do mestrado em saúde coletiva. Reacenderam, então, os estudos em filosofia, teologia, sociologia e estética. Eram rascunhos, mas era mais do que se costuma ler entre os esculápios modernos. Junto com eles, a crítica política sobre a medicina que praticava. Todavia, agora ela vinha com uma carga de experiência que tornava meu discurso menos ingênuo, um pouco mais compassivo, mas ainda muito ácido. 

O título de mestre me permitiu reingressar em uma faculdade de medicina, agora como professor. Por outro lado, ainda mantinha a prática nas emergências. Um lado ajudava a enriquecer o outro. Como professor de saúde comunitária, meus exemplos sempre foram cheios das vivências do cotidiano. Como médico de emergência e regulação de destinos de pacientes sobressaía-me com falas de filosofia, sociologia, teologia e estética - os rascunhos. Em um contexto ou em outro, tudo isso era uma excentricidade: um professor de saúde comunitária cheio de experiência hospitalar, um clínico de quase-hospital repleto de falas das ciências humanas. Vale ressaltar que no primeiro caso a excentricidade era mais aceita que no segundo, onde me tinham como um maluco beleza. 

Algo que vinha como sombra de todo esse movimento era a fuga de enfrentar os lugares mais desconfortáveis para meu espírito. A objetividade, o protocolo, a disciplina, a memorização de itens não explicados, os imperativos, tudo isso se remetia a uma noção de hierarquia que me era repulsiva.

Até que meus estudos se depararam com a crítica da mentalidade revolucionária: o mundo como jamais funcionou. Devolveram-me o respeito pelas tradições, para as quais já tinha o coração aberto: uma porta para papai, outra para vovó. 

Mesmo as medicinas alternativas que comecei a estudar como elemento adicional de minha personalidade arredia me apontaram que nada se consegue sem objetividade, protocolo, disciplina, memorização de itens não explicados, imperativos. 

Esse movimento último da alma está me conduzindo a retomar os estudos do cotidiano médico oficial ocidental, afastar-me um pouco das ciências humanas. Os discursos sociológicos são intensos, mas as dores das pessoas não se combatem apenas com falas, mas também com elas. Não podemos desprezar o trabalho de todas as medicinas em querer cuidar dos sofredores. 

Depois de muito estudo - que ainda é nada - percebi um ponto em comum nas mais diversas experiências médicas, que de outro modo possuem visões de mundo praticamente inconciliáveis: todas são fundadas em tradições sagradas que acumulam esforços para entregar a melhor resposta para os pacientes que batem à porta. 

Vamos lá! Próximo capítulo: "distúrbios do equilíbrio ácido-básico". (No leitor de pdf ao celular: "Tibetan medicine, a short introduction").   

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Tecer uma narrativa que caiba na realidade

Há alguns mitos gregos que dialogam com a medicina, dos mais óbvios aos menos. O mais, seria o de Apolo, que gerará Esculápio, que será, de algum modo, o ascendente semi-divino de Hipócrates. Esse é o escoamento lendário do poder de cura, desde o absolutamente divino ao humano. O menos, são as Moiras, que fiavam o tecido do destino das pessoas. Estamos estudando, no momento, a anamnese. A entrevista médica tem algo da costura divina, a partir de uma perspectiva humana. 

Que é a realidade para nós senão um conjunto de significados que nos são óbvios desde infância? Nascemos já dentro de um tecido linguístico que nos acolhe desde nossa ingenuidade crítica. Vamos aprendendo quem é nossa família e o que são os objetos que se nos avizinham. Vão nos dizendo o que são nossos sentimentos e as vontades que nos motivam, como a de fazer cocô. Coisas óbvias e cotidianas. 

Um belo dia, alguma coisa da razão individual se desperta e estranhamos a realidade. Ela não parece óbvia. Tanto mais é assim quanto mais somos acordados pela dor contínua, insistente, torturante. Os conceitos que nos foram dados não são suficientes para sanar o estranhamento provocado pela dor. "O que é essa pontada que maltrata meu peito? Nunca senti isso por tanto tempo. E agora vem com essa febre. Quando vai parar? E por que com calafrios?". 

Do lado divino, o das Moiras, é uma história que se fia desde o alto, acima da vida humana, superior aos construtos racionais que deixava nossa vida coerente. Toda nossa vida é fiar um manto, a partir de nossa perspectiva mortal, que cubra o mais perfeitamente possível o que nos foi dado pelo destino. A perda radical da coerência gera o desespero.  Do lado humano, o dos médicos, tenta-se fazer surgir da pessoa em desespero uma tessitura que revele qualquer forma possível com que se possa trabalhar e novamente devolver ao indivíduo o poder de retomar a coerência de sua existência. O caminho de retorno à coerência se dá na esperança. 

