segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Vinte anos do Projeto Y



Vinte anos do Projeto Y — a palhaçoterapia que ajudei a fundar com um punhado de outros ousados. Na comemoração, a surpresa da noite nos atingiu: integrantes que hoje levam o projeto estavam nascendo no ano exato em que ele era fundado.

 Chamaram-me de senhor pela primeira vez quando já iam dez anos que eu dava oficina de palhaçaria para cada uma das gerações recém-ingressas. Àquela época caiu-me mal aos ouvidos, hoje, casado com três filhos, é a norma. 

Fui recebido com uma grande ovação ao despontar na rampa do salão com minha digníssima esposa, também ex-ypsiloniana. Descobri, em instantes, que o meu afastamento do projeto, motivado por trabalho e família, havia me transformado em lenda. 

É fato que fui da geração fundadora, liderei o projeto, criei um blog com narrativas que davam voz ao que transbordava do peito após as visitas, gerei símbolos que fizeram do Y mais que uma letra substituta e, por fim, transformei a experiência em mestrado. 

Por esses atos à luz do sol tomaram-me por lenda, e a luz dos feitos pareceu tão brilhante que ofuscou as sombras. Eu não queria inaugurar o projeto por medo de falir ainda mais na faculdade. Quem muito me amava à época me obrigou. Sem faltar uma reunião ou oficina, a cada momento me perguntava se eu estava fazendo o certo em me dedicar tanto por uma coisa que eu não sabia se vingaria. Quando fomos pedir permissão ao diretor do hospital para que utilizássemos o espaço da pediatria para nossas intervenções, eu esperava um “não” objetivo e não o “sim” pacífico que houve. Tive uma alegria confusa ao saber que os professores do departamento de clínica apoiaram em peso nossa iniciativa, sem reservas. 

Absolutamente toda visita de palhaço eu tinha medo de não conseguir encontrar o jogo certo, de não extrair a graça, e pior do que ser ridicularizado, simplesmente não ser notado. Por conta disso, nunca fui sozinho à enfermaria. Não por recear não dar conta de todas as crianças, mas por não suportar a imagem em meus delírios de ser apenas um bobo sem graça perdido no hospital. De perdido, bastava eu mesmo, sem nariz vermelho, trôpego por muitos anos naquele labirinto cinza do campus.

Eis que por não deixar o medo dominar, e por fazer prevalecer a poesia e não a dúvida, acabou que para a história ficaram apenas minhas conquistas. Revelado agora o que se passava no meu lado B, bem que o meu nome poderia se esmaecer, ou se esconder em um acrônimo. 


    RAfael

   BeLise

MaríLia

    GAbi 

KariNe


E é um nome pequeno, muito pequeno, para caber tantos nomes a quem ele deveria servir de suporte. Mas, um em especial, me chamou atenção no dia. Um jovem de nome Arthur assumiu o meu lugar quando me afastei. Levou as oficinas de preparação dos recém-ingressos adiante, lembrava-se de muitos detalhes do que eu lhe passei. Era um broto de gente e um disforme palhaço quando eu o tinha como aprendiz, e ali, naquela noite, discursando sobre sua experiência destes últimos oito anos se mostrava um rapaz lindo, esperto, engraçado, sensível. Um rosto que se perdera na minha mente entre tantos outros mostrava-se ali transfigurado, deixando transparecer um amor pelo projeto e pelos integrantes que me fez lembrar do melhor que eu tinha em mim à época. 

Quando eu voltava de cada um dos dias de oficina, a empolgação era tanta que eu escrevia um diário vomitando palavras que vinham do peito ainda acelerado. Arthur me fez lembrar que em algum momento eu disse que o Y não importava. O Y, se você olhar bem, é uma ponte côncava, com sua coluna mestre fincada no nada; é uma flor com o pistilo vazio. O Y é um nada, é um vazio, mas preenchido por Rafaéis, Belises, Marílias, Gabis, Karines, …, Arthures. O mais lindo é ver esse vazio no meio da ponte povoado, e o pistilo fecundado por eles. 

Que bom que me obrigaram lá atrás, e que eu não desisti. 


domingo, 28 de julho de 2024

Dormir

1

Até terminar a faculdade eu dormia relativamente bem. O curso perturbou meu sono por longo tempo, mas eu conseguia repousar e me refazer. Quando me formei, os plantões me desorganizaram. 

O horário do meio da madrugada geralmente era o meu, porque não aguentava não dormir à meia-noite e gostava de ainda ter um sono sem preocupação até o amanhecer do dia, depois de cumprida minha obrigação no horário que me era designado. 

Quando passei à chefia de equipe, qualquer grave intercorrência da madrugada era minha, e as prescrições só poderiam ser fechadas quando virasse o dia. Por vezes, tirava direto após uma da manhã, outras tinha apenas duas horas de sono, mas sem profundidade. Sempre fui de abrir os olhos imediatamente ao sinal de quaisquer passos que a mim estivessem se direcionando.

Passados os dias de plantão, a insônia das duas da manhã me acompanhou. Era uma rinite ou apenas uma poeira de pensamento que já me acordava por inteiro. Para que as preocupações não se acostumassem a ser minhas companhias, deitadas comigo, dei de levantar para meditar. Como a meditação possui cronômetro incerto, aderi à velha prática do terço católico, com algumas variações conforme minha crença. O primeiro terço, sentado em um zafu ao chão, me esvaziava das imagens deste mundo, o segundo, já deitado, me entregava às alucinações relaxantes do sono. E me dava uma sensação de que, embora breve, aquele sono conduzido pelas repetidas orações era de uma qualidade ímpar.

Essa insônia foi uma sombra que me conduziu a um refúgio inesperado. E, embora o sono aos poucos tenha retornado à sua qualidade, inaugurei em mim uma tradição que há tempos me espreitava.

sábado, 27 de julho de 2024

Dietas



Ela tinha 103 anos. Era relativamente lúcida. Conseguíamos empreender uma conversa normal com ela nos dizendo o que sentia, apesar de algum déficit auditivo esperado. Naquela visita ela aproveitou para dizer algo que lhe constrangia. Possuía um desejo enorme por empada de camarão, mas sua filha permitia-lhe a empada apenas uma vez ao dia em dias alternados. 

Quando ela falava da empada de camarão, parecia que a mesma surgia projetada da sua tela mental à nossa frente, quase que palpável. Ela falava da empadinha que dava para salivar e o cheiro, o do desejo, exalava pelo ambiente.

A filha cortou a fala pois achava aquilo uma transgressão contra os cuidados da longevidade. Pedia-nos até para que a dissuadíssemos daquela ideia. Adicionalmente, apresentava uma constipação, e tangia nossa preocupação para que a convencêssemos a tomar o laxativo em pó, que ela rejeitava por ter gosto de limão.

- Ah, sim, de fato! Ele vem com eletrólitos que deixam a solução com gosto de limão. - expliquei.

Fiquei olhando a centenária agora na cadeira dela, pés apoiados em um banquinho, encolhida na sua vontade. Ponderei:

- Por que a senhora não dá a solução com empada de camarão? Aí vai parecer que é um lanche com limonada! 

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Pergunta importante de uma amiga na plateia no lançamento da minha biografia


"Se você não tivesse sido médico, teria sido o quê?"

Minha resposta:

No mesmo ano em que passei para medicina, um pouquinho antes, passei para teatro. Eu sempre me dei bem com o pessoal das humanas. E todos das humanas com quem eu saía estranhavam eu ser um estudante de medicina. Tem um multiverso em que o Allan é ator.

"Mas aí teria sido tudo diferente, e você nem teria conhecido a Marília, né?"

Nesse mesmo multiverso em que o Allan é ator, adivinha só, a Marília é cantora. E apesar de a vida ser mais difícil, temos quatro filhos em vez de três. Eu não me canso de escrever peças de teatro para ver se um dia alguma tem alcance nacional, e ela não perde a oportunidade de mostrar seu canto. Os meninos reclamam às vezes do trabalho excessivo, é quando damos conta de que temos de ter um momento só nosso, e saímos para passear, fazemos piqueniques por aí, e eu brinco com eles de bila, de bola, de pipa, de pião.

Papai casou-se com mamãe jovem. E eles ainda estão entre nós. Todos os domingos vamos para lá, ter com eles. Mamãe brinca com o mais novo no chão. Papai reclama às vezes da minha profissão. Eu cansei de argumentar, nos últimos dias, naquele multiverso, só dou um beijo em sua careca e digo:

- Velho, te acalma, somos felizes!

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Eu sou o médico



Fomos chamados porque ela estava agitada, de uma forma violenta, há dias. Chegando lá, eram tapas no travesseiro, esgares de raivas intercalados por choro. Ela tinha 70 anos e clamava pela mãe. Outra hora, ficava repetindo contagens numéricas. Gritou ao se verificar sua pressão, sua saturação. Estava tudo normal. Mas, aquela raiva. 

Há anos estava acamada, porém vigil. Seus sonos mostravam-se perturbados, e essa raiva ia e vinha. Alguns remédios já haviam sido dados e associados. Uma internação havia sido tentada. Nada surtiu efeito duradouro. E tirá-la de casa naquela época só piorou. 

A enfermeira terminara de verificar os sinais. Olhara para o médico preocupada:

- Ela está em surto!

- Mas interná-la pode deixá-la ainda pior. Sairá de entre os seus, do lugar dela. - ele contemporiza

O médico então, depois de ter terminado de saber o suficiente do que se passava junto a irmã que mais tinha propriedade de todos os cuidados, se aproxima da paciente e ensaia um diálogo, com voz mansa e compassada:

- Boa tarde!

Um silêncio como resposta. 

- Eu sou o médico.

- Isso, doutor, diga que é o médico que está aqui. - estimula a irmã.

Empolgado, imaginando que sua autoridade anunciada poderia trazer alguma sanidade para aquela mente, prossegue:

- Olá! Eu sou o médico, sou o doutor.

Ainda o silêncio, agora com o semblante fechado, a paciente respira um tanto e com quase a mesma voz calma e baixa do doutor, assevera:

- G-r-a-n-d-e m-e-r-d-a!

