sexta-feira, 19 de julho de 2024

Pergunta importante de uma amiga na plateia no lançamento da minha biografia


"Se você não tivesse sido médico, teria sido o quê?"

Minha resposta:

No mesmo ano em que passei para medicina, um pouquinho antes, passei para teatro. Eu sempre me dei bem com o pessoal das humanas. E todos das humanas com quem eu saía estranhavam eu ser um estudante de medicina. Tem um multiverso em que o Allan é ator.

"Mas aí teria sido tudo diferente, e você nem teria conhecido a Marília, né?"

Nesse mesmo multiverso em que o Allan é ator, adivinha só, a Marília é cantora. E apesar de a vida ser mais difícil, temos quatro filhos em vez de três. Eu não me canso de escrever peças de teatro para ver se um dia alguma tem alcance nacional, e ela não perde a oportunidade de mostrar seu canto. Os meninos reclamam às vezes do trabalho excessivo, é quando damos conta de que temos de ter um momento só nosso, e saímos para passear, fazemos piqueniques por aí, e eu brinco com eles de bila, de bola, de pipa, de pião.

Papai casou-se com mamãe jovem. E eles ainda estão entre nós. Todos os domingos vamos para lá, ter com eles. Mamãe brinca com o mais novo no chão. Papai reclama às vezes da minha profissão. Eu cansei de argumentar, nos últimos dias, naquele multiverso, só dou um beijo em sua careca e digo:

- Velho, te acalma, somos felizes!

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Eu sou o médico



Fomos chamados porque ela estava agitada, de uma forma violenta, há dias. Chegando lá, eram tapas no travesseiro, esgares de raivas intercalados por choro. Ela tinha 70 anos e clamava pela mãe. Outra hora, ficava repetindo contagens numéricas. Gritou ao se verificar sua pressão, sua saturação. Estava tudo normal. Mas, aquela raiva. 

Há anos estava acamada, porém vigil. Seus sonos mostravam-se perturbados, e essa raiva ia e vinha. Alguns remédios já haviam sido dados e associados. Uma internação havia sido tentada. Nada surtiu efeito duradouro. E tirá-la de casa naquela época só piorou. 

A enfermeira terminara de verificar os sinais. Olhara para o médico preocupada:

- Ela está em surto!

- Mas interná-la pode deixá-la ainda pior. Sairá de entre os seus, do lugar dela. - ele contemporiza

O médico então, depois de ter terminado de saber o suficiente do que se passava junto a irmã que mais tinha propriedade de todos os cuidados, se aproxima da paciente e ensaia um diálogo, com voz mansa e compassada:

- Boa tarde!

Um silêncio como resposta. 

- Eu sou o médico.

- Isso, doutor, diga que é o médico que está aqui. - estimula a irmã.

Empolgado, imaginando que sua autoridade anunciada poderia trazer alguma sanidade para aquela mente, prossegue:

- Olá! Eu sou o médico, sou o doutor.

Ainda o silêncio, agora com o semblante fechado, a paciente respira um tanto e com quase a mesma voz calma e baixa do doutor, assevera:

- G-r-a-n-d-e m-e-r-d-a!

quinta-feira, 6 de junho de 2024

Divulgando minha história

Venho tentando divulgar o meu livro, o que significa divulgar a minha história e os mais diversos tipos de elementos simbólico-filosóficos que utilizei para narrá-la. Para isso voltei às redes sociais, buscando não me entregar à ânsia adoecedora de contabilizar os likes. Aqui e acolá, cerca de uma vez por semana ou quase isso, olho as estatísticas de visualização. Há um crescimento, não sei se muito. Engajamento ainda é pouco, quase nada.

Há alguns pacotes de livros na minha varanda. Houve pouca vazão, mas ainda não fiz nenhum lançamento oficial. Esses pacotes fazem as vezes de um sargento mandão que me cobra diuturnamente não desistir da divulgação. Dizem os entendidos que é preciso perseverança e, pior de tudo, exposição. Isso é o que adoece. Quando me exponho algo mais, em fugazes stories, já acho excessivo e me dá vontade de deixar tudo de lado. 