Na escola platônica, a arte da anamnese consistia em fazer relembrar a forma do manto das Moiras, que, supunha-se, a alma teria entrevisto antes de cair no mundo sensível. Estou lhes dizendo que, em um mundo onde se acredita numa verdade acima do humano, haveria como ou relembrá-la ou tentar imitá-la diuturnamente através de construtos racionais que nos fizessem devolver a razão de ser das coisas que nos afetam. O segundo caminho é o mais aceito em diálogo com as ciências humanas hoje em dia, isto é, a reconstrução de narrativas que tornem a vida coerente e suportável. 

Toda a técnica que vocês utilizaram para apresentar o caso para nós foi um exercício mitológico de tessitura de narrativas que nos devolvesse (a nós e aos pacientes) a coerência da vida para seguir lutando por ela. A clínica médica diária se apoia nessas narrativas, tentando fazê-las cada vez mais verossímeis através das relações com os achados patológicos evidentes no próprio corpo humano ou no corpo social. 

Duas conclusões de tudo isso que expus: 
  1. A realidade que nos circunda, tanto mais a da dor, é sempre superior a qualquer narrativa que possamos engendrar. Não raro ela nos esmaga, nos deixa perplexos diante do incognoscível. Não é de se admirar recorrermos à fé, cuja narrativa provém de um discurso revelado, pretensamente, advindo do Deus ou dos deuses. É como se as Moiras rasgassem um pouco do destino e deixassem-no entre nós.
  2. A força do exercício de narrar a vida em um todo coerente é tamanha que se poderia afirmar que uma fratura só não é curada pela fala porque ainda não se encontrou as palavras certas para a coligir.   

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Como Tântalo

Ontem estive à missa, e minha eventual participação junto à esposa que vinha sendo sincera não aconteceu. Fiquei olhando o Ressuscitado com dúvida. Não de que ele não tenha ressuscitado ou que ele não tenha todo o poder que dizem ter, mas de porque não vejo esse poder cotidianamente. Já que ele rasgou o véu do templo, e até cadáveres perambularam pelas ruas daquele dia esquisito da crucificação, a partir da constatação do corpo ausente dentro da gruta com a pedra rolada, o mundo das experiências imediatas deveria ter se tornado radicalmente outro. Uma avalanche de milagres deveria ter invadido as horas do café-da-manhã à ceia. Não foi isso o que aconteceu. 



***


Tenho algumas pessoas amadas sofrendo ao redor. Parkinson, depressões, ansiedade, transtorno de personalidade, transtorno bipolar. Os últimos esforços intelectuais que venho tendo me fazem enveredar nas medicinas alternativas. Encontrei nelas a possibilidade de enxergar onde o poder terapêutico (milagroso!) de Jesus se escondeu. Porque fala-se em esconderijo, deparei-me com as mais diversas noções de esoterismo ou ocultismo cristão, das quais já partilhava algum conhecimento por vir de berço espírita. Entre estas noções estão as de vários corpos sutis, para além do corpo físico palpável, que nos revestem. São eles passíveis de serem afetados por uma miríade de forças sutis que nos rodeiam, cuja sensação não é a de toque, mas que não deixa de ser menos real. Para conseguir captar essa realidade oculta é preciso desenvolver o olhar, preparar o espírito, estar aberto. É um tipo de ciência que exige a obediência da consciência ao invés da crítica, a disciplina para com os mestres ao invés do enfrentamento desafiador. É um outro reino - dir-se-ia paradigma - este das sutilezas.

A medicina que mais me cativou nesses pontos foi a homeopatia. Para o seu exercício é preciso abraçar todas essas crenças das sutilezas, muito embora ela flerte com o comportamento reativo das ciências normais, tendo surgido através de experimentações em seres humanos, anotando todos os resultados (auto)tangíveis. Desde que nasceu, nunca deixou de ser atacada pela medicina oficial, bem como nunca deixou de contra-atacar. Hahnemann, seu fundador, levantava discussões calorosas e tecia insultos explícitos contra o que denominou de alopatia, a prática médica violenta da utilização dos princípios contrários para lidar com as doenças (anti-inflamatório, anti-histamínico, anti-espasmódico, anti-biótico). Além do que, li testemunhos exitosos na literatura de profissionais de experiência e cultura vastas.

