O primeiro paciente do dia que fui olhar era um que estava arfando de morte.
Havia sido internado por causa da dispneia que vinha tomando conta de si nas últimas semanas.
Existem alguns tipos de dispneia. Um professor de pneumologia havia definido o sintoma de forma bem prática. Não é normal sentir a respiração. Dispnéia é quando você é direcionado, involutariamente, a perceber que respira.
Antes desta internação, havia outras dispnéias do paciente. Uma já de há muito, por causa da depressão. É o que chamamos de dispneia suspirosa. Penso que a depressão, quando toma conta do paciente, o faz se sentir com o corpo alienado. É um fardo mesmo fazer os pulmões inflarem. Houve também uma dispnéia dolorosa, não pelos pulmões em si. Eles se ressentiam da dor do fêmur quebrado pelo câncer que há muito o invadia. Ninguém descobriu de onde vinha a doença. Das invasões bárbaras, a pior é quando não se sabe seu quartel general.
Então, ali estava ele, dispnéico por múltiplos motivos, hoje com um pulmão tomado pelo câncer, e sem oxigênio mesmo para discernir se eu era o doutor ou o seu pai.
A minha sina da manhã foi tentar encontrar um lugar onde pudesse descansar em paz. Não cheguei a perguntar quanto tempo dos seus quarenta e cinco anos foi de sofrimento. O fato é que mesmo a família já havia aceitado que deveria descansar. Sem mais qualquer dor que a medicina quisesse inflingir em busca de uma cura que não existia.
Todos os lugares estavam lotados. Nenhum podia acolhê-lo.
- Você coloca um biombozinho para isolar o momento. - disse o jovem médico da sala de parada.
Meu Deus! Tão jovem, bem mais que eu, e já dando orientações de como se pode morrer com uma dignidade menos aviltante.
Eram sete pacientes em uma sala pequena. Mais sete acompanhantes, um para cada. Mais quatro auxiliares de enfermagem entrando e saindo da sala. Mais duas enfermeiras se revezando no uso do computador para aprazar as prescrições do dia. Nesse alvoroço, ali no canto, talvez vendo o próprio pai vindo lhe buscar, ele chamava suas lembranças para lhe escoltarem na passagem. Mas, sua partida não foi tranqüila de início. Um remédio para lhe acalmar o conduziu para um sono profundo. A partir daí, o semblante serenou. A respiração começou a falhar.
Entre os espíritas, acreditamos que estes são os momentos que uma equipe de cirurgiões transcendentais vão cortando os liames que ligam o corpo ao Espírito. É uma cirurgia delicada e doce. Energias impostas sobre pontos específicos vão afrouxando laços. Um influxo especial no centro de força coronário seda a pessoa. Como a doença já vinha crônica, todo um ambiente já vinha sendo preparado para a recepção dele.
- Ele parte nas próximas horas.
A filha chora forte, mas busca não soluçar para não constranger os demais estranhos ao momento. Os outros familiares não estavam presentes porque não aguentariam ver. E se agüentassem, caberia mais alguém lá?
Vou à sala de reanimação avisar aos médicos da partida que não tarda. Aviso também ao chefe de equipe do dia, preso ao telefone em busca de vagas, e aos outros colegas que assistem o corredor. Alguém preencherá a declaração de óbito. Percorro o corredor infinito até a máquina do ponto. Despeço-me do dia. Que vontade de abraçar meu filho!
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
De volta ao hospital público (Parte 2)
Há cenas amenas. Algumas que passam na nossa visão, outras que passam pela alma.
Todo dia, pelo menos um religioso canta uma música, creio que evangélica. Ela chama milagres e traz consolo. Dia desses eram três, faziam coro. Não era tão afinado, mas era. Quero dizer, o simples fato de eles estarem ali, já é uma grandeza.
Um rapaz trazendo sua bíblia na mão deformada chega para uma jovem pálida.
- Perdoe o intrometimento, posso ler uma passagem?
- Claro!
- Você é evangélica?
- Não, mas preciso ouvir.
Se fosse feita uma pesquisa e o Salmo 91 fosse o vencedor de leitura, não me admiraria. Já viram o quanto ele forte?
As pessoas se acomodam como podem. Não dei plantão a noite, neste retorno, e acho difícil imaginar como os acompanhantes dormem. O chão é frio, e se não cheira a desinfetante forte, é que excrementos tomaram conta do ar.