Paralelamente elegi um simbolismo para ir atrás. Quero fazer uma palestra em sete lugares. O número sete! Sete foram os dias da criação do mundo, embora o último tenha sido descanso. Sete são as moradas do castelo interior de Tereza D'Ávila. Sete são as cores do arco-íris. Percebi que sete são os espaços que marcam de forma importante minha vida. Senão vejamos:

  1. Cidade do interior da minha infância
  2. Centro Espírita
  3. Colégio Militar/Colégio do Ensino Médio
  4. Faculdade de Medicina que me formou
  5. Projeto Y (projeto de palhaçoterapia)
  6. Faculdade de Medicina em que fui professor
  7. Corpo médico geral que tenho como colegas
O centro espírita que frequento em breve abrirá as portas, estão vendo o dia mais apropriado. O colégio militar acaba de ofertar um púlpito amanhã para que eu tenha um momento com os jovens do ensino médio. A presidente do Projeto Y ficou de tentar organizar um evento que reúna antigos e novos.

Presenteei alguns médicos que mais me importam e já obtive retornos muito positivos com algumas críticas valiosas para melhorar a escrita dos próximos livros. Algumas escolhas que fiz, particularmente na segunda parte da obra, embora tenham parecido longas demais, enfadonhas, desconexas com o resto, haja vista, os capítulos quatro e cinco, tem motivos de ser assim: longos, enfadonhos, desconexos. 

O capítulo cinco não, mas o quatro, esse sim. Fala de um tempo da minha vida em que todas essas adjetivações poderiam ser dadas ao meu sofrimento. As pessoas se apaixonam pelo herói que começa pequeno, vai sofrendo achaques e, num crescendo, glorifica-se após a grande batalha. O público não gosta do cotidiano quebrado, de um martírio lento e pesaroso que vai intoxicando os dias quase imperceptivelmente. "A ideia da estrutura do capítulo foi boa, mas poderia ter sido menor". "O capítulo ficou grande demais, poderia ser mais enxuto". Gostaria de ter enxugado aqueles anos que descrevi, em vez de apenas o capítulo. Mas, passou. O livro termina bem. Superei-o. Não de todo. Quem consegue digerir por completo a morte da mãe. Da de papai, apesar de eu ter conseguido narrá-la de forma apoteótica, ainda me ressinto. Morte é morte. Ainda que se tenha a crença da imortalidade. Não sendo médium, é o que temos. 

O oficial que me recebeu no colégio militar hoje, enquanto esperávamos o comandante para que eu lhe pudesse propor minha palestra, me mostrava as fotos dos comandantes antigos. E foi pontuando do que este ou aquele havia morrido: da COVID, de um AVC em meio à COVID, este foi de um câncer, lutou muito, aquele de uma pneumonia, demenciou, ficou acamado, este foi da COVID também, este de um AVC, este aqui caiu em uma depressão profunda quando não foi promovido à general, tinha certeza que seria. 

Ah! Mas logo após me mostra o quadro dos mais antigos, dos luminares, dos que ficaram para a história tendo ocupado altos cargos do governo e dando nomes a grandes avenidas. E bem ali, o quadro de três alunos que ascenderam à mais alta condecoração do colégio, o Panteon, aqueles que nunca deixaram de tirar 1º lugar desde que entraram. Um é professor de física, depois de ter terminado o ITA, o outro é urologista e a última cursa medicina na USP. 