Após dois anos de estudos, ainda não tão profundos, vinha me apropriando das aproximações homeopáticas para o tratamento das doenças. Aventurei-me a dar alguns preparados para duas pessoas do meu círculo. Não funcionaram. Um deles possuía um sofrimento congênito, o outro uma devastação de alma. Culpei minha ignorância e não a homeopatia. Um filho se submeteu à outro preparado, e mais outro. Não funcionou a contento. Culpei o profissional. Todavia, há duas semanas tive uma sinusite clássica associada à uma crise asmática insistente. Falei com a melhor homeopata que já me atendeu, na qual via a excelência de toda a abordagem anamnésica e do raciocínio. A minha era uma crise clássica e aguda. Não acredito que houvesse tantas camadas de doenças assim para dificultar o resultado do tratamento, como às vezes o há em casos crônicos, precisando dissolver o que Hahnemann deu para chamar de miasmas antes de chegar ao núcleo da doença. Não deu certo. Fiquei ainda esperando os efeitos positivos da exoneração do mal, da superficialização dos humores malsãos por dois dias. Descrevi o quadro para minha esposa para ver se ela me ajudava a enxergar se havia algum sinal de melhora. Ela me fez entender que não havia. Era um momento muito especial para mim, por mil motivos. Estava com ventos excelentes nestes meses para me dedicar de vez à homeopatia. Esta ineficácia me foi de uma frustração sem igual.

Olhei ontem o crucificado e todo aquele povo a cultuá-lo. Jovens dedicados ao ministério da música, alegres, entoando cantos, animando os fiéis. O padre, a cada novo pensamento, crescia a voz exultando a páscoa do homem-Deus de Nazaré. Os corpos das pessoas não eram perfeitos. Enxergava mil deformidades por todos os lados. As almas, pelo menos três naquela igreja, eu as via quebradas, a minha e a de mais dois conhecidos. Um jovem à minha frente desviava sua atenção para o celular. Uma criança levantava as mãos imitando a multidão. A secreção do meu nariz diminuía à base do que as medicina alternativas tentam evitar: antibiótico e corticóide. Não são medicamentos sutis. Eles matam muita coisa dentro da gente para poder nos curar. E essa morte secundária por vezes acaba gerando outras doenças. É a denúncia que mais vem crescendo contra a medicina oficial nos últimos anos, pelo menos desde Ivan Illitch contra a iatrogenia.

Não é tanto a derrota para comigo que me infelicita, mas escorrer pelas mãos as possibilidades de tratamento dos sofrimentos das pessoas queridas que se me avizinham. Parkinson, depressões, ansiedade, transtorno de personalidade, transtorno bipolar. Medicamentos se acumulam limitados no efeito, induzindo tolerância, como se o mal estivesse apenas contido, a muito custo. Efeitos colaterais se assomam. 



***


Olho novamente para o Crucificado. Seu rosto ensanguentado mira o chão. Sua cora de espinhos, seu manto cobrindo as partes íntimas, seu corpo cadavérico. O poder dele trouxe vida a tantas pessoas e não conseguiu se salvar - até o dia da pedra rolada. Será se todo o teatro dos milagres era para chamar a atenção para o dia da ressurreição? Será se o poder de cura que ele tinha não é passível de ser apreendido por uma técnica conquistada pelos humanos? Será se o caminho de todo homem é suportar o calvário até a própria cruz, sendo o milagre diário o suportar a vida de deformidades até o acolhimento supremo nos braços do Pai? O milagre da igreja é manter as pessoas na fé, apesar de toda a incoerência e todo o ódio do mundo. 


Há uma razão quase matemática na medicina oficial, pelo menos é onde ela se esforça em se fundamentar. Mas, toda a matemática do mundo não chega perto da promessa de salvação anunciada pela cruz, revelada no túmulo vazio, nas vestes vazias deitadas ao chão. Será essa a nossa sina? Tentarmos sobreviver com os recursos parcos da razão humana, que nos permite rastejar entre dias melhores e dias sombrios até o juízo final? Tarefas menores do dia-a-dia vão dando sentidos menores para a vida. Uma ansiedade de vez em quando paralisa. Rezar para que não dure muito. Esperar que a liberdade final se concretize, um dia.

Desabafos de uma mente inquieta. Não vou parar de buscar. A ignorância dos meios sempre é uma desculpa sensata para continuar a busca. Não quereria o Cordeiro que apenas nos entregássemos sem tantas reservas, sem tentar ser deuses como ele? Se assim o for, o mundo está bem errado. Não faz sentido. Essa dicotomia esgarça o espírito e deixa mais ansiedade do que consolo. Continuar pois, como Tântalo, para quem a sede era tudo.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Exercício ao primeiro semestre de medicina

O coordenador do primeiro semestre, para amenizar o peso da avaliação final escrita, para a qual quase todos os esforços dos alunos eram direcionados, decidiu convidar os professores para fazerem mini-testes ao final de cada aula que proferirem. Isso provocaria o estudo prévio de cada aluno para não ter a famosa maratona pré-prova. 

Como meu assunto, "Família: aspectos históricos e implicações na prática clínica", aborda temas que geram muito autoconhecimento, decidir não fazer um mini-teste, mas propor uma redação que estimulasse a pessoa a se reconhecer em que momento ela está na construção de sua personalidade. Este foi o mote:

"Trace uma linha imaginária entre o ser-menino ou ser-menina e o ser-homem ou ser-mulher, em que lugar você está? Comente."