Uma senhora dizia a outra:
- Mulher, eu tenho insônia. Aproveito para trabalhar como acompanhante de hospital.
Era uma senhora gorda, coluna maltratada, olheiras fundas, e um grande sorriso mostrando poucos dentes.
Mesmo no meio de tanta desgraça, aqui e acolá vê-se sorrisos (não raro flertes) e alguém contando uma piada para o outro. Pede-se para olhar "o meu paciente" só enquanto vai-se ali (fazer pipi, cocô, fumar, cuspir, tomar ar).
De vez em quando o vão do corredor é ocupado por uma maca em transporte. O auxiliar manobra para conseguir transitar. Nós nos afastamos, encolhemo-nos no canto, em pausa, atentos, a postos, até ele passar. Um paciente que precisa ser transportado na maca, nunca está bem. Cor mórbida, semblante abatido, por vezes de máscara de oxigênio, quase sempre com uma sonda colocada na uretra para que ele não tenha o esforço de urinar.
Após a maca ir, voltamos a busca:
- Dona Fulana de Tal, alguém sabe onde está Dona Fulana de Tal?
- Aqui, doutor, ela está aqui!
- Olá! Como você está hoje?
- Bem...
Todo dia, pelo menos um religioso canta uma música, creio que evangélica. Ela chama milagres e traz consolo. Dia desses eram três, faziam coro. Não era tão afinado, mas era. Quero dizer, o simples fato de eles estarem ali, já é uma grandeza.
Um rapaz trazendo sua bíblia na mão deformada chega para uma jovem pálida.
- Perdoe o intrometimento, posso ler uma passagem?
- Claro!
- Você é evangélica?
- Não, mas preciso ouvir.
Se fosse feita uma pesquisa e o Salmo 91 fosse o vencedor de leitura, não me admiraria. Já viram o quanto ele forte?
"Tu não temerás os terrores noturnos, nem a flecha que voa à luz do dia, nem a peste que se propaga nas trevas, nem o mal que grassa ao meio-dia." (grifo meu)
As pessoas se acomodam como podem. Não dei plantão a noite, neste retorno, e acho difícil imaginar como os acompanhantes dormem. O chão é frio, e se não cheira a desinfetante forte, é que excrementos tomaram conta do ar.
Uma senhora dizia a outra:
- Mulher, eu tenho insônia. Aproveito para trabalhar como acompanhante de hospital.
Era uma senhora gorda, coluna maltratada, olheiras fundas, e um grande sorriso mostrando poucos dentes.
Mesmo no meio de tanta desgraça, aqui e acolá vê-se sorrisos (não raro flertes) e alguém contando uma piada para o outro. Pede-se para olhar "o meu paciente" só enquanto vai-se ali (fazer pipi, cocô, fumar, cuspir, tomar ar).
De vez em quando o vão do corredor é ocupado por uma maca em transporte. O auxiliar manobra para conseguir transitar. Nós nos afastamos, encolhemo-nos no canto, em pausa, atentos, a postos, até ele passar. Um paciente que precisa ser transportado na maca, nunca está bem. Cor mórbida, semblante abatido, por vezes de máscara de oxigênio, quase sempre com uma sonda colocada na uretra para que ele não tenha o esforço de urinar.
Após a maca ir, voltamos a busca:
- Dona Fulana de Tal, alguém sabe onde está Dona Fulana de Tal?
- Aqui, doutor, ela está aqui!
- Olá! Como você está hoje?
- Bem...
De volta ao hospital público (Parte 1)
Estive precisando dar plantões pelos corredores do hospital público em que terminei minha graduação, há nove anos. Os meus amigos da época, neste hospital, já são preceptores, médicos de referência, o assim chamado staff. Chefes de equipe, alguns cirurgiões e um quase neurocirurgião foram meus internos quando rodaram pelo posto de saúde em que fiz minha residência em medicina de família. Nas próximas três postagens vou descrever algumas cenas que testemunhei.
***
Estive dando plantão na pior parte do hospital. É onde os pacientes, por falta de leito, ficam espalhados pelos corredores. Da minha época para cá, a fileira de macas no corredor quintuplicou.