Quem eu mostrarei ser para aqueles meninos e meninas amanhã, às 7h, no auditório do colégio? Fui namorado da R, e também um alamarista, mas não tão comumente o primeiro lugar. Da legião de honra, mas quase que a perco um dia por ter batido em um colega. Filho de um médico que deu o nome para um hospital do sertão brabo do Ceará. Da faculdade de medicina, fui dos medianos, senão tiver sido os da rebarba. Fui namorado da L, da B. Formei-me, especializaei-me no que meu pai sonhava para mim. Pós-graduei-me. Cresci na carreira de algum modo. Encontrei uma mulher maravilhosa ainda no final da faculdade, a MF, amor da minha vida, com quem tive três filhos. Um deles me fazia companhia enquanto falava com o comandante, logo depois saímos para comer um salgado. Hoje à tarde terá consulta com o oculista. 

Com esse livro eu quero falar de "um homem comum, uma mulher comum e seus filhos comuns." Haverá algo de mais extraordinário?



segunda-feira, 29 de abril de 2024

Meu primeiro livro

  


    Há tempos que me pediam para escrever um livro. O tanto de postagens que já publiquei aqui daria um ou dois. Tive ideias de uns tantos. Mas esse aí é o que nasceu. E que parto!

    Vou confessar aqui uma coisa. Minha esposa não gostou do título. Já meu amigo jornalista, que não apenas o leu como o prefaciou, disse que sintetiza bem o conteúdo e cria um vínculo com o público-alvo. 

- Quem é o público alvo?

    Você que me lê! Mas, antes de ser você, eram os estudantes de medicina que debutavam na faculdade. Por dez anos fui convidado a palestrar para eles em uma ideia que tinha sido minha. Queria trazer um aluno de semestres avançados ou um médico recém-formado para lhes contar como ele havia sobrevivido. Ninguém quis protagonizar a ideia, embora tivessem gostado. Quando me formei, o Centro Acadêmico perguntou se eu não gostaria de ser esse médico. Aceitei.

    Dez anos! Todo semestre me chamavam de novo. Alunos vinham assistir minha palestra mais uma e outra vez. Deram-lhe um nome: "Palestra do Allan". Minha esposa sugeriu mudar pelo menos o subtítulo por achar esnobe e apelativo. Sugeriu: "De palhaço a médico", "Reflexões de um médico sobrevivente", "a trajetória de um jovem médico sobrevivente", "a trajetória de um jovem médico em busca de sentido", ou simplesmente "uma autobiografia de um jovem médico, pai, artista, palhaço...". 

    Se fosse para poetizar mesmo teria colocado o nome do livro de "Allan". Claro que ele é bem menos do que eu sou. Mas caberia perfeitamente na capa. Acho que tanto quem norteou minha escrita, a editora e meu amigo tiveram a mesma ideia: preciso chamar a atenção da pessoa a quem se destina. Marketing, quem vive sem ele? 

    Mas, até que no final das contas ficou um nome filosófico. O verbo passar remete a passagem. E eu amo passagens, pontes, travessias. O livro começa com a minha passagem para a faculdade. E logo após meu desespero, portanto, "e agora?". Mostro meu despreparo, minhas desilusões. Costuro meu doloroso amadurecimento entre aulas e amores. Por isso que é "como sobrevivi". O "como" aí não vem para apontar técnicas, só para descrever mesmo as aventuras de um odisseu cearense. Se fosse grego, então, assim como Odisseu gerou Odisséia, meu livro poderia se chamar "Allanéia". Viu como seria horrível! Terrível sina de escolher um título. 

    Bem, se der tempo de você ler isso a tempo, amanhã, 29/04/24, às 20h, horário de Brasília, estarei fazendo uma live no Instagram @profallandenizard. Contarei como foi a ideia desse livro e algumas reflexões em torno dele. Vou manter essas lives sempre no mesmo horário das segundas-feiras gravitando em torno de assuntos relevantes para tornar o meu livro desejável. Não pretendo dar uma chave do sucesso, como quem tira um provérbio chinês de um biscoitinho. Ora, vejam só! Eu não tenho a chave da vida. Apenas tenho consciência que desde há muito os nossos nortes sempre foram a partir das escutas, em conversas de pé de fogueira, das aventuras uns dos outros. Vou contar o que vivi, sobre-vivendo.