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Divulgando minha história

Venho tentando divulgar o meu livro, o que significa divulgar a minha história e os mais diversos tipos de elementos simbólico-filosóficos que utilizei para narrá-la. Para isso voltei às redes sociais, buscando não me entregar à ânsia adoecedora de contabilizar os likes. Aqui e acolá, cerca de uma vez por semana ou quase isso, olho as estatísticas de visualização. Há um crescimento, não sei se muito. Engajamento ainda é pouco, quase nada.

Há alguns pacotes de livros na minha varanda. Houve pouca vazão, mas ainda não fiz nenhum lançamento oficial. Esses pacotes fazem as vezes de um sargento mandão que me cobra diuturnamente não desistir da divulgação. Dizem os entendidos que é preciso perseverança e, pior de tudo, exposição. Isso é o que adoece. Quando me exponho algo mais, em fugazes stories, já acho excessivo e me dá vontade de deixar tudo de lado. 

Paralelamente elegi um simbolismo para ir atrás. Quero fazer uma palestra em sete lugares. O número sete! Sete foram os dias da criação do mundo, embora o último tenha sido descanso. Sete são as moradas do castelo interior de Tereza D'Ávila. Sete são as cores do arco-íris. Percebi que sete são os espaços que marcam de forma importante minha vida. Senão vejamos:

  1. Cidade do interior da minha infância
  2. Centro Espírita
  3. Colégio Militar/Colégio do Ensino Médio
  4. Faculdade de Medicina que me formou
  5. Projeto Y (projeto de palhaçoterapia)
  6. Faculdade de Medicina em que fui professor
  7. Corpo médico geral que tenho como colegas
O centro espírita que frequento em breve abrirá as portas, estão vendo o dia mais apropriado. O colégio militar acaba de ofertar um púlpito amanhã para que eu tenha um momento com os jovens do ensino médio. A presidente do Projeto Y ficou de tentar organizar um evento que reúna antigos e novos.

Presenteei alguns médicos que mais me importam e já obtive retornos muito positivos com algumas críticas valiosas para melhorar a escrita dos próximos livros. Algumas escolhas que fiz, particularmente na segunda parte da obra, embora tenham parecido longas demais, enfadonhas, desconexas com o resto, haja vista, os capítulos quatro e cinco, tem motivos de ser assim: longos, enfadonhos, desconexos. 

O capítulo cinco não, mas o quatro, esse sim. Fala de um tempo da minha vida em que todas essas adjetivações poderiam ser dadas ao meu sofrimento. As pessoas se apaixonam pelo herói que começa pequeno, vai sofrendo achaques e, num crescendo, glorifica-se após a grande batalha. O público não gosta do cotidiano quebrado, de um martírio lento e pesaroso que vai intoxicando os dias quase imperceptivelmente. "A ideia da estrutura do capítulo foi boa, mas poderia ter sido menor". "O capítulo ficou grande demais, poderia ser mais enxuto". Gostaria de ter enxugado aqueles anos que descrevi, em vez de apenas o capítulo. Mas, passou. O livro termina bem. Superei-o. Não de todo. Quem consegue digerir por completo a morte da mãe. Da de papai, apesar de eu ter conseguido narrá-la de forma apoteótica, ainda me ressinto. Morte é morte. Ainda que se tenha a crença da imortalidade. Não sendo médium, é o que temos. 

O oficial que me recebeu no colégio militar hoje, enquanto esperávamos o comandante para que eu lhe pudesse propor minha palestra, me mostrava as fotos dos comandantes antigos. E foi pontuando do que este ou aquele havia morrido: da COVID, de um AVC em meio à COVID, este foi de um câncer, lutou muito, aquele de uma pneumonia, demenciou, ficou acamado, este foi da COVID também, este de um AVC, este aqui caiu em uma depressão profunda quando não foi promovido à general, tinha certeza que seria. 

Ah! Mas logo após me mostra o quadro dos mais antigos, dos luminares, dos que ficaram para a história tendo ocupado altos cargos do governo e dando nomes a grandes avenidas. E bem ali, o quadro de três alunos que ascenderam à mais alta condecoração do colégio, o Panteon, aqueles que nunca deixaram de tirar 1º lugar desde que entraram. Um é professor de física, depois de ter terminado o ITA, o outro é urologista e a última cursa medicina na USP. 

Quem eu mostrarei ser para aqueles meninos e meninas amanhã, às 7h, no auditório do colégio? Fui namorado da R, e também um alamarista, mas não tão comumente o primeiro lugar. Da legião de honra, mas quase que a perco um dia por ter batido em um colega. Filho de um médico que deu o nome para um hospital do sertão brabo do Ceará. Da faculdade de medicina, fui dos medianos, senão tiver sido os da rebarba. Fui namorado da L, da B. Formei-me, especializaei-me no que meu pai sonhava para mim. Pós-graduei-me. Cresci na carreira de algum modo. Encontrei uma mulher maravilhosa ainda no final da faculdade, a MF, amor da minha vida, com quem tive três filhos. Um deles me fazia companhia enquanto falava com o comandante, logo depois saímos para comer um salgado. Hoje à tarde terá consulta com o oculista. 

Com esse livro eu quero falar de "um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns." Haverá algo de mais extraordinário?



segunda-feira, 29 de abril de 2024

Meu primeiro livro

  


    Há tempos que me pediam para escrever um livro. O tanto de postagens que já publiquei aqui daria um ou dois. Tive ideias de uns tantos. Mas esse aí é o que nasceu. E que parto!

    Vou confessar aqui uma coisa. Minha esposa não gostou do título. Já meu amigo jornalista, que não apenas o leu como o prefaciou, disse que sintetiza bem o conteúdo e cria um vínculo com o público-alvo. 

- Quem é o público alvo?

    Você que me lê! Mas, antes de ser você, eram os estudantes de medicina que debutavam na faculdade. Por dez anos fui convidado a palestrar para eles em uma ideia que tinha sido minha. Queria trazer um aluno de semestres avançados ou um médico recém-formado para lhes contar como ele havia sobrevivido. Ninguém quis protagonizar a ideia, embora tivessem gostado. Quando me formei, o Centro Acadêmico perguntou se eu não gostaria de ser esse médico. Aceitei.

    Dez anos! Todo semestre me chamavam de novo. Alunos vinham assistir minha palestra mais uma e outra vez. Deram-lhe um nome: "Palestra do Allan". Minha esposa sugeriu mudar pelo menos o subtítulo por achar esnobe e apelativo. Sugeriu: "De palhaço a médico", "Reflexões de um médico sobrevivente", "a trajetória de um jovem médico sobrevivente", "a trajetória de um jovem médico em busca de sentido", ou simplesmente "uma autobiografia de um jovem médico, pai, artista, palhaço...". 

    Se fosse para poetizar mesmo teria colocado o nome do livro de "Allan". Claro que ele é bem menos do que eu sou. Mas caberia perfeitamente na capa. Acho que tanto quem norteou minha escrita, a editora e meu amigo tiveram a mesma ideia: preciso chamar a atenção da pessoa a quem se destina. Marketing, quem vive sem ele? 

    Mas, até que no final das contas ficou um nome filosófico. O verbo passar remete a passagem. E eu amo passagens, pontes, travessias. O livro começa com a minha passagem para a faculdade. E logo após meu desespero, portanto, "e agora?". Mostro meu despreparo, minhas desilusões. Costuro meu doloroso amadurecimento entre aulas e amores. Por isso que é "como sobrevivi". O "como" aí não vem para apontar técnicas, só para descrever mesmo as aventuras de um odisseu cearense. Se fosse grego, então, assim como Odisseu gerou Odisséia, meu livro poderia se chamar "Allanéia". Viu como seria horrível! Terrível sina de escolher um título. 

    Bem, se der tempo de você ler isso a tempo, amanhã, 29/04/24, às 20h, horário de Brasília, estarei fazendo uma live no Instagram @profallandenizard. Contarei como foi a ideia desse livro e algumas reflexões em torno dele. Vou manter essas lives sempre no mesmo horário das segundas-feiras gravitando em torno de assuntos relevantes para tornar o meu livro desejável. Não pretendo dar uma chave do sucesso, como quem tira um provérbio chinês de um biscoitinho. Ora, vejam só! Eu não tenho a chave da vida. Apenas tenho consciência que desde há muito os nossos nortes sempre foram a partir das escutas, em conversas de pé de fogueira, das aventuras uns dos outros. Vou contar o que vivi, sobre-vivendo.


***


    Para quem quiser já ir bisbilhotando o link de pré-venda, ei-lo:

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sábado, 26 de março de 2022

Das teses que levantei ao abordar o assunto Terror Noturno sob a ótica espírita

 


1. O sono não é ausência de vigília em absoluto, mas uma outra vida que levamos quando estamos repousando à cama. Nosso corpo passa por fases de aprofundamento e superficialização do sono como que manifestando as aventuras do Espírito para além do quarto. Existe um certo padrão desses ciclos de aprofundamento e superficialização, isto se deve à condição de encarnado e à imposição das células que não permitem que o Espírito se desresponsabilize por completo do seu aparelho físico. 

2. Assim como somos mais ou menos médiuns, também o somos mais ou menos sonâmbulos. Assim como conversamos com os Espíritos que se nos avizinham diuturnamente (mediunidade cotidiana), nossa percepção não se limita à do corpo material, constantemente vagando por outras paragens (sonambulismo cotidiano). É quando, com razão, as pessoas dizem: "meu corpo estava aqui, mas meu espírito não".

3. A infância não é nem de longe um mar de serenidade onde o Espírito encarnado está defeso do seu passado. Ela é inocente apenas na medida em que é impotente para responder à altura tudo aquilo que se mostra para ela. Mas desde o berço ali está uma personalidade milenar, com progressos e virtudes, mas também, culpas e desejos, que lhe acompanham ou lhe perseguem. Na erraticidade (o período entre duas encarnações), o Espírito, quando descansa sob a proteção de anjos, se afasta das perturbações que criou para si nas vidas anteriores. É um momento de respiro. Tão logo ele se encarna, a perturbação que provoca no fluido espiritual mais colado à Terra manifesta uma identidade que o faz reconhecido por aqueles que lhe querem bem e lhe querem mal. Ambos vão em sua busca ou em seu encalço. Àqueles para lhe presentear, estes para lhe perseguir. É o que representa para nós a visita que Jesus recebeu dos Reis Magos e dos Pastores de um lado, dos soldados de Herodes de outro. Se Jesus, verdadeiro inocente, possui essa sina, que dirá o resto da humanidade. 