No primeiro dia em que lá estive, cheguei em casa sugado. As cenas de opróbrio pioraram, ou eu me tornei mais sensível. Há computadores espalhados em vários pontos para facilitar a evolução dos paciente independente da zona do corredor em que estejamos. De vez em quando, uma cadeira do computador some, pois algum acompanhante achou por bem tirá-la já que não havia nenhum médico usando. Justiça: antes nós, só durante a prescrição, do que eles, pelo dia inteiro, ficarem em pé.
Alguns comandos de ordem:
"Começar pelos não prescritos". Isso significa que há pacientes que ficam sem ser vistos por um, dois... quatro dias. Quatro foi o máximo que encontrei.
"Priorizar quem está tomando antibiótico, para não falhar a tomada". E, então eu encontro um jovem cuja cultura isolou uma bactéria multirresistente. A enfermagem fica abismada: "como poderemos deixar ele isolado aqui?!"
Um diálogo apressado:
- Doutor, veja o meu paciente, pelo amor de Deus, faz um (ou dois, ou três) dias que ninguém vê! Desse jeito vou dar um escândalo!
- Senhora, esses três prontuários que tenho na mão também são de pacientes que não foram vistos e cujos acompanhantes me ameaçaram de escândalo.
Três ou quatro médicos são responsáveis por ver os oitenta a cem pacientes da chamada observação I, com extras no corredor (quando são "apenas" sessenta, comemora-se). Revesamo-nos, também, com o consultório, cujos pacientes que nos chegam são aqueles graves o suficiente para que o chefe de equipe não os mande procurar a UPA já da porta. O meu julgamento clínico, no consultório, acrescenta uma variável que não está nos livros de medicina interna: estaria esta pessoa com gravidade suficiente que supere o risco de ela ser assistida naquele corredor de hospital?
Não sei se existe alguma solução para este quadro em curto prazo. Não sei se existe solução para este quadro. Disseram-me que isso que descrevi não é privilégio de Fortaleza. Não queria estar na pele do responsável em melhorar isso.
domingo, 8 de janeiro de 2017
Teia de morte
No exato momento do meu trabalho, estou lotado em três pontos extremos do absurdo da morte no Sistema Único de Saúde.
Há um lugar onde todas as pessoas tem acesso sem nenhuma restrição. Este lugar é a unidade de pronto-atendimento. Nele eu exerço a função de acolher o paciente grave que precisa de internação urgente e encaminhá-lo em tempo hábil. Neste lugar, vi isso ontem, um idoso possui a sua perna em auto-amputação, por não ter conseguido chegar ao único hospital que tem as especialidades que podem acolher sua demanda.
Eu estou trabalhando também neste tal hospital. Vi isso hoje: pessoas semeadas pelos corredores, moscas voando sobre seus rostos, acompanhantes trocando as fraldas dos idosos e as jogando, sujas de fezes, no chão. Macas altas, macas baixas, macas retidas das ambulâncias que aportam do interior, corpos tortos sobre elas.
- Comece por aqueles que estão há pelo menos um dia sem serem vistos, disse a colega.
Se aquele senhor fosse aceito por este hospital, sairia do lugar em que acotovela dezesseis pacientes entre poltronas de espera para um que se espalha por cem macas improvisadas pelo chão. "Os pacientes da radiologia" não são aqueles que estão internados em uma enfermaria com acompanhamento de radiologistas, mas os que que estão lotados no corredor em frente ao serviço de radiologia.
Dos que atendi hoje, chegando até mim mesmo apesar de todas as negativas que são dadas logo à porta do hospital, havia cânceres metastáticos, figados cirróticos em encefalopatas, acidentes vasculares cerebrais hemorrágicos, e uma jovem que gritava, desde as seis da manhã, de duas em duas horas de dor por pedra nos rins - era uma da tarde. Esta jovem era a melhor deles. Um dos que fui obrigado a orientar com veemência que procurasse outro hospital, pois os exames laboratoriais estavam normais, era uma depressão grave que o médico do posto disse (sic) "não volte mais aqui que o seu caso é com psiquiatra". E que o psiquiatra da rede pública disse que "o hospital (psiquiátrico) não tem suporte para aceitar um paciente que deve apresentar cuidados clínicos".