***


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sábado, 26 de março de 2022

Das teses que levantei ao abordar o assunto Terror Noturno sob a ótica espírita

 


1. O sono não é ausência de vigília em absoluto, mas uma outra vida que levamos quando estamos repousando à cama. Nosso corpo passa por fases de aprofundamento e superficialização do sono como que manifestando as aventuras do Espírito para além do quarto. Existe um certo padrão desses ciclos de aprofundamento e superficialização, isto se deve à condição de encarnado e à imposição das células que não permitem que o Espírito se desresponsabilize por completo do seu aparelho físico. 

2. Assim como somos mais ou menos médiuns, também o somos mais ou menos sonâmbulos. Assim como conversamos com os Espíritos que se nos avizinham diuturnamente (mediunidade cotidiana), nossa percepção não se limita à do corpo material, constantemente vagando por outras paragens (sonambulismo cotidiano). É quando, com razão, as pessoas dizem: "meu corpo estava aqui, mas meu espírito não".

3. A infância não é nem de longe um mar de serenidade onde o Espírito encarnado está defeso do seu passado. Ela é inocente apenas na medida em que é impotente para responder à altura tudo aquilo que se mostra para ela. Mas desde o berço ali está uma personalidade milenar, com progressos e virtudes, mas também, culpas e desejos, que lhe acompanham ou lhe perseguem. Na erraticidade (o período entre duas encarnações), o Espírito, quando descansa sob a proteção de anjos, se afasta das perturbações que criou para si nas vidas anteriores. É um momento de respiro. Tão logo ele se encarna, a perturbação que provoca no fluido espiritual mais colado à Terra manifesta uma identidade que o faz reconhecido por aqueles que lhe querem bem e lhe querem mal. Ambos vão em sua busca ou em seu encalço. Àqueles para lhe presentear, estes para lhe perseguir. É o que representa para nós a visita que Jesus recebeu dos Reis Magos e dos Pastores de um lado, dos soldados de Herodes de outro. Se Jesus, verdadeiro inocente, possui essa sina, que dirá o resto da humanidade. 

4. Com o bebê em casa, os pais, assessorados pelos anjos da guarda, enfrentam grandes lutas contra aqueles que não querem o bebê vivo ou bem sucedido nessa nova oportunidade reencarnatória. É uma prova de fogo para quem o ama. É uma prova iniciática para saber se temos, nós pais, condições de fazer vingar uma vida, isso sim, alquimia suprema, em busca da Grande Obra. Temos o amparo divino para superar os desafios, mas o sucesso depende de nosso esforço e de nossa entrega. De nossa santidade. Palavra esta tão desgastada e que dói nos ouvidos dos modernos, mas que não pode deixar de figurar aqui nessa argumentação. 

5. Materializa-se no corpo do bebê, desde a primeira fusão de imensos materiais genéticos, as provas e expiações que deverá sofrer no correr da vida. Na casa em que lhe acolhe, pois, estão os pais também a cuidar das feridas perispirituais que o recém-nascido traz consigo, e que forjam os mais diversos sintomas, tornando os cuidados do bebê um penar. Fala-nos a ciência sobre a imaturidade do sistema orgânico, mas não nos explica porque é mais tranquilo com uns e desesperador com outros, já que estamos todos sujeitos ao mesmo ambiente nóxico. Mesmo as doenças que são diagnosticadas pela alopatia só tem sua razão de ser e de se manifestar em virtude da suscetibilidade de um perispírito fragilizado neste ou naquele órgão, materialização de escolhas equivocadas do passado.

6. Nenhum pai é inocente das feridas de seu bebê.  Raros são os casos de pais absolutamente abnegados que acolhem um Espírito por pura caridade, isto é, de graça (cháris = graça). O mais frequentemente, todos estamos imbricados naquelas dores, naquelas cólicas, naquelas lesões de pele, naquela insônia. Seja porque fomos cúmplices ou responsáveis por elas em outras vidas. E aqueles Espíritos algozes que se aproximam do recém-nascido no segredo do berço, também são outros relacionamentos nossos que devemos sanar, perdoando-os e fazendo-nos perdoados.