 Exigência 1: Tem que ser NO MÍNIMO em uma página de Word ou  Google Docs. Por quê? Quero que falem de si, entrem no lugar existencial onde se encontram e tentem se entender, se localizar, se situar nesta vida. Quero que respirem fundo, desconectem-se da obviedade cotidiana, olhem para baixo e evidenciem o que aquele que sou é hoje. 

Alguns me mandaram apenas um parágrafo dizendo o óbvio: estou no meio desta linha. Nem sou um extremo, nem outro. Como se eu estivesse em busca de uma resposta certa, gabaritada.

Exigência 2: Prazo final é o dia 15 de maio. Isso faz 2 (dois) meses de liberdade de pensamento e escrita para essa aventura que propus. Fora desse dia, não aceitarei mais nenhuma escrita e a nota será o símbolo que nos dá a ideia do vazio. 

Bônus 1: Eu darei um retorno. 

Em vez de um teste que aborda apenas aspectos de memorização ou interpretação de texto, em movimentos de alma heterodirigidos, eu proponho um movimento de alma autodirigido. É uma expansão de consciência, um sair de si para voltar a si com mais lucidez. Claro que isso não é um movimento que pretende esgotar essa investigação, mas colocando isso logo no primeiro semestre da faculdade quero instigar a abertura de um processo que não cesse jamais. 

Como será a avaliação? Quem entregar e dialogar comigo, ganha. 


P.S.: Sinto que estão perdidos. Não é de se admirar pela natureza do desafio.  


sábado, 24 de março de 2018

Lidando com a vulnerabilidade

"Tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change." 
(Mallarmé à Edgar Poe)

Neste pouco tempo em que estivemos conhecendo um grande centro de tratamento de pessoas portadoras de câncer, algumas cenas me chamaram a atenção. 

Primeiro, a presença de símbolos sagrados pelos lugares: a santíssima mãe da tradição católica em vários pontos, particularmente uma grande no centro do prédio, um quadro da santa seia no lugar onde se consomem as refeições junto ao abrigo filantrópico. Segundo, um culto religioso em alto e bom som no quarto andar do hospital. Terceiro, a discussão exegética entre dois rapazotes acerca da verdade da Palavra. 

Uma acadêmica traz uma história de sofrimento de certa idosa, e no meio fala que "porque ela tem fé, parece não temer a doença".  Outra traz novo relato em que o paciente refere ter entendido ser aquele agravo um castigo divino, por isso retornará para a igreja, da qual estava afastado, no lugar de cujas reuniões antes ia beber e se divertir com amigos mundanos.

Uma concepção antiga de psicologia, mas ainda vigente no imaginário de muitos psicólogos é que a religião é um enfrentamento inefetivo dos problemas, um retrocesso infantil em busca de colo na figura simbólica dos pais. Tolice!

Alguns comportamentos no âmbito religioso são menos efetivos que outros no caminho necessário do ser humano para a transcendência. Mas, a busca pela transcendência é o destino humano. Mesmo Sartre ou Marx não escaparam dessa nota. Sartre com seu homem devir. Marx com o devir de uma comunidade, enfim, justa, segundo os moldes apriorísticos que defendeu.

O ser humano, desde que nasce, é este projétil apontado para o infinito. A morte, para alguns, fecha o ciclo, para outros, inaugura-nos na eternidade. De todo modo, ela encerra o que melhor pudera ter acontecido na aventura de viver de alguém. 

É imperioso que saiamos dos condicionamentos biológicos que nos prendem às necessidades mais básicas - ditas baixas - em busca das altas possibilidades do espírito: o intelecto, a arte, a política, a religião. Claro que em todo lugar encontraremos análogos simbólicos das estruturas que foram o berço da nossa concepção de mundo. Dessa forma, sempre haverá um pai ou uma mãe que nos acolhe e nos impulsiona nos diferentes setores da vida que vamos galgando. A diferença é que, se formos bem sucedidos nessa caminhada, cada conquista nos eleva, nos torna maiores, ampliados, e senhores de nós mesmos em certo campo, nascendo para outros. O fim de tudo isso é o cosmos, diziam os gregos, é Deus, para os cristãos. Isto é, metas inatingíveis que nem por isso devamos nos eximir de as mirar.

Participar de cultos, espalhar imagens que remetam a arquétipos memoráveis, submeter-se a ritos, ler e discutir palavras de sabedoria que acumulam mais vida e voz do que nossas mirradas existências sonharão em ter não é infantilização, mas exercício de preparação para adequar-me ao eterno, sem que ele, antes do último suspiro, me esmague sem consolo. 

- "Nele mesmo, enfim, a eternidade o transforma."