Também começo a trabalhar na equipe de cuidados paliativos do hospital. Chamados para dar os pareceres de como conduzir os momentos finais destes pacientes, esta equipe de médicos dá nortes de controle de sintomas e, principalmente, convoca a família para esclarecer a terminalidade da vida de seus entes queridos. Participei de duas reuniões. A primeira havia revolta unânime com o descaso. A segunda uma tristeza absurda com o acaso. A primeira era um acidente vascular que talvez pudesse ter sido evitado se socorrido a tempo. A segunda, um carcinoma que quando se manifesta, já é tarde.
Cheguei em casa há pouco. Ainda tive energia para ler algum capítulo de o Evangelho Segundo o Espiritismo para uma palestra que terei de dar logo mais. Adormeci estudando. Mas, o sono foi atribulado. Aqueles rostos cadavéricos passavam a todo instante por mim. A cor da perna impregnava no meu rosto. E minha pele parecia cheia de nódulos grossos, duros, aderidos na alma.
Choro e ranger de dentes, dizia a imagem apocalíptica. Sim, ela está aqui.
Há um lugar onde todas as pessoas tem acesso sem nenhuma restrição. Este lugar é a unidade de pronto-atendimento. Nele eu exerço a função de acolher o paciente grave que precisa de internação urgente e encaminhá-lo em tempo hábil. Neste lugar, vi isso ontem, um idoso possui a sua perna em auto-amputação, por não ter conseguido chegar ao único hospital que tem as especialidades que podem acolher sua demanda.
Eu estou trabalhando também neste tal hospital. Vi isso hoje: pessoas semeadas pelos corredores, moscas voando sobre seus rostos, acompanhantes trocando as fraldas dos idosos e as jogando, sujas de fezes, no chão. Macas altas, macas baixas, macas retidas das ambulâncias que aportam do interior, corpos tortos sobre elas.
- Comece por aqueles que estão há pelo menos um dia sem serem vistos, disse a colega.
Se aquele senhor fosse aceito por este hospital, sairia do lugar em que acotovela dezesseis pacientes entre poltronas de espera para um que se espalha por cem macas improvisadas pelo chão. "Os pacientes da radiologia" não são aqueles que estão internados em uma enfermaria com acompanhamento de radiologistas, mas os que que estão lotados no corredor em frente ao serviço de radiologia.
Dos que atendi hoje, chegando até mim mesmo apesar de todas as negativas que são dadas logo à porta do hospital, havia cânceres metastáticos, figados cirróticos em encefalopatas, acidentes vasculares cerebrais hemorrágicos, e uma jovem que gritava, desde as seis da manhã, de duas em duas horas de dor por pedra nos rins - era uma da tarde. Esta jovem era a melhor deles. Um dos que fui obrigado a orientar com veemência que procurasse outro hospital, pois os exames laboratoriais estavam normais, era uma depressão grave que o médico do posto disse (sic) "não volte mais aqui que o seu caso é com psiquiatra". E que o psiquiatra da rede pública disse que "o hospital (psiquiátrico) não tem suporte para aceitar um paciente que deve apresentar cuidados clínicos".
Também começo a trabalhar na equipe de cuidados paliativos do hospital. Chamados para dar os pareceres de como conduzir os momentos finais destes pacientes, esta equipe de médicos dá nortes de controle de sintomas e, principalmente, convoca a família para esclarecer a terminalidade da vida de seus entes queridos. Participei de duas reuniões. A primeira havia revolta unânime com o descaso. A segunda uma tristeza absurda com o acaso. A primeira era um acidente vascular que talvez pudesse ter sido evitado se socorrido a tempo. A segunda, um carcinoma que quando se manifesta, já é tarde.
Cheguei em casa há pouco. Ainda tive energia para ler algum capítulo de o Evangelho Segundo o Espiritismo para uma palestra que terei de dar logo mais. Adormeci estudando. Mas, o sono foi atribulado. Aqueles rostos cadavéricos passavam a todo instante por mim. A cor da perna impregnava no meu rosto. E minha pele parecia cheia de nódulos grossos, duros, aderidos na alma.
Choro e ranger de dentes, dizia a imagem apocalíptica. Sim, ela está aqui.
segunda-feira, 14 de novembro de 2016
Medicina e Espiritualidade para IFMSA
Por estes dias anda acontecendo o encontro da IFMSA (International Federation of Medical Students Associations) em Fortaleza. Convidaram-me para ajudar em um espaço, o de medicina e espiritualidade.