O verdadeiro guerreiro, o sábio, ou o amante da sabedoria, não deve se assustar com a queda desse véu que revela lutas sangrentas no quarto tão carinhosamente enfeitado. Antes, deve se preparar para a labuta e crer na vontade de Deus, que quer todos os seus filhos reconciliados e triunfando juntos, e não uns sobre os outros. 

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Hipótese espírita para a homeopatia

Deus quando criou a matéria, não a concedeu forma. Colocou essa responsabilidade no princípio espiritual. O princípio espiritual, este sim, tomando posse da matéria, a estrutura. Assim se passa desde o átomo ao arcanjo.

Em cada reino, a ação do princípio espiritual assimila uma lição. No início, são lições automáticas, por submissão absoluta às leis universais. No mineral, vai promover a perfeição das formas e a possibilidade das ligações. A instabilidade delas são ensaios malogrados que, contudo, servem de aprendizado. Tudo servirá! Cada ação e reação é um progresso.

No reino vegetal, haverá as lições, das sensações do entorno, de transformar as matérias que lhe alimentam em fruto a ser devolvido ao mundo, de vencer a escuridão do subsolo em busca da luz (sabedoria vertical).

No reino animal, aprenderá a buscar o próprio sustento, cuidar da família, submeter-se aos primórdios das regras sociais, lidar com os brotos de inteligência e emoção, ir em busca da sobrevivência (sabedoria horizontal).

No reino hominal, já com livre-arbítrio, nossas escolhas sedimentarão os aprendizados anteriores, nos apropriaremos deles e e os sublimaremos rumo à metafísica: as ideias criarão formas que pavimentarão o caminho para a verdade superior, enquanto agimos diuturnamente para cuidarmos uns dos outros.

Na homeopatia, temos medicamentos gerados a partir dos três reinos. Hahnemann desenvolveu uma técnica para extrair, não o princípio espiritual, que só pode ser libertado da matéria a partir das leis da morte e da transformação, mas das informações deixadas como vestígios de arte rupestre em cada elemento material que ajudou a organizar ou dar vida. Essas informações são fixadas em água, álcool ou sacarose e, quando entram em contato com o corpo humano, interagem feito um diálogo em nível sutil com a nossa organização atual.

A doença é uma informação deslocada no tempo e no espaço. Um homem não pode agir para o seu nobre fim cósmico acuado feito um rato, colérico feito um leão, pronto para dar um bote feito uma cobra. Da mesma forma, não pode ficar reagindo explosivamente feito uma forma reativa de antimônio, envenenando quem lhe está ao lado. Ou ainda, assustado como uma sensitiva, com medo de que cada toque do mundo possa lhe ser mortal. Ao darmos o discurso certo para ele, cuidadosamente fixado em um meio material que possa entrar em contato com seu sistema absortivo, teremos a ignição para os movimentos de cura. Já que esse discurso revela o semelhante, será como se expuséssemos a verdade a todas as suas células. As reações de vitalidade são o seu corpo reagindo à verdade que lhe dói. A crise é um momento crítico de transformação. 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

O que de fato é a homeopatia?

Depois de ter postado alguns temas de homeopatia no Instagram, acabei acertando o senso crítico de um amigo médico. Então, ele veio me abordar.


TRANSCREVO:

Amigo: Allan, bom dia. Cara, quero um favor seu. Sempre vi a homeopatia como uma coisa que não é séria. Mas de repente me deparo com um homem sério falando sobre homeopatia. Me indica uma leitura que possa me informar melhor sobre o assunto, tais como indicação, tratamento, medicações, estudos e eficácia. Sendo bem sincero, sempre vi o praticante da homeopatia como um charlatão ou, quando menos, um iludido. Mas sei que você não é isso e gostaria de entender mais sobre o assunto. No Google tem muita coisa sobre, geralmente bem tendencioso para um lado ou para o outro. Mas todos pecam em não confrontar suas convicções com artigos e bibliografias. Não entenda mal minha ignorância. Obrigado!