4. Com o bebê em casa, os pais, assessorados pelos anjos da guarda, enfrentam grandes lutas contra aqueles que não querem o bebê vivo ou bem sucedido nessa nova oportunidade reencarnatória. É uma prova de fogo para quem o ama. É uma prova iniciática para saber se temos, nós pais, condições de fazer vingar uma vida, isso sim, alquimia suprema, em busca da Grande Obra. Temos o amparo divino para superar os desafios, mas o sucesso depende de nosso esforço e de nossa entrega. De nossa santidade. Palavra esta tão desgastada e que dói nos ouvidos dos modernos, mas que não pode deixar de figurar aqui nessa argumentação. 

5. Materializa-se no corpo do bebê, desde a primeira fusão de imensos materiais genéticos, as provas e expiações que deverá sofrer no correr da vida. Na casa em que lhe acolhe, pois, estão os pais também a cuidar das feridas perispirituais que o recém-nascido traz consigo, e que forjam os mais diversos sintomas, tornando os cuidados do bebê um penar. Fala-nos a ciência sobre a imaturidade do sistema orgânico, mas não nos explica porque é mais tranquilo com uns e desesperador com outros, já que estamos todos sujeitos ao mesmo ambiente nóxico. Mesmo as doenças que são diagnosticadas pela alopatia só tem sua razão de ser e de se manifestar em virtude da suscetibilidade de um perispírito fragilizado neste ou naquele órgão, materialização de escolhas equivocadas do passado.

6. Nenhum pai é inocente das feridas de seu bebê.  Raros são os casos de pais absolutamente abnegados que acolhem um Espírito por pura caridade, isto é, de graça (cháris = graça). O mais frequentemente, todos estamos imbricados naquelas dores, naquelas cólicas, naquelas lesões de pele, naquela insônia. Seja porque fomos cúmplices ou responsáveis por elas em outras vidas. E aqueles Espíritos algozes que se aproximam do recém-nascido no segredo do berço, também são outros relacionamentos nossos que devemos sanar, perdoando-os e fazendo-nos perdoados.

O verdadeiro guerreiro, o sábio, ou o amante da sabedoria, não deve se assustar com a queda desse véu que revela lutas sangrentas no quarto tão carinhosamente enfeitado. Antes, deve se preparar para a labuta e crer na vontade de Deus, que quer todos os seus filhos reconciliados e triunfando juntos, e não uns sobre os outros. 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Hipótese espírita para a homeopatia

Deus quando criou a matéria, não a concedeu forma. Colocou essa responsabilidade no princípio espiritual. O princípio espiritual, este sim, tomando posse da matéria, a estrutura. Assim se passa desde o átomo ao arcanjo.

Em cada reino, a ação do princípio espiritual assimila uma lição. No início, são lições automáticas, por submissão absoluta às leis universais. No mineral, vai promover a perfeição das formas e a possibilidade das ligações. A instabilidade delas são ensaios malogrados que, contudo, servem de aprendizado. Tudo servirá! Cada ação e reação é um progresso.

No reino vegetal, haverá as lições, das sensações do entorno, de transformar as matérias que lhe alimentam em fruto a ser devolvido ao mundo, de vencer a escuridão do subsolo em busca da luz (sabedoria vertical).

No reino animal, aprenderá a buscar o próprio sustento, cuidar da família, submeter-se aos primórdios das regras sociais, lidar com os brotos de inteligência e emoção, ir em busca da sobrevivência (sabedoria horizontal).

No reino hominal, já com livre-arbítrio, nossas escolhas sedimentarão os aprendizados anteriores, nos apropriaremos deles e e os sublimaremos rumo à metafísica: as ideias criarão formas que pavimentarão o caminho para a verdade superior, enquanto agimos diuturnamente para cuidarmos uns dos outros.

Na homeopatia, temos medicamentos gerados a partir dos três reinos. Hahnemann desenvolveu uma técnica para extrair, não o princípio espiritual, que só pode ser libertado da matéria a partir das leis da morte e da transformação, mas das informações deixadas como vestígios de arte rupestre em cada elemento material que ajudou a organizar ou dar vida. Essas informações são fixadas em água, álcool ou sacarose e, quando entram em contato com o corpo humano, interagem feito um diálogo em nível sutil com a nossa organização atual.

A doença é uma informação deslocada no tempo e no espaço. Um homem não pode agir para o seu nobre fim cósmico acuado feito um rato, colérico feito um leão, pronto para dar um bote feito uma cobra. Da mesma forma, não pode ficar reagindo explosivamente feito uma forma reativa de antimônio, envenenando quem lhe está ao lado. Ou ainda, assustado como uma sensitiva, com medo de que cada toque do mundo possa lhe ser mortal. Ao darmos o discurso certo para ele, cuidadosamente fixado em um meio material que possa entrar em contato com seu sistema absortivo, teremos a ignição para os movimentos de cura. Já que esse discurso revela o semelhante, será como se expuséssemos a verdade a todas as suas células. As reações de vitalidade são o seu corpo reagindo à verdade que lhe dói. A crise é um momento crítico de transformação. 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

O que de fato é a homeopatia?

Depois de ter postado alguns temas de homeopatia no Instagram, acabei acertando o senso crítico de um amigo médico. Então, ele veio me abordar.


TRANSCREVO:

Amigo: Allan, bom dia. Cara, quero um favor seu. Sempre vi a homeopatia como uma coisa que não é séria. Mas de repente me deparo com um homem sério falando sobre homeopatia. Me indica uma leitura que possa me informar melhor sobre o assunto, tais como indicação, tratamento, medicações, estudos e eficácia. Sendo bem sincero, sempre vi o praticante da homeopatia como um charlatão ou, quando menos, um iludido. Mas sei que você não é isso e gostaria de entender mais sobre o assunto. No Google tem muita coisa sobre, geralmente bem tendencioso para um lado ou para o outro. Mas todos pecam em não confrontar suas convicções com artigos e bibliografias. Não entenda mal minha ignorância. Obrigado!

Eu: Amigo, feliz por ler suas palavras. Vou lhe passar uma aula de uma pessoa ainda mais séria do que eu, a psiquiatra Lia Sanders. Veja o que pode extrair desses slides. Depois tento ver um livro mais didático para um leigo.

(Então, mando para ele os slides de uma amiga que fez uma excelente revisão de literatura, dos ensaios clínicos aos estudos bioquímicos, mostrando o quando a homeopatia é algo sério. Ela apresentou isso junto à disciplina optativa de homeopatia na Universidade Federal do Ceará) 

Amigo: Obrigado 😊 (...)

Oi, Allan. Li e gostei bastante. Pelo que entendi, a homeopatia é como 90% da medicina: funciona, mas a gente não sabe como. O conhecimento de seus mecanismos é bem complexo e foge do escopo de uma faculdade de medicina, até porque são elementos muito novos e que estão longe de ser bem compreendidos. Na verdade, é a coisa mais complexa de química (e física - quase metafísica) que já li. Extremamente interessante. Entendi que funciona, mas ainda não sei em quais doenças é sabidamente eficaz o tratamento. É meio na tentativa e erro? Se sabe o caminho, mas não sabe o destino (como quase tudo em medicina). Refletindo aqui, impressionante como mudei radicalmente meu ponto de vista com apenas uma leitura. Claro, não penso que seja a panacéia. Como toda especialidade médica, tem suas indicações e limitações. Mas já não associo com charlatanismo e acredito que pode realmente funcionar. Embora, em parte pelo meu espírito questionador ou apenas por eu ser chato, ainda tenha uma série de ressalvas. Mas com certeza estou com outro olhar.

Eu: É uma tentativa e erro com método, como quase tudo na medicina. E o principal é saber ouvir o paciente. Qualquer coisa que ele disser, do mais comum ao mais estranho, pode nos nortear na escolha da medicação. Principalmente o mais estranho. Aí temos que nos esforçar para ler a matéria médica das mil medicações homeopáticas. Para prova de título precisa saber 124. Tem outras técnicas e escolas para se achar a melhor medicação. Tem também que saber entender a movimentação da energia vital da pessoa, que são as lições de prognósticos que foram muito bem descritas por James Tyler Kent. E assim vai.

Tem ainda a questão de haver muitas medicações ainda por descobrir através do método de Hahnemann de experimentar no homem são. Suas ressalvas são muito bem-vindas e necessárias!

Amigo: E o q é energia vital?

***

(Daí mando um áudio para ele explicando o duelo, que existiu no início da modernidade, dos mecanicistas versus os vitalistas. Os mecanicistas que defendiam que não havia um transcendente no homem de onde brotava a vida, e assim via o homem passível de ser entendido a partir da divisão em partes, da matematização da matéria extensa. Os vitalistas entendiam a vida como tendo uma força própria, que permeava tudo, indivisível. Nela somos e estamos. Uma ideia levantada pelos românticos alemães, mas que já existia na grécia de Hipócrates com as noções de Paidéia e Physys)

***

Amigo: Questiono: 1) qual a diferença entre energia vital e metabolismo? 2) qual a diferença entre energia vital e alma/espírito? Parece q o Homeopata é mais um médico da alma q um médico do corpo.

Eu1) Nossa ideia de metabolismo é a partir de um conjunto de reações bioquímicas de construção, destruição e regeneração que se dá no nosso corpo. Conseguimos enxergar isso através da dança das moléculas, representadas por equações do que ocorre nos nosso tubos de ensaio. Para fins de prática homeopática, a energia vital se manifesta pela sensação de bem estar geral. Os sintomas patológicos denunciam o mal fluxo dessa energia. Não vamos atrás do choque das moléculas. Tudo é uma questão de sintomas. Verdadeira sensação de bem estar geral é sinal de uma energia vital fluindo em harmonia. Também é uma percepção indireta da coisa, por tabela. Mas a partir de parâmetros diferentes, parâmetros eminentemente clínicos. 