Ao chegar, o jovem que me ajudaria a conduzir perguntou o que achei da energia das pessoas. Sinceramente, disse que sentia-os cansados. Ele me revela que neste encontro há momentos de deliberação organizacional que corta a noite, acrescido de um momento de confraternização festiva.
Tive a ideia, então, de começar perguntando a todos os trinta que apareceram para participar deste espaço quanto tempo eles haviam dormido. Alguns viraram a noite. A maioria dormiu entre 3 e 4h. Havia os de 1 e 2h. Os mais descansados estavam com o sono regulado entre 8h e 10h. Não poderia começar nada sem minimamente equilibrá-los. A yoga vem me fazendo um grande bem. Partilhei alguns movimentos com eles.
Começamos depois, então, o diálogo por aí.
- Sabiam que yoga em sânscrito significa selar o cavalo? Os hindus reconheciam que o espírito era o grande agente do corpo e que deviam fazer do corpo um cavalo domável. Algumas escrituras dizem que os deuses temiam que a prática de yoga provocasse um domínio tal que fizesse que o espírito iogue se desprendesse da carne. Seria uma derrelição da ordem divina.
Queria conhecer mais esse público:
- Vocês acreditam em Deus?
Noventa e nove por cento acreditavam. Fiquei surpreso. Leio tanto livros de ateus que mostram uma realidade tão diferente na Europa, que esperava, entre estudantes de medicina, encontrar mais descrentes. Suspeitei que este Deus não tivesse a mesma imagem para cada um. Alguns definiram como o Deus judaico: o indefinível. Outros como o Cristão: o Amor-Deus. Outros como o Deus dos Iluministas: o Onisciente-Deus. Um garoto nos disse que deixara de acreditar em Deus ao entrar na adolescência. Mas, não era bem uma descrença absoluta. Parecia mais uma moratória. Deus, se existisse, não era acessível à nossa razão. Dever-se-ia esperar morrer para crer. Eu diria que não. Há um equívoco entre crer e saber. Ver Deus face à face: saber. Ter a ideia de Deus organizando a nossa identidade: crer. É o que os hebreus chamavam de sombra de Deus. Deus: uma nuvem.
Perguntei sobre imortalidade da alma. Noventa por cento acreditava, e quem não, pelo menos acreditava ainda em uma realidade transcendente, onde a mente poderia ainda se aproveitar de certo status de independência do cérebro.
Os jovens começaram a falar sobre suas crenças, suas concepções de amor, de Deus, de salvação.
Uma das coisas que quis trazer, em virtude de nosso Ocidente ser filho do cristianismo, é que o discurso judaico-cristão, ao contrário dos muitos discursos que floresceram à época do surgimento da civilização hebraica, era um discurso de derrotados. E isso não é pejorativo. Pelo contrário, demonstra a força que o discurso de um povo teve para manter acesa a coesão deles. Quando os outros povos eram dominados, sua mitologia e seu panteão morriam junto com eles. O discurso só existia enquanto estavam vitoriosos. Não tinha força para se manter vivo após o declínio da civilização deles. Mas, com os hebreus não foi assim.
A perspectiva que eu quis fazer com que eles enxergassem era a de quem via as coisas do plano da Terra, de olhos relativos e mortais. Claro que houve aqui e acolá alguém levantando o discurso do próprio Deus: "Os outros feneceram porque não adoravam o Deus verdadeiro". O meu ponto não era esse. Segundo o Professor Dr. Jacob Wright, da Universidade de Emory, nos EUA, a grande questão, que faz valer a pena estudar profundamente os hebreus em um mundo laico, é entender que mecanismos são estes de sobrevivência que fizeram com que um povo se mantivesse coeso mesmo na desgraça, para além de Estados-Nações territorialmente limitados. Em um mundo globalizado como o nosso, em que os limites territoriais dizem cada vez menos sobre um povo, a resposta para esse questionamento seria uma pérola.
Na medicina, algo muito mais tocante importa para o indivíduo: diante de doenças que nos consomem, por vezes esfacelando nossa identidade diante do espelho (filme: Invasões Bárbaras), que mecanismos teríamos para manter nossa coesão? O discurso da religião aparece entre as respostas.
Trouxe para eles uma divisão didática sobre as ordens a que estão submetidas nossas mais diversas ações e decisões: 1. a verdade (de responsabilidade da ciência); 2. o poder (da política); 3. o dever (da moral e da ética); 4. o amor ou o espírito (da espiritualidade ou da religião lato senso); 5. o absoluto ou Deus (da religião estrito senso ou da filosofia quanto se permite a metafísica). Divisão engendrada pelo filósofo André Comte-Sponville, no livro "O capitalismo é moral?".
Um deles havia dito que Deus seria Ciência. Por esse esqueminha aí de cima, não. Deus estaria no topo, coroando a pirâmide. Mas, ciência, replica ele, envolve tudo isso. Não, minha tréplica, ciência não decide sobre o bem e o mal de uma conduta, apenas se ela é verdadeira ou falsa. Se há um senhor de 77 anos, preso a aparelhos no hospital, sobrevivendo pela bomba de noradrenalina, e seu médico decide desligar a bomba, esse julgamento não é científico. A ciência poderá apenas dizer se vai ser verdade ou não a morte conseqüente ao ato. Que valor moral isso terá? A moral, de outro modo, não implica amor. O comedimento da filha que está lá fora da UTI, pedindo para que não seja desligada a bomba de seu pai, não envolve apenas um imperativo ético, mas uma lágrima de amor. O que não a faz, de todo modo, ter ideia do absoluto. Mas, se, além disso, ela proferir o discurso que o sofrimento de seu pai pode vir a ser recompensando por Deus no momento oportuno, temos aí o campo mais óbvio da religião, embora não seja o único.
Em certo momento, perguntei para os que não acreditavam em imortalidade se, mesmo não acreditando, eles tinham alguma forma de buscar perpetuidade. Um deles falou sobre o renome e a fama. Outro quis desmerecer essa busca. Pedi que não tentássemos diminuir a fala do outro, mas apenas proferir nosso caminho.
Desde há muito, a humanidade se divide na busca de permanência, quiçá infinitude. Os heróis de guerra queriam a glória que firmaria seus nomes na história (Aquiles). Os santos, a ascese. Os pais, os filhos (perpetuação genética). Os budistas, a luz. Os cristãos, Jesus. Cada cultura, cada religião, cada filosofia já formulou discursos para enfrentar a difícil condição de sermos mortais. A vida nunca respeitou esse esforço: sangramos, a pele rompe, perde a elasticidade, mancha-se, os ossos enfraquecem, os músculos secam, esquecemos a todo o instante de tanta coisa. Vamos deixando o que somos pelo caminho que passamos.
Uma mensagem muito importante eu tinha que deixar para aqueles meninos e meninas: somos movidos pelos ideais, pelas paixões. A verdade pode ser uma ordem primordial. Desde que temos consciência, estamos em busca de saber se a realidade que nos cerca é verdadeira ou mentirosa. Todavia, na medida que vamos criando corpo vamos fundando uma doutrina sobre a vida, uma cosmovisão que dá sentido ao que somos, ao que queremos ser, aos nossos sonhos. A busca de nossa verdade, então, vai se tornando uma busca de completar esse quebra-cabeças que somos nós, do que queremos ser. Um quebra-cabeças que já tem um cerne, mas onde peças podem ser adicionadas dando novo contorno, mas quase sem perder a forma (a forma segundo Aristóteles). A ciência é assim. Revelei-lhes que estudiosos da filosofia da ciência vem mostrando, a exemplo de Edgar Morin, que nenhuma pesquisa científica se dá sem influência ou conflito de interesse. Todo pesquisador é um apaixonado. A história de vida de cada um direciona o leme. É o que Morin chama de themata. A minha dica para eles é que não se envergonhassem de seus thematas. Eles dão sentido à busca. No final das contas, voltando para aquele esquema do Sponville, é Deus, ou o amor, ou o espírito que move a verdade. Sem eles, a verdade é nua e oca.
Uma estudante ficou tão encantada com essa revelação que veio falar comigo depois. Não apenas ela, mas três. Os professores, quando entramos na faculdade, vivem pedindo para esquecermos o que fomos, para assumir, de forma isenta, a verdade da ciência. Bem, isso é um engano, falei, talvez eles mesmos não tenham percebido o quanto isso é impossível. Que eu é esse que abandona o si mesmo para ir em busca de algo para si? As pessoas tentam isso. Sim. E é por isso que temos vários indivíduos cindidos. São uma coisa no meio acadêmico, outra em casa ou na rua. Corpos possuídos pelo espírito científico. Quando entram na faculdade, deixam o próprio Espírito no cabide da entrada.
Dos pontos que levei, esse parece ter sido o mais comovente. De uma forma geral, trazer temas de espiritualidade para esse povo foi como ter devolvido alma ao fazer deles. Eu posso ser eu na minha busca de ser mais? Era o que a moça me perguntava, como se eu a estivesse abençoando na jornada dela. Meu Deus, como não?!
Dos milagres mais lindos que presencio na vida é poder compartilhar assuntos que me são caros e são acolhidos com amor no coração das pessoas. Como algo que palpita em mim pode fazer palpitar o que há no peito de outro? Milagre que flui.
Ao chegar, o jovem que me ajudaria a conduzir perguntou o que achei da energia das pessoas. Sinceramente, disse que sentia-os cansados. Ele me revela que neste encontro há momentos de deliberação organizacional que corta a noite, acrescido de um momento de confraternização festiva.
Tive a ideia, então, de começar perguntando a todos os trinta que apareceram para participar deste espaço quanto tempo eles haviam dormido. Alguns viraram a noite. A maioria dormiu entre 3 e 4h. Havia os de 1 e 2h. Os mais descansados estavam com o sono regulado entre 8h e 10h. Não poderia começar nada sem minimamente equilibrá-los. A yoga vem me fazendo um grande bem. Partilhei alguns movimentos com eles.
Começamos depois, então, o diálogo por aí.
- Sabiam que yoga em sânscrito significa selar o cavalo? Os hindus reconheciam que o espírito era o grande agente do corpo e que deviam fazer do corpo um cavalo domável. Algumas escrituras dizem que os deuses temiam que a prática de yoga provocasse um domínio tal que fizesse que o espírito iogue se desprendesse da carne. Seria uma derrelição da ordem divina.
Queria conhecer mais esse público:
- Vocês acreditam em Deus?
Noventa e nove por cento acreditavam. Fiquei surpreso. Leio tanto livros de ateus que mostram uma realidade tão diferente na Europa, que esperava, entre estudantes de medicina, encontrar mais descrentes. Suspeitei que este Deus não tivesse a mesma imagem para cada um. Alguns definiram como o Deus judaico: o indefinível. Outros como o Cristão: o Amor-Deus. Outros como o Deus dos Iluministas: o Onisciente-Deus. Um garoto nos disse que deixara de acreditar em Deus ao entrar na adolescência. Mas, não era bem uma descrença absoluta. Parecia mais uma moratória. Deus, se existisse, não era acessível à nossa razão. Dever-se-ia esperar morrer para crer. Eu diria que não. Há um equívoco entre crer e saber. Ver Deus face à face: saber. Ter a ideia de Deus organizando a nossa identidade: crer. É o que os hebreus chamavam de sombra de Deus. Deus: uma nuvem.
Perguntei sobre imortalidade da alma. Noventa por cento acreditava, e quem não, pelo menos acreditava ainda em uma realidade transcendente, onde a mente poderia ainda se aproveitar de certo status de independência do cérebro.
Os jovens começaram a falar sobre suas crenças, suas concepções de amor, de Deus, de salvação.
Uma das coisas que quis trazer, em virtude de nosso Ocidente ser filho do cristianismo, é que o discurso judaico-cristão, ao contrário dos muitos discursos que floresceram à época do surgimento da civilização hebraica, era um discurso de derrotados. E isso não é pejorativo. Pelo contrário, demonstra a força que o discurso de um povo teve para manter acesa a coesão deles. Quando os outros povos eram dominados, sua mitologia e seu panteão morriam junto com eles. O discurso só existia enquanto estavam vitoriosos. Não tinha força para se manter vivo após o declínio da civilização deles. Mas, com os hebreus não foi assim.
A perspectiva que eu quis fazer com que eles enxergassem era a de quem via as coisas do plano da Terra, de olhos relativos e mortais. Claro que houve aqui e acolá alguém levantando o discurso do próprio Deus: "Os outros feneceram porque não adoravam o Deus verdadeiro". O meu ponto não era esse. Segundo o Professor Dr. Jacob Wright, da Universidade de Emory, nos EUA, a grande questão, que faz valer a pena estudar profundamente os hebreus em um mundo laico, é entender que mecanismos são estes de sobrevivência que fizeram com que um povo se mantivesse coeso mesmo na desgraça, para além de Estados-Nações territorialmente limitados. Em um mundo globalizado como o nosso, em que os limites territoriais dizem cada vez menos sobre um povo, a resposta para esse questionamento seria uma pérola.
Na medicina, algo muito mais tocante importa para o indivíduo: diante de doenças que nos consomem, por vezes esfacelando nossa identidade diante do espelho (filme: Invasões Bárbaras), que mecanismos teríamos para manter nossa coesão? O discurso da religião aparece entre as respostas.
Trouxe para eles uma divisão didática sobre as ordens a que estão submetidas nossas mais diversas ações e decisões: 1. a verdade (de responsabilidade da ciência); 2. o poder (da política); 3. o dever (da moral e da ética); 4. o amor ou o espírito (da espiritualidade ou da religião lato senso); 5. o absoluto ou Deus (da religião estrito senso ou da filosofia quanto se permite a metafísica). Divisão engendrada pelo filósofo André Comte-Sponville, no livro "O capitalismo é moral?".
Um deles havia dito que Deus seria Ciência. Por esse esqueminha aí de cima, não. Deus estaria no topo, coroando a pirâmide. Mas, ciência, replica ele, envolve tudo isso. Não, minha tréplica, ciência não decide sobre o bem e o mal de uma conduta, apenas se ela é verdadeira ou falsa. Se há um senhor de 77 anos, preso a aparelhos no hospital, sobrevivendo pela bomba de noradrenalina, e seu médico decide desligar a bomba, esse julgamento não é científico. A ciência poderá apenas dizer se vai ser verdade ou não a morte conseqüente ao ato. Que valor moral isso terá? A moral, de outro modo, não implica amor. O comedimento da filha que está lá fora da UTI, pedindo para que não seja desligada a bomba de seu pai, não envolve apenas um imperativo ético, mas uma lágrima de amor. O que não a faz, de todo modo, ter ideia do absoluto. Mas, se, além disso, ela proferir o discurso que o sofrimento de seu pai pode vir a ser recompensando por Deus no momento oportuno, temos aí o campo mais óbvio da religião, embora não seja o único.
Em certo momento, perguntei para os que não acreditavam em imortalidade se, mesmo não acreditando, eles tinham alguma forma de buscar perpetuidade. Um deles falou sobre o renome e a fama. Outro quis desmerecer essa busca. Pedi que não tentássemos diminuir a fala do outro, mas apenas proferir nosso caminho.
Desde há muito, a humanidade se divide na busca de permanência, quiçá infinitude. Os heróis de guerra queriam a glória que firmaria seus nomes na história (Aquiles). Os santos, a ascese. Os pais, os filhos (perpetuação genética). Os budistas, a luz. Os cristãos, Jesus. Cada cultura, cada religião, cada filosofia já formulou discursos para enfrentar a difícil condição de sermos mortais. A vida nunca respeitou esse esforço: sangramos, a pele rompe, perde a elasticidade, mancha-se, os ossos enfraquecem, os músculos secam, esquecemos a todo o instante de tanta coisa. Vamos deixando o que somos pelo caminho que passamos.
Uma mensagem muito importante eu tinha que deixar para aqueles meninos e meninas: somos movidos pelos ideais, pelas paixões. A verdade pode ser uma ordem primordial. Desde que temos consciência, estamos em busca de saber se a realidade que nos cerca é verdadeira ou mentirosa. Todavia, na medida que vamos criando corpo vamos fundando uma doutrina sobre a vida, uma cosmovisão que dá sentido ao que somos, ao que queremos ser, aos nossos sonhos. A busca de nossa verdade, então, vai se tornando uma busca de completar esse quebra-cabeças que somos nós, do que queremos ser. Um quebra-cabeças que já tem um cerne, mas onde peças podem ser adicionadas dando novo contorno, mas quase sem perder a forma (a forma segundo Aristóteles). A ciência é