Eu: Amigo, feliz por ler suas palavras. Vou lhe passar uma aula de uma pessoa ainda mais séria do que eu, a psiquiatra Lia Sanders. Veja o que pode extrair desses slides. Depois tento ver um livro mais didático para um leigo.

(Então, mando para ele os slides de uma amiga que fez uma excelente revisão de literatura, dos ensaios clínicos aos estudos bioquímicos, mostrando o quando a homeopatia é algo sério. Ela apresentou isso junto à disciplina optativa de homeopatia na Universidade Federal do Ceará) 

Amigo: Obrigado 😊 (...)

Oi, Allan. Li e gostei bastante. Pelo que entendi, a homeopatia é como 90% da medicina: funciona, mas a gente não sabe como. O conhecimento de seus mecanismos é bem complexo e foge do escopo de uma faculdade de medicina, até porque são elementos muito novos e que estão longe de ser bem compreendidos. Na verdade, é a coisa mais complexa de química (e física - quase metafísica) que já li. Extremamente interessante. Entendi que funciona, mas ainda não sei em quais doenças é sabidamente eficaz o tratamento. É meio na tentativa e erro? Se sabe o caminho, mas não sabe o destino (como quase tudo em medicina). Refletindo aqui, impressionante como mudei radicalmente meu ponto de vista com apenas uma leitura. Claro, não penso que seja a panacéia. Como toda especialidade médica, tem suas indicações e limitações. Mas já não associo com charlatanismo e acredito que pode realmente funcionar. Embora, em parte pelo meu espírito questionador ou apenas por eu ser chato, ainda tenha uma série de ressalvas. Mas com certeza estou com outro olhar.

Eu: É uma tentativa e erro com método, como quase tudo na medicina. E o principal é saber ouvir o paciente. Qualquer coisa que ele disser, do mais comum ao mais estranho, pode nos nortear na escolha da medicação. Principalmente o mais estranho. Aí temos que nos esforçar para ler a matéria médica das mil medicações homeopáticas. Para prova de título precisa saber 124. Tem outras técnicas e escolas para se achar a melhor medicação. Tem também que saber entender a movimentação da energia vital da pessoa, que são as lições de prognósticos que foram muito bem descritas por James Tyler Kent. E assim vai.

Tem ainda a questão de haver muitas medicações ainda por descobrir através do método de Hahnemann de experimentar no homem são. Suas ressalvas são muito bem-vindas e necessárias!

Amigo: E o q é energia vital?

***

(Daí mando um áudio para ele explicando o duelo, que existiu no início da modernidade, dos mecanicistas versus os vitalistas. Os mecanicistas que defendiam que não havia um transcendente no homem de onde brotava a vida, e assim via o homem passível de ser entendido a partir da divisão em partes, da matematização da matéria extensa. Os vitalistas entendiam a vida como tendo uma força própria, que permeava tudo, indivisível. Nela somos e estamos. Uma ideia levantada pelos românticos alemães, mas que já existia na grécia de Hipócrates com as noções de Paidéia e Physys)

***

Amigo: Questiono: 1) qual a diferença entre energia vital e metabolismo? 2) qual a diferença entre energia vital e alma/espírito? Parece q o Homeopata é mais um médico da alma q um médico do corpo.

Eu: 1) Nossa ideia de metabolismo é a partir de um conjunto de reações bioquímicas de construção, destruição e regeneração que se dá no nosso corpo. Conseguimos enxergar isso através da dança das moléculas, representadas por equações do que ocorre nos nosso tubos de ensaio. Para fins de prática homeopática, a energia vital se manifesta pela sensação de bem estar geral. Os sintomas patológicos denunciam o mal fluxo dessa energia. Não vamos atrás do choque das moléculas. Tudo é uma questão de sintomas. Verdadeira sensação de bem estar geral é sinal de uma energia vital fluindo em harmonia. Também é uma percepção indireta da coisa, por tabela. Mas a partir de parâmetros diferentes, parâmetros eminentemente clínicos. 