2) Para fins de prática clínica homeopática, alma e corpo não tem diferença. Tratar uma rinite repercute no temperamento. Tratar um temperamento repercute na ciática. Não vou entrar no mérito da distinção pela minha concepção filosófica de mundo, ok? Estou tentando passar para você o que temos em mente quando estamos clinicando. Nunca separar mente e corpo. Tudo faz parte da manifestação da vida. Se a pessoa está em sofrimento e chega para você, tudo o que sai da boca dela vem da alma e do corpo. Tem homeopata que se treina mesmo para enxergar os gestos e os semblantes. E isso faz parte da totalidade sintomática. A divisão, a separação, quando sentida pela pessoa, é a própria doença. Ter uma alma que se ressente do corpo, ou um corpo que se ressente da alma, tudo isso é doença. Estar bem é viver sem nem se tocar disso. Claro, ser filósofo, na linha platônica, é saber que há algo além que reflete sobre esse aqui. Quando esse pensar filosófico te deixa bem, e não te desajusta na vida, e não te faz pousar em qualquer profissional em busca de ajuda, isso só é o impulso da tua energia vital no amadurecimento do teu ser. Agora, quando isso está te desequilibrando a tal ponto de te cindir em dois, sua energia vital pode estar precisando de um estímulo para se reajustar. Mesmo os vôos filosóficos nunca são, ou não devem ser, uma ruptura com a realidade, mas uma apropriação da unidade do real em níveis cada vez mais profundos. Nossa visão estaria mais para Aristóteles do que para Platão.

Outro filósofo que fala sobre isso: Henri Bergson, que para isso usa o nome de Elã vital.

Amigo: Pelo q entendi, energia vital é uma concepção filosófica do próprio ser humano e demais seres vivos (não sei se todos). É isso? Ou é uma "energia" ou "coisa" que pode ser medida ou comprovada por meios experimentais/laboratoriais/materiais?

Eu: Todo uma filosofia se constrói em cima disso. Mas a medicina deveria ser assim, sempre se construir sobre uma visão filosófica da vida. Em certo momento, Platão falou que a filosofia era uma aproximação hipocrática da alma. Hipócrates agia sobre os homens com a clínica como Sócrates o fazia através do diálogo. Há quem ainda esteja em busca de provar a energia vital em laboratório. Aí depende da sua paixão. Você é uma pessoa mais tátil, mais terra, vai querer prender o saci na garrafa. Você é uma pessoa mais da intuição, mais água, vai se contentar em apenas sentir que é assim. Fazer poesias sobre a energia vital valerá então mais do que a enquadrar numa planilha, e fazê-la escalar algum gráfico. É a disputa que havia entre os modernos: o cartesianismo e o romantismo alemão. Essa disputa não morreu, assim como a dos materialistas/mecanicistas versus vitalistas. São guerras culturais.

Amigo: Entendo. Poderia se fazer uma analogia, em que a medicina clínica é o homem que corre atrás do que ele é sem nunca alcançar, e a homeopatia é esse mesmo homem que decidiu sentar e refletir sobre a vida. Entenda medicina clínica como medicina clássica. Filosofia muito interessante que concordo contigo em dizer que deveria se estender para toda a medicina. Mas não apenas nela, mas em tudo. Precisamos filosofar, parar e pensar. Mas ainda vejo com ressalvas as medicações, que sei que é apenas uma pequena fração do todo que é a homeopatia. Mas essas ressalvas são muito mais pela minha ignorância que por conhecimento disso. Agradeço muito a atenção dispensada. Espero não ter lhe incomodado. 

Eu: Que nada! Adorei a falar isso com você. Suas perguntas me fazem tecer respostas que me ajudam a compreender ainda mais.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

Seu Viriato fala com um Preto Velho

 Sou eu, Viriato. Falo aqui como quem escreve em um diário. Talvez este espaço o valha. 

Acordei cansado, mas ansioso. Esses tempos de pandemia desestruturaram minha família. Andei brigando mais com minhas filhas, falei alto com a esposa. Não sou de falar alto com ninguém. Senti-me manchado por ter feito isso. 

As dores do ombro pioraram. Quando começo a me movimentar, o sol melhora o corpo, aquece o ombro, aí dói menos. Os pensamentos estão confusos. Sentei para trabalhar e o dedo se arrastava pelo teclado. 

Vou ter uma consulta logo mais com o ortopedista. Espero que ele me passe algo que melhore essa dor. 

[A consulta com o ortopedista acontece. Foi uma consulta virtual]

Como foi rápido! Eu não tinha muito o que falar mesmo. É apenas um ombro, e ainda mais que é o ombro esquerdo. Vale menos ainda muito papo. 

Já pedi a medicação pelo aplicativo. Nossa! O entregador já chegou. 

- Obrigado!
- Se o senhor poder me avaliar positivamente, agradeço.
- Tudo bem!

O que custa dar um trocado para esse jovem. Ainda me lembro quando eu era da idade dele. Esse ombro não doía assim. Como é mesmo para tomar essa medicação. Ah! Ele disse que tinha de ser com estômago forrado, pois pode fazer úlcera. Deus me livre! Curo o ombro e abro um buraco na barriga! Não mesmo. Seguirei a prescrição. Se é que cura algo. Ele disse que se não funcionar ainda podemos nos valer das injeções. Tudo bem. Não espero mesmo que uma dor que já é minha companheira há tanto tempo saia assim de repente. 

Escrever me ajuda a organizar isso tudo tão confuso. 

Sobre minha ansiedade. Eu falei que havia acordado cansado, mas ansioso. É que no final da tarde vou conhecer um senhor que dizem deixar passar mensagens do além. Particularmente de um preto velho chamado Pai João. Eu nem sabia, mas meu avô participava de rituais assim. Desses de falar com espíritos. A miscigenação das gerações foi clareando nossas peles. Mas vovô era um negro sem qualquer diluição. Eu tinha uma conexão muito forte com ele. E agora, nesse momento medonho, me aparece essa oportunidade de falar com o velho preto do meu avô. Como será isso? O que será que ele tem a me dizer?

[A tarde vem e quase passa. Seu Viriato já está na mesa com o Preto Velho]

- Óia, cê pode ficá bem à vontade aqui, dotô. Tô aqui pá lhe ouvi. Ouvi suas dor, seus pesá, suas encrenca. In nomi de Xangô, salve nosso sinhô Jesus, salve nobreza santa, pode me falar.

(Estranho. Eu sou um homem estudado e venho ter com um tal João que não sabe nem o português direito)

- Pai João, a vida não tá fácil.
- Num tá pá ninguém, fio!
- Minha cabeça tá fora do lugar. Não consigo trabalhar. Tô estressado com a esposa, com as crianças.
- E o casamento tá disgastado, fí?
- Tá por um fio, Pai.
- Difíci cumpri a promessa do altá, das aliança, né mermo?
- Não era pra ser. A vida tava boa, mas o cotidiano e a mesma convivência tá destruindo a gente. 
- Eu te intendo. Amá quando tá tudo bem é fáci. Amá no mêi da tempestadi é difíci. Mas, amá foi aquilo que o nosso sinhô pediu pra fazer, e como o póbi apanhô por defender isso. Dizê que nós tudo é capaz de milagres de amô. Nesses tempo de crise, menino, o amô é moeda rara, tá caro. E basta só uma pacienciazinha pra garimpá ele bem aí no peito. 

(Por que diabos estou chorando? Essa simplicidade dele me toca. Ele fala simples, como quem já viveu muito. Parece meu avô. Se fosse outra pessoa, teria me enfurecido. Me coloca numa posição de menino. Mas, enxergando meu avô detrás dessa entidade, me sinto de novo aquele moleque. Nem consigo falar mais nada. Essa mensagem do amor difícil está em todo o evangelho, mas tem um brilho especial partindo daqui)

- Num se aveche. Se acalme. Eu já vi tanta coisa acontecê nesse mundo. E passô. Renovô. Cê deve tá precisando disso: renová. Tirá coisa velha do peito, da cabeça. Colocá ar novo. Vô lhe passá uns trabáio, que ocê vê com os homi da organização do templo como faz. Anote aí...

O Pai João então me manda para um lugar onde as pessoas dançavam e espalhavam bençãos sobre mim. Depois um fogo passava pelos vários pacientes - vou chamar de pacientes - como que a nos purificar. Dizeres estranhos como que evocações de forças cósmicas animavam os coordenadores dos rituais. Não me cobraram nada, não me obrigaram a nada, deixaram-me livre. Não exigiram minha crença nem minha pertença. Apenas ofereceram o que tinham para dar. 

Talvez seja isso. Estou me cobrando demais, e cobrando os outros. Tenho que me desapegar mais do mundo como eu quero que ele seja, e permitir que o mundo seja o somatório do que podemos ser, respeitosamente. E se eu sentar para ouvir minhas filhas como esse preto velho sentou para me ouvir, sem doutorado, mas com cuidado? Se eu tiver meu coração desperto e meu ouvido aberto para receber a fala da minha esposa como se fosse um ofício sagrado. O preto velho para me ouvir evocou forças divinas. É uma escuta sagrada. Talvez, quem sabe, buscando intimidade com esse sagrado no meu ouvido, toda essa confusão se relativize, e alguma ordem encarne de novo entre nós.

Valei-me! Onde está a dor no ombro? Passou.  

terça-feira, 27 de outubro de 2020

Anotações em torno de Saúde e Espiritualidade

1. Definição de Espiritualidade 

A partir da facilitação de Koenig, religião como sendo mais objetivo de definir, espiritualidade mais indefinido. Definição do movimento de espiritualidade laica francesa que entende espiritualidade lato sensu como a busca do sentido da vida, o que dá o norte de todas as nossas buscas, sendo o laico aquilo que empreendemos sem colocar a hipótese de Deus (Sartre, Ferry, Sponville)

2. Histórico da aceitação do tema Espiritualidade na Academia

A. Do que era na antiguidade clássica, como Deus se confundindo com a natureza, como a natureza razão por excelência com que nossa razão se identificava (somos herdeiros em larga medida dos gregos na nossa forma de ver o universo). 

B. Da mudança de perspectiva radical a partir de outra cultura, a hebraica, com a esperança do Deus que interfere na vida, e com os cristão primitivos, com a certeza do Deus presente como Homem (Cristo) entre nós. Essa experiência história gerou as forma de busca do conhecimento medieval, nas universidades da igreja, a escolástica, que faziam da filosofia serva da teologia, buscando entender os pormenores de muitas coisas, mas nunca do cerne da doutrina da salvação: O Cristo. 

C. Dos Modernos substituindo essas especulações escolásticas nas universidades católicas por um novo deus, ou deuses, que dialogavam mais com a antiguidade clássica, do que com o Deus pessoal cristão. Entronamos a Razão, A audácia, o Amor pelo que está aqui e não além. Esse processo culminará entre idas e vindas, com grito e fúria, entremeado por silêncios tensos, em Nietzsche proclamando a morte de Deus (do Deus cristão). A filosofia de Nietzsche terá vários pontos em comum com o hinduísmo que tem 33 milhões de deuses (uma divindade espalhada na natureza com intensidade e brilho)

3. Entender ¿que Deus de fato é esse que foi rejeitado pela academia?. 

O Deus dos Judeus, ou do que por muito tempo lemos como sendo dos Judeus

o que promete (mas ainda não dá), 

o que não se mostra (quando eu quero olhar), 

o que me vigia eternamente (me fazendo pecar).


***

(Poderia ter feito um passeio pelas novas formas de espiritualidade que começou a invadir o ocidente com a diminuição do império intelectual católico: os orientalismos das mais diversas sortes, mas também o espiritualismo espírita francês, o martinismo de Papus, a mística de Jackob Boheme e do romantismo alemão, o cristianismo social dos socialistas utópicos, o cristianismo místico de Dostoievski ou o cristianismo social de Tolstói, o neoespiritualismo pragmático de William James, a teosofia de Blavatski, a antroposofia de Rudolf Steiner. Todos esses movimentos de contra-corrente da intelligentsia materialista.

***


4. O renascimento do Tu na visão clínica

4.1. A Antropologia cultural, ciência de uma civilização pós-atéia. 

Expoente: Claude Levi-Straus. No Brasil: irmãos Vilas Boas. Livro atual para os estudantes da saúde: Cultura, Saúde e Doença, de Cecil Helman. Precursor: Montaigne na sua análise sobre os selvícolas do novo mundo. Saímos de um Monoteísmo Radical que, por não reconhecer o sagrado radical do outro, justifica a aniquilação de quem não é da minha tribo, rumo a um Pensamento Alargado. Esse movimento veio com revoluções epistemológicas na forma de fazer ciência: um pesquisador não-inerte, conhecedor de suas limitações, consciente da sua interferência no próprio processo da pesquisa, impedido de gerar um resultado puro, destilado pela objetividade que se quer matemática. A assunção de um conhecimento que é produto do encontro de dois sujeitos, o conhecimento dialógico, que respeita a experiência do outro como legítima. A sombra desse movimento: a relativização de todos os valores e de todas as tradições. 

4.2. Outra concepção do respeito ao outro: A ética do Pensamento Alargado de Luc Ferry. 

Sair da sua própria ilha, entrar na ilha do outro como se fôssemos de lá, e retornar para a nossa, sem perder nossa identidade, mas expandindo nossa consciência. Enxergar o que é nosso a partir do outro.

5. Inconsciente Simbólico Coletivo

Na história da psiquiatria, saímos de Freud que desprezava a religião e o religioso para Jung que acolhia os mais diversos mitos como forma de o inconsciente, em toda a história da humanidade, se manifestar. Exemplos da influência de Jung no Brasil no trabalho de Nise da Silveira em seu Museu de Imagens do Inconsciente. Enxergar a arte e os símbolos ("O homem e seu símbolos" ) como formas da consciência medíocre se proteger do abismo que é o mundo, do terror da natureza titânica, da visão do sol, do sexo e da morte. Enxergar ainda a arte, as metáforas e os símbolos como formas de uma consciência ferida se cicatrizar a partir de dentro.

6. Caminhos para o acolhimento da Espiritualidade na Clínica

A. Pesquisas em torno de "Intinerários Terapêuticos", fazendo com que a prática médica seja vista como um ponto no imenso e incomensurável caminho de busca pela cura do paciente. Nossa ciência como apenas mais uma das portas possíveis de se bater. 

B. Consciência dos Limites da Ciência (Edgar Morin) e do imperativo da interdisciplinaridade para não aleijar o homem e a mulher que atendemos das suas múltiplas dimensões, incluindo a espiritual. 

C. Narrativas autobiográficas, Histórias de Vida, Biografização (construções de pensadores franceses com forte influência do romantismo alemão - Goethe, por exemplo) que buscam promover uma escuta qualificada dos indivíduos a partir da perspectiva dele, tomando sua história não em um recorte para fins de diagnóstico, mas como um todo. Por mais que esse todo seja apenas parcialmente apreensível, fica a grandeza do esforço do terapeuta de se abrir para a experiência mais rica contada em narrativas do Tu.


Referências bibliográficas:

  • CABRAL, Ana Lucia Lobo Vianna et al . Itinerários terapêuticos: o estado da arte da produção científica no Brasil. Ciênc. saúde coletiva,  Rio de Janeiro ,  v. 16, n. 11, p. 4433-4442,  Nov.  2011 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-81232011001200016&lng=en&nrm=iso>. access on  27  Oct.  2020.  https://doi.org/10.1590/S1413-81232011001200016.
  • COMTE-SPONVILLE, André. O espírito do ateísmo. Introdução a uma espiritualidade sem Deus. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
  • DELORY-MOMBERGER, C. Biografia e educação: figuras do indivíduo-projeto. Natal: EDUFRN, 2014.
  • FERRY, Luc. Aprender a viver. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007
  • HELMAN, Cecil G. Cultura, saúde e doença. Artmed Editora, 2009.
  • HUGO, Victor. Disponível em : https://www.poetica.fr/poeme-49/victor-hugo-la-conscience/. Acessado em 26 de outubro de 2020
  • KOYRÉ, Alexandre. Do Mundo Fechado ao Universo Infinito.[Tradução: Donaldson M. Garschagen] Rio de Janeiro: Forense-Universitária: São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 2006.
  • PINEAU, Gaston. Les histoires de vie. Col. Que sais-je?. Ed. PUF. 5a ed. 2013
  • MORIN, Edgar. Ciência com consciência. rev. mod. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
  • ___________. Os setes saberes necessários à educação do futuro. Cortez Editora, 2014.
  • NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. EDIPRO, 2020.
  • DA SILVEIRA, Nise. Imagens do Inconsciente com 271 Ilustrações. Editora Vozes Limitada, 2017.
  • VOEGELIN, Eric. A nova ciência da política. Editora Universidade de Brasília, 1982.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Fechando um ciclo

Não foi por causa daquela noite em que vi o ápice da pandemia chegar no meu plantão. Em que intubei três pacientes consecutivos, com duas paradas irreversíveis, e duas paliações negociadas. Ainda que aquele dia tenha me feito chorar, após certa relutância em acessar meus sentimentos, chorar e gritar no meio do trânsito com gosto de morte na boca. Isso foi só a gota d'água. 

Convidaram-me para outras funções no sistema de saúde. A medicina de família, minha especialidade, há muito vinha sendo só teoria e discurso. É chegada a hora de colocá-la em prática. 

Urano passa por touro na casa que tem a força de escorpião. Soube disso depois de ver toda a confusão que já se instalava em mim. Revolução, transformação, acolher legados e heranças. 

O espólio de mamãe ainda tramita na burocracia dos cartórios. E só agora, a medicina de papai quer ter direitos de território na minha vida. Um terreno que havia comprado pra ser um retiro familiar, o estou passando pra frente. Os plantões, feito roupa envelhecida, não os quero mais. O conforto que me davam de um emprego certo, abdico-o. E o salto que dou para a vida é de fé. As promessas que me abraçam, seus braços ainda se escondem nas névoas do horizonte. E certa doença aninhada em mim vez ou outra me faz temer não chegar muito além, feito Moisés léguas antes da Palestina. Teria, então, desperdiçado a vida cujos sonhos apontavam para outra medicina, de quem eu seria um dos construtores da nova aurora. 

Logo mais assinarei a liberdade. Terei demorado muito? Sete anos é um tempo simbólico. Poderia eu me permitir um sabático, mas Saturno é exigente. Com sua mão sinistra, finca as esporas no meu Touro e me mete a trabalhar, ainda mais, enfrentando as feridas, mexendo nos incômodos.

Preparar-se para a morte, que é transformação. Ato contínuo, apontar para as estrelas do meu céu. Quem sabe não chego na fortaleza maior do caráter, enxergo enfim a humanidade como minha família, e aceito a sabedoria da velhice que me espera. São os primeiros anos de um novo setênio. Por Deus, como me sinto menino!

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Novos rumos

Quando estava na faculdade de medicina, insatisfeito com tudo o que via lá, pela frieza e distanciamento das humanas, criei um blog chamado Desmedicina. Após ter me encontrado na medicina, perto do final do curso, mudei o nome para Re-medicinando. As experiências vivas com pacientes reais, diuturnamente, me deram outro norte. 

O exercício ininterrupto dessa profissão, após formado, consumiu o tempo que tinha para escrever algo. Também achei por bem queimar os escritos da alma aflita de um noviço. Eu era outro.

Especialista em medicina de família e comunidade, tendo absorvido certa expertise em medicina de emergência, o exercício hipocrático volta a monotonia. Análise rápida de pacientes pressionado por um sistema esmagador, prescrição entediante de um punhado de medicamentos repetitivos: esse é o cotidiano médico. Quem se dedica a ciência se afasta dos pacientes, se aproxima dos padrões e tem mais amor pela matemática do que pelo contato humano. A matemática, com seus desafios sedutores, causa um ânimo para as almas perdidas no dia-a-dia cinzento. 

Fugi para a filosofia. Criei um blog que unisse meu amor pela filosofia e pelo espiritismo. A busca da alma sempre foi meu vício. Como unir tudo o que aprendi e vivi no lar, na infância e na juventude - todos espíritas - com a minha profissão cuja motivação havia sido o humanitarismo. Como disse, fugi para a filosofia, criei o blog Por uma Filosofia EspíritaTentando fazer dialogar os grandes filósofos com o que eu tinha de conhecimento espírita. Isso me deu certa bagagem humanitária. Consegui entender onde a humanidade estava que não pode enxergar a grandeza do espiritismo. Quais as respostas alternativas que os grandes pensadores engendraram paralelamente a revolucionária ideia da imortalidade da alma partícipe de um grande sistema evolucionista moral conduzido por uma Inteligência Suprema a quem damos o nome de Pai, desde Jesus. Mergulhei em documentos cristãos que não consideram o espiritismo um irmão teológico e pude entender o sentimento religioso dos pacientes que às vezes não apenas rejeitam as verdades espíritas como as repudiam. 

Uma vontade de união de todas as coisas sob um só propósito amparadas por fenômenos metafísicos cuja verdade, por assim dizer, material seria inquestionável parece ter animado minha alma. Tive que amadurecer. As mais diversas tradições espirituais são portentosas demais para ceder lugar a um nivelamento.

Não penso mais que seja um certo espiritismo como futuro das religiões que esteja no horizonte, o que dava vazão a um sentimento megalomaníaco em mim. Mas, agora, depois de experiências muito particulares, que despertaram um propósito maior, real, genuíno para esta encarnação, eu dou seguimento a esse blog dando vazão a este novo movimento da alma que quer deixar apenas uma contribuição sobre em que o espiritismo pode ajudar os sofredores desesperançados. 

Não serão mais ideias soltas, desencarnadas, que aparecerão por aqui. Agruparei as experiências dessa nova construção em minha carreira sobre os pilares da homeopatia, do magnetismo animal, da prece, da desobsessão, do concurso dos espíritos bons, da terapia de vidas passadas e da educação moral. Sobre as particularidades que me levaram até a esses pilares, já não cabe mais aqui discorrer, o texto se alonga. 

Uma especialização em homeopatia está por terminar, o magnetismo animal já comecei a estudar, de mediúnicas venho me aproximando, a técnica de terapia de vidas passadas estou estudando conduzido por uma psicóloga experiente, a divulgação da educação moral tenho treinado com palestras e condução de rodas. As peças estão nos seus lugares. O jogo tem que começar. Os tempos são chegados.  

domingo, 21 de abril de 2019

Por um retorno da Alquimia

Como não fui o que se pode chamar aos olhos dos professores de bom aluno, muito embora não parasse de estudar e querer entender a medicina, sou hoje um desgarrado (desgraçado?).

O que sempre me inquietou na nossa prática foi o distanciamento que temos da alma humana, ficando em uma superfície fastidiosa e infinita. Naqueles dias de faculdade, passava com penar ao ver exposto na biblioteca um tratado de milhares de páginas exclusivamente sobre ribossomos. Vitória do cristianismo, ou melhor, de certo tipo de cristianismo

Muitos abordam a questão de esse cristianismo ter calado a filosofia (tida como ciência natural) e mais tarde a própria ciência (experimental) e ainda mais as ciências humanas sobre o que é de mais caro ao homem: a salvação de sua alma. Naquela idade média tardia se dizia que qualquer conhecimento que se afastasse da teologia oficial era insuficiente para abordar esse tema, provocando mais confusão do que salvação. Hoje, derrotada a igreja, simplesmente venceu o discurso de que salvação da alma é balela de missa. Quando muito, o trabalho desse tema foi relegado ao divã de psicanalistas que estão privados de abordar qualquer tipo de transcendência. Tudo da mente do homem deve se explicar dentro da sua própria história tangível. De certa forma, então, a igreja tinha razão: a ciência, dita moderna, amputou-se dos instrumentos e da linguagem de falar da alma, para a alma. Alguma psicologia sobrou no lugar, apartada da medicina.

Inventamos, os modernos, a arte de cuidar da psique? Não. O conhecimento disso é antigo. Quando dizemos hermético, referimo-nos a conhecimento da época de certo Hermes Trimegisto, um deus, um semi-deus, um homem-deus, do Egito antigo que desenvolveu ou revelou conhecimentos tidos hoje como ocultos. A necessidade de segredo não era outra coisa senão a precaução de não deixar a coisa escapar para mentes inábeis. De outro modo, conhecimentos que eram superiores demais a ponto de ofuscar os incautos. 

Teríamos sido mais honestos se tivéssemos rejeitado esses conhecimentos como complicados em vez de supersticiosos. É assim que toda uma história da ciência foi forjada a partir da ideia que astronomia ultrapassou a astrologia, química a alquimia, e parapsicologia a teurgia. Como se houvesse continuidade entre elas ao ponto de se poder falar em ultrapassagem. Não há. A química aborda um conhecimento muito específico, se valendo de técnicas muito particulares do que antes era do campo do alquimista. De outro modo, a alquimia é um mundo, e a química, uma vila. 

Se da química, temos nossas principais terapias cotidianas na medicina, não é de se admirar o caráter lacunar desta. Pelo menos, bem mais do que o era a alquimia. Justiça seja feita, onde progredimos? Progredimos no esforço de tornar problemas nebulosos em palpáveis e assim, passíveis de democratizá-los. Saímos de uma sociedade de castas para uma de acesso universal. Para tanto, conhecimentos herméticos não são possíveis sob pena de não se enquadrarem no modelo político que surge pós era revolucionária, a francesa e a americana como paradigmas dessa era. A educação oficial disseminada para todos exigia um currículo comum e reprimia aglomerados de nobres que poderiam gerar um contra golpe. A materialidade da ciência não apenas possui um motivo inerente a natureza da própria ciência, como também se refere ao teor da capacidade de assimilação das massas.  Veja que na Revolução Francesa, o culto aos santos foram substituídos ao culto dos dias da revolução ou aos mártires da mesma, os meses tomaram nomes de estações do ano. Tudo ao gosto do que é mais imediato para as gentes. Nem mediato, nem transcendente.

Movimento contraditório: a igreja lançou o interdito para a ciência, a ciência rejeita a igreja. Veja bem que não era uma questão de a metafísica não existir, mas de ser temerário a deixar nas mãos de qualquer um. A ciência moderna surge de mãos dadas com o jacobinismo, então, não poderia haver ciência que não fosse do povo para o povo. Vitoriosa a república, conhecimentos tidos como de elite foram desprezados. Esse processo é um que se estende por todos os séculos vindouros com idas e vindas conflituosas, mais ou menos representadas por achaques entre esquerda e direita.

O que temos hoje? Por um lado, um movimento antropofágico que quer devorar todos os conhecimentos tidos antes como ocultos numa era em que o compartilhamento da informação rompe todos os diques. Esse movimento é, em certo sentido, ainda fruto daquelas revoluções. Por outro, uma crítica necessária de que os conhecimentos trazem responsabilidade de uma vida inteira para adquiri-los e de outra vida para utilizá-los. Contradição imposta às ciência ocultas: se querem voltar nos dias de hoje terão de se submeter a vulgarização, mas para sobreviverem com toda a grandeza de antes poucos a conseguirão. Deverá ser para o povo, mas de elite. 

Esse conflito foi o mesmo enfrentado por Platão contra as seitas órficas. Por Jesus contra os fariseus. E longe de mim dizer que Platão e Jesus estejam errados. Talvez mesmo desconsideremos, nas nossas análises ligeiras, que mesmo Platão e Jesus tinham conhecimentos para o povo e conhecimentos para os seletos. Cabe aqui ressaltar, por exemplo, apenas para tocar com um dedo e fazer vibrar a superfície do assunto, que um dos temas mais picantes é a alquimia cristã, herética por natureza, já que surge de uma comunidade católica, ressignificando os fundamentos dos dogmas canônicos. Essa questão de se há duas linhas de revelação a partir de Cristo é a base dos movimentos heréticos e sua perseguição.

Os obstáculo sociais para as ciências ocultas terem espaço nos dias de hoje, aqui representada pela alquimia, são:
  • Como vulgarizar o conhecimento sem deixá-lo vulgar?
  • Como reproduzir uma prática cuja linguagem é inteiramente simbólica, de um simbolismo cultivado de forma milenar, sob um respeito de conservação sagrado, em uma sociedade que tudo quer traduzir para a linguagem dita atual, efêmera por natureza?
  • Como reproduzir um conhecimento que não separe palavra, gesto e rito, em seu mais alto grau de interdependência, em um mundo que vem transformando tudo em binário (0 ou 1), dispensando a presença, convertendo-a em realidade virtual?
  • Como reproduzir os resultados, atalho pragmático que se dá para a aceitação se não da ciência inteira, pelo menos de sua técnica, se os melhores resultados, talvez, se dão apenas na plenitude do exercício da ciência com todos os pressupostos de sua metafísica?
  • Em um mundo ainda preso sob duas censuras, as da ciência moderna, quando o assunto é desvendar a matéria, e as da teologia católica, quando o assunto toca o espírito, como reivindicar a autoridade de se mexer com estes dois polos do humano sem ser rechaçado da comunidade científica ou excomungado da igreja? Parece restar às catacumbas, no segredo da terra onde se sussurram espíritos, a evocação desses temas malditos.  

Nesse sentido, vejo que do jeito que estão estruturados os lugares de veiculação do conhecimento superior nada podemos fazer mais do que uma história disto ou daquilo. Daí para atualizar, no sentido aristotélico do termo, as ciências que foram desprezadas pelos modernos, convertê-las em algo do que pretendiam ser, faz-se necessário, no mínimo, a devoção à princípios e a aceitação de métodos cuja análise mesquinha relegaram a superstições do espírito de época.   

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Porque eu estou me afastando da “Medicina” Preventiva



Autora: Barbara Ehrenreich

Nos últimos anos, desisti de muitas abordagens médicas – rastreamento de câncer, exames anuais, exames de Papanicolau, por exemplo – esperados de uma pessoa responsável e que tem plano de saúde. Isto não foi baseado em nenhum impulso suicida. Nem sei se posso chamar de decisão, foi mais como um acúmulo de microdecisões: ficar na minha mesa de trabalho e conseguir cumprir um prazo ou comparecer ao consultório do clínico e me submeter ao mais moderno teste para avaliar minha sustentabilidade biológica; passar a tarde no ambiente artificial com aquela decoração falso-acolhedora de um consultório médico ou dar um passeio. No começo, eu me culpava e me achava preguiçosa e procrastinadora, afinal de contas estava deixando de lado coisas simples e óbvias que poderiam prolongar minha vida. Afinal, essa é a grande promessa da medicina científica moderna: você não precisa ficar doente e morrer (pelo menos por enquanto), porque os problemas podem ser detectados “cedo” quando são prontamente tratáveis. É melhor pegar um tumor quando é do tamanho de uma azeitona do que de um melão.

Eu sabia que estava indo contra o meu próprio e muito antigo viés que favorece cuidados médicos preventivos, ao invés de intervenções curativas de alta tecnologia caras e invasivas. O que poderia ser mais ridículo do que um hospital do centro da cidade que oferece uma câmara hiperbárica, mas não oferece um serviço para detectar o envenenamento por chumbo na comunidade? Do ponto de vista da saúde pública, assim como do ponto de vista pessoal, faz muito mais sentido rastrear problemas evitáveis ​​do que investir recursos enormes no tratamento de pessoas muito doentes.

Eu entendi ainda que eu estava indo no sentido oposto da multidão para meu grupo demográfico em particular. A maioria dos meus amigos formados de classe média começou a dobrar seus esforços relacionados à saúde no início da meia-idade, se não antes. Eles treinam em academias ou praticam ioga; eles preenchem seus calendários com os próximos exames médicos e testes; eles se gabavam de suas contagens de colesterol “boas” e “ruins”, seus batimentos cardíacos e pressão arterial. A maioria compreendia que a tarefa de envelhecer era a autonegação, especialmente no campo da dieta, onde um modismo médico, um estudo ou outro, condenava a gordura e a carne, carboidratos, glúten, laticínios ou todos os produtos derivados de animais. Na cabeça dos que “cuidam da própria saúde” que tem prevalecido entre as pessoas ricas do mundo há cerca de quatro décadas, a saúde é indistinguível da virtude, alimentos saborosos são “pecaminosamente deliciosos”, enquanto alimentos saudáveis ​​podem ter sabor suficiente para serem anunciados como “pode comer sem culpa”. E aqueles que caem em tentação, pra compensar o lapso realizam medidas punitivas como jejuns, expurgos ou dietas compostas de diferentes sucos cuidadosamente sequenciados ao longo do dia.

Eu tive uma reação diferente ao envelhecimento: gradualmente percebi que tinha idade suficiente para morrer, e não estou sugerindo que cada um de nós tenha uma data de validade. Obviamente, não existe uma idade fixa em que uma pessoa deixe de merecer mais investimento médico, seja na prevenção ou na cura. Os militares julgam que uma pessoa tem idade suficiente para morrer – para se colocar na linha de fogo – aos 18 anos. No outro extremo da vida, muitos continuam líderes mundiais em seus setenta anos ou até mais, sem ninguém questionar sua necessidade. para testes contínuos e cuidados. O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, completou recentemente 90 anos e passou por vários tratamentos para o câncer de próstata.

Se julgarmos pelos obituários dos jornais, no entanto, notamos que há uma idade em que a morte não requer mais muita explicação. Embora não haja uma regra editorial geral sobre esses assuntos, geralmente é suficiente quando o falecido está na faixa dos setenta anos ou mais para o escritor do obituário invocar “causas naturais”. É triste quando alguém morre, mas ninguém pode considerar a morte de um septuagenário “trágico”, e não haverá demanda por uma investigação.

Quando percebi que tinha idade suficiente para morrer, decidi que também tinha idade suficiente para não suportar mais sofrimento, aborrecimento ou tédio na busca de uma vida mais longa. Eu como bem, o que significa que escolho alimentos com sabor bom e que evitam a fome pelo maior tempo possível, como proteínas, fibras e gorduras. Eu me exercito – não porque me faça viver mais, mas porque me sinto bem quando o faço. Quanto aos cuidados médicos: procurarei ajuda para um problema urgente, mas não estou mais interessada em procurar problemas que permanecem indetectáveis ​​para mim. Idealmente, a determinação de quando alguém tem idade suficiente para morrer deve ser uma decisão pessoal, baseada no julgamento dos benefícios prováveis, se houver, dos cuidados médicos e – tão importante em uma certa idade – como escolhemos passar o tempo que nos resta.

Ao mesmo tempo, sempre questionei quaisquer procedimentos recomendados pelos profissionais de saúde; na verdade, faço parte de uma geração de mulheres que insistiram em seu direito de fazer perguntas sem ter a palavra “não cooperativa” – ou pior – escrita em seus registros médicos. Então, quando alguns anos atrás meu médico de cuidados primários me disse que eu precisava de um escaneamento de densidade óssea, eu perguntei a ele o porquê: o que poderia ser feito se o resultado fosse positivo e se descobrisse que meus ossos estavam escavados pela idade? Felizmente, ele respondeu, agora havia uma droga para isso. Eu disse a ele que estava ciente da droga, tanto de seus anúncios de página inteira de revista quanto de artigos na mídia questionando sua segurança e eficácia. Pense na alternativa, ele disse, que pode ser, digamos, uma fratura de quadril, seguida por uma rápida descida até a necessidade de morar em um asilo.

Sendo assim, admiti a contragosto que a realização do teste, que não é invasivo e é coberto pelo meu plano de saúde, poderia ser preferível à imobilidade e à institucionalização. O resultado foi um diagnóstico de “osteopenia”, ou afinamento dos ossos, uma condição que poderia ser alarmante se eu não tivesse descoberto que ela é compartilhada por quase todas as mulheres com idade acima de 35 anos. Osteopenia é, em outras palavras, não uma doença, mas uma característica normal do envelhecimento. Um pouco mais de pesquisa, tudo em fontes prontamente disponíveis, revelou que a varredura óssea de rotina tinha sido fortemente promovida e até subsidiada pelo fabricante do medicamento. Pior, a medicação preferida no momento do meu diagnóstico acabou por causar alguns dos problemas que deveria prevenir – degeneração óssea e fraturas. Um cínico pode concluir que a medicina preventiva existe para transformar as pessoas em matéria-prima para um complexo médico-industrial sedento de lucro.

Minha primeira grande deserção do regime de rastreamento exigido foi precipitada por uma mamografia. Ninguém gosta de mamografia, a qual equivale a um esforço de força bruta para tornar os seios transparentes. Primeiro, um seio é achatado entre duas placas, então é bombardeado com radiação ionizante, que é, incidentalmente, o único fator ambiental reconhecidamente causador de câncer de mama. Eu tinha sido bastante obediente sobre mamografia desde que tinha sido tratada para o câncer de mama na virada do milênio, e agora, cerca de 10 anos depois, o consultório do ginecologista relatou que eu tinha uma “mamografia ruim”. Passei as semanas seguintes altamente ansiosa e passando por mais testes, no meio das quais eu consegui ganhar uma multa por “direção irregular”. Naturalmente eu estava distraída – pela decisão iminente de passar por tratamentos de câncer debilitantes novamente, ou simplesmente deixar a doença seguir seu curso dessa vez.

No final das contas descobri, depois de passar por um ultrassom e ter lutado contra o pânico em um tubo de ressonância magnética semelhante a um caixão, que a “mamografia ruim” era um falso positivo resultante das novas formas digitais altamente sensíveis de geração de imagens. Essa foi a minha última mamografia. Para que isso não pareça uma decisão imprudente, fui apoiada por um oncologista da Cidade Grande, que viu todas as minhas imagens médicas e disse que não haveria necessidade de me ver mais, o que eu interpretei como“nunca mais.

Depois disso, todo encontro médico ou dentário parecia terminar em uma briga. Os dentistas – e eu encontrei vários deles em minhas viagens pelo país – sempre quiseram um novo conjunto de raios X, mesmo que o único problema fosse uma pontinha de dente quebrado. Tudo o que eu conseguia pensar era nas máquinas de raio-X que toda loja de sapatos havia oferecido na minha juventude, através das quais as crianças eram encorajadas a espreitar os ossos dos pés enquanto balançavam os dedos dos pés. A diversão terminou na década de 1970, quando esses “fluoroscópios” foram banidos como fontes perigosas de radiação. Então, por que eu deveria rotineiramente expor minha boca, que é muito mais propensa a câncer do que os pés, a altas doses anuais de roentgens? Se havia algum motivo para suspeitar de problemas estruturais subjacentes, tudo bem, mas apenas para satisfazer a curiosidade do dentista ou alcançar algum “padrão de tratamento” abstrato – não.

Em todos esses encontros, fiquei impressionado com a maneira como os profissionais simplesmente ignoravam meu relato pessoal e subjetivo – em geral, algo como “me sinto bem” – mas valorizavam os resultados das descobertas ocultas de seus equipamentos. Um certo médico, mesmo sem que eu reclamasse de quaisquer sinais ou sintomas óbvios, decidiu medir minha capacidade pulmonar com o novo instrumento portátil que ele havia adquirido para essa finalidade. Eu respirei, conforme as instruções, o mais forte que pude, mas minha respiração não registrou em sua tela. Ele mexeu no instrumento, parecendo profundamente preocupado, e me disse que eu parecia estar sofrendo de uma obstrução pulmonar. Em minha defesa, argumentei que faço pelo menos 30 minutos de exercícios aeróbicos por dia, sem contar a caminhada comum, mas fui educado demais para demonstrar que ainda era capaz discutir oralmente de forma intensa.

Foi o meu dentista, por incrível que pareça, que sugeriu, durante um obturação comum, que eu fosse testada para a apneia do sono. Como um dentista se envolveu no que normalmente é o domínio de especialistas em ouvido, nariz e garganta, eu não sei, mas ela recomendou que a triagem fosse feita em um “centro do sono”, onde eu tentaria dormir enquanto dispositivos de monitoramento. Depois dos teste eu poderia comprar o tratamento dela: uma horrível máscara em forma de caveira que supostamente impediria a apneia do sono e definitivamente extinguiria qualquer última possibilidade de atividade sexual. Mas quando eu protestei que não há evidências de que eu sofra desse distúrbio – nenhum sintoma ou sinal detectável – o dentista disse que eu poderia não estar ciente disso, acrescentando que isso poderia me matar em meu sono. “Olha, ‘morrer durante o sono’é uma perspectiva com a qual posso viver”, eu disse à ela.

Assim que cheguei aos 50 anos de idade, os médicos começaram a recomendar – e em um caso até imploraram – que eu fizesse uma colonoscopia. Como no caso das mamografias, a pressão para se submeter a uma colonoscopia é difícil de evitar. Celebridades as promovem, quadrinhos zombam deles. Durante o mês de março, mês da Consciência do Câncer Colorretal, uma réplica inflável de dois metros de altura de um cólon percorre o país, permitindo que os “analmente” curiosos passem e inspecionem pólipos potencialmente cancerígenos “de dentro”. Mas se a mamografia parecer refinado tipo de sadismo, as colonoscopias imitam uma agressão sexual real. Primeiro, o paciente é sedado – muitas vezes com o que é popularmente conhecido como “boa noite, Cinderela”, Versed – e depois um longo tubo flexível, com uma câmara em uma extremidade, é inserido no reto e até o cólon. O que me repeliu ainda mais do que esse procedimento perverso foi o dia do jejum e dos laxantes que deveriam precedê-lo, a fim de garantir que a pequena câmara encontrasse algo diferente de fezes. Esse exame eu adiava todo ano, até que finalmente me senti segura, sabendo que, como o câncer de cólon geralmente é de crescimento lento, é improvável que qualquer pólipo cancerígeno floresça até que eu já esteja perto de morrer por outras causas.

E aconteceu que meu clínico, o Diretor de um grupo de médio porte, enviou uma carta anunciando que estava suspendendo sua prática comum para oferecer um novo nível de “atendimento de concierge” para aqueles dispostos a desembolsar US$ 1.500,00 por ano além do que eles já pagam pelo plano de saúde. O atendimento de elite incluiria acesso 24 horas ao médico, visitas domiciliares e, a carta prometia, todos os tipos de testes e exames, além dos rotineiros. Foi quando minha decisão se cristalizou: marquei uma consulta e disse a ele cara a cara que pra começo de conversa fiquei consternada com sua disposição de deixar seus pacientes menos abastados, que pareciam compor grande parte da população de sala de espera. E que eu não queria mais testes; Eu queria um médico que pudesse me proteger de procedimentos desnecessários. Eu permaneceria com as massas de pacientes ordinários e descartados ao acaso.

É claro que toda essa triagem e testes desnecessários acontecem porque os médicos pedem, mas há uma crescente rebelião dentro da profissão médica. O diagnóstico exagerado está começando a ser reconhecido como um problema de saúde pública, e às vezes é chamado de “epidemia”. É um assunto apropriado para conferências médicas internacionais e livros carregados de evidências, como “Super-diagnosticados: tornar as pessoas doentes em busca de saúde” por H. Gilbert Welch e seus colegas de Dartmouth, Lisa Schwartz e Steve Woloshin. Até mesmo a colunista de saúde Jane Brody, há muito uma animadora de torcida para os cuidados preventivos padrão, agora recomenda que pensemos duas vezes antes de nos submetermos ao que antes eram procedimentos de triagem de rotina.

O médico e blogueiro John M. Mandrola aconselha sem rodeios: em vez de ter medo de não detectar doenças, tanto os pacientes como os médicos devem ter medo da assistência médica. A melhor maneira de evitar erros médicos é evitar cuidados médicos. O padrão deve ser: estou bem. A maneira de continuar assim é continuar fazendo boas escolhas – não fazer com que meu médico procure problemas. Com a idade, a análise de custo / benefício muda. Por um lado, os cuidados de saúde tornam-se mais acessíveis – para os americanos, afinal – aos 65 anos, quando uma pessoa é elegível para o Medicare. Exortações para passar por exames e testes continuam, com entes queridos se juntando ao coro. Mas no meu caso, o apetite por interações médicas de qualquer tipo diminui a cada semana que passa. Suponhamos que os cuidados preventivos revelassem alguma condição que exigiria tratamentos agonizantes ou sacrifícios de minha parte – cirurgia desfigurante, radiação, limitações drásticas no estilo de vida. Talvez essas medidas possam acrescentar anos à minha vida, mas seria uma vida dolorosa e esgotada que elas prolongaram.

No seu estado atual, a medicina preventiva geralmente se estende ao final da vida: pessoas com 75 anos são encorajadas a fazer mamografia; as pessoas que já estão sob o controle de uma doença terminal podem ser submetidas a exames para outras doenças. Em uma reunião médica, alguém relatou que uma mulher de 100 anos de idade tinha acabado de fazer sua primeira mamografia, fazendo com que a platéia “vibrasse”. Uma razão para o desejo compulsivo de testar e selecionar e monitorar é o lucro, e isso é especialmente verdadeiro nos Estados Unidos, com seu sistema de saúde altamente privado e com fins lucrativos. Como é que um médico – ou hospital ou empresa farmacêutica – pode ganhar dinheiro com pacientes essencialmente saudáveis? Submetendo-os a testes e exames que, em quantidade suficiente, são obrigados a detectar algo errado ou, pelo menos, digno de acompanhamento. Gilbert e seus co-autores oferecem uma analogia vívida, emprestada de um especialista em geometria fractal: “Quantas ilhas cercam as costas da Grã-Bretanha?” A resposta, claro, depende da resolução do mapa que você está usando, e também de como você está definindo um “ilha”. Com tecnologias de alta resolução, como tomografia computadorizada, a detecção de pequenas anormalidades é quase inevitável, levando a mais testes, prescrições e consultas médicas. E a tendência para o excesso de teste é amplificada quando o médico que recomenda os testes tem um interesse financeiro na instalação de rastreamento ou de imagem para a qual ele encaminha as pessoas.

Não é apenas um sistema de saúde com fome de lucros que impulsiona o excesso de testes e o diagnóstico excessivo. Consumidores individuais, isto é, pacientes antigos e potenciais, podem exigir o teste e até mesmo ameaçar um processo de negligência se sentirem que está sendo retido. Nas últimas duas décadas, grupos de “defesa do paciente” surgiram para “marcar” dezenas de doenças e divulgar a necessidade de exames. Muitos têm seus próprios porta-vozes – Katie Couric para câncer coloretal, Rudy Giuliani para câncer de próstata – e cada um tem sua própria fita colorida – rosa para câncer de mama, roxo para testicular, preto para melanoma, um padrão de quebra-cabeça para o autismo e assim por diante – bem como dias ou meses especiais para esforços concentrados de publicidade e lobby. O objetivo de tudo isso é geralmente “conscientização”, ou seja, uma disposição para passar pela triagem apropriada, como mamografias e testes de PSA.

Existem até defensores persistentes ​​para testes desacreditados. Quando a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos EUA decidiu retirar sua recomendação de mamografias de rotina para mulheres com menos de 50 anos, até mesmo algumas organizações feministas de saúde feministas, que eu esperava serem mais críticas às práticas médicas convencionais, manifestaram-se em protesto. Uma pequena faixa de mulheres, identificando-se como sobreviventes de câncer de mama, fez uma demonstração em uma rua fora do escritório da força-tarefa, como se exigisse que seus seios fossem apertados. Em 2008, a mesma força-tarefa deu ao PSA o teste de “D”, mas defensores como Giuliani, que insistiram que o teste salvou sua vida, continuaram a pressioná-lo, assim como a maioria dos médicos.

Muitos médicos justificam testes de valor duvidoso pela “paz de espírito” que supostamente conferem – exceto, é claro, àqueles que recebem resultados falso-positivos. O câncer de tireoide é particularmente vulnerável ao diagnóstico excessivo. Com a introdução de técnicas de imagem mais poderosas, os médicos conseguiram detectar muitos pequenos caroços nos pescoços das pessoas e removê-los cirurgicamente, quer a cirurgia fosse garantida ou não. Estima-se que 70% a 80% das cirurgias de câncer de tireóide realizadas em mulheres americanas, francesas e italianas na primeira década do século XXI tenham sido consideradas desnecessárias. Na Coréia do Sul, onde os médicos eram especialmente conscientes sobre a triagem da tireoide, o número subiu para 90% (os homens também foram super-diagnosticados, mas em números muito menores). Os pacientes pagam um preço por essas cirurgias, incluindo uma dependência vitalícia dos hormônios da tireoide. E como estes nem sempre são totalmente eficazes, o paciente pode ficar cronicamente “deprimido e lento”.

Até agora, não consigo detectar a revolta popular contra o regime de exames médicos desnecessários e muitas vezes prejudiciais. Dificilmente alguém admite rejeitar pessoalmente os testes, e um que o fez – o escritor de ciência John Horgan em um blog da Scientific American sobre por que ele não passará por uma colonoscopia – enfraqueceu seu argumento bem fundamentado descrevendo a si mesmo como um “fanático anti-exames”. A maioria das pessoas faz piadas sobre o desagrado dos procedimentos recomendados, enquanto se submetem ao que se espera deles. Mas há uma rebelião significativa se formando em outra frente. Cada vez mais, lemos sobre a “medicalização do morrer”, geralmente focada em um pai ou avô que embora tivesse deixado claro seu pedido por uma morte natural e não-médica, acabou amarrado por cabos e tubos a uma cama de UTI. Os médicos veem isso o tempo todo – pessoas espirituosas silenciadas por ventiladores, a incontinência fastidiosa – e alguns estão determinados a não deixar que a mesma coisa aconteça a eles mesmos. Eles podem recusar o cuidado, sabendo que é mais provável que leve à incapacidade do que à saúde, como o ortopedista que, ao receber um diagnóstico de câncer de pâncreas, encerrou imediatamente sua prática e foi para casa para morrer em relativo conforto e paz. Alguns médicos são mais decididamente proativos e têm tatuados “NO CODE” ou “DNR”, que significa “não reanimar”. Eles rejeitam as mesmas medidas drásticas de final de vida que rotineiramente infligem aos seus pacientes.

Ao desistir da “Medicina” Preventiva, estou apenas levando essa linha de pensamento um passo adiante: não apenas rejeito o tormento de uma morte medicalizada, mas me recuso a aceitar uma vida medicalizada, e minha determinação apenas se aprofunda com a idade. À medida que o tempo que me resta encolhe, cada mês e dia se tornam preciosos demais para gastar em salas de espera sem janelas e sob o escrutínio frio das máquinas. Ter idade suficiente para morrer é uma conquista, não uma derrota, e a liberdade que ela traz vale a pena celebrar.

Retirado do livro:  Natural Causes: An Epidemic of Wellness, the Certainty of Dying, and Killing Ourselves to Live Longer

Tradução e adaptação: Dr Denis Colares, médico Emergencista.
 
Barbara Ehrenreich é autora de mais de uma dúzia de livros, incluindo o bestseller do New York Times, “Nickel and Dimed”. Vencedor do Prêmio Erasmus de 2018 por seu trabalho como jornalista investigativa, ela tem um PhD em imunologia celular da Universidade Rockefeller e escreve frequentemente sobre cuidados de saúde e ciência médica, entre muitos outros assuntos. Ela mora na Virgínia.