2) Para fins de prática clínica homeopática, alma e corpo não tem diferença. Tratar uma rinite repercute no temperamento. Tratar um temperamento repercute na ciática. Não vou entrar no mérito da distinção pela minha concepção filosófica de mundo, ok? Estou tentando passar para você o que temos em mente quando estamos clinicando. Nunca separar mente e corpo. Tudo faz parte da manifestação da vida. Se a pessoa está em sofrimento e chega para você, tudo o que sai da boca dela vem da alma e do corpo. Tem homeopata que se treina mesmo para enxergar os gestos e os semblantes. E isso faz parte da totalidade sintomática. A divisão, a separação, quando sentida pela pessoa, é a própria doença. Ter uma alma que se ressente do corpo, ou um corpo que se ressente da alma, tudo isso é doença. Estar bem é viver sem nem se tocar disso. Claro, ser filósofo, na linha platônica, é saber que há algo além que reflete sobre esse aqui. Quando esse pensar filosófico te deixa bem, e não te desajusta na vida, e não te faz pousar em qualquer profissional em busca de ajuda, isso só é o impulso da tua energia vital no amadurecimento do teu ser. Agora, quando isso está te desequilibrando a tal ponto de te cindir em dois, sua energia vital pode estar precisando de um estímulo para se reajustar. Mesmo os vôos filosóficos nunca são, ou não devem ser, uma ruptura com a realidade, mas uma apropriação da unidade do real em níveis cada vez mais profundos. Nossa visão estaria mais para Aristóteles do que para Platão.

Outro filósofo que fala sobre isso: Henri Bergson, que para isso usa o nome de Elã vital.

Amigo: Pelo q entendi, energia vital é uma concepção filosófica do próprio ser humano e demais seres vivos (não sei se todos). É isso? Ou é uma "energia" ou "coisa" que pode ser medida ou comprovada por meios experimentais/laboratoriais/materiais?

Eu: Todo uma filosofia se constrói em cima disso. Mas a medicina deveria ser assim, sempre se construir sobre uma visão filosófica da vida. Em certo momento, Platão falou que a filosofia era uma aproximação hipocrática da alma. Hipócrates agia sobre os homens com a clínica como Sócrates o fazia através do diálogo. Há quem ainda esteja em busca de provar a energia vital em laboratório. Aí depende da sua paixão. Você é uma pessoa mais tátil, mais terra, vai querer prender o saci na garrafa. Você é uma pessoa mais da intuição, mais água, vai se contentar em apenas sentir que é assim. Fazer poesias sobre a energia vital valerá então mais do que a enquadrar numa planilha, e fazê-la escalar algum gráfico. É a disputa que havia entre os modernos: o cartesianismo e o romantismo alemão. Essa disputa não morreu, assim como a dos materialistas/mecanicistas versus vitalistas. São guerras culturais.

Amigo: Entendo. Poderia se fazer uma analogia, em que a medicina clínica é o homem que corre atrás do que ele é sem nunca alcançar, e a homeopatia é esse mesmo homem que decidiu sentar e refletir sobre a vida. Entenda medicina clínica como medicina clássica. Filosofia muito interessante que concordo contigo em dizer que deveria se estender para toda a medicina. Mas não apenas nela, mas em tudo. Precisamos filosofar, parar e pensar. Mas ainda vejo com ressalvas as medicações, que sei que é apenas uma pequena fração do todo que é a homeopatia. Mas essas ressalvas são muito mais pela minha ignorância que por conhecimento disso. Agradeço muito a atenção dispensada. Espero não ter lhe incomodado. 

Eu: Que nada! Adorei a falar isso com você. Suas perguntas me fazem tecer respostas que me ajudam a compreender ainda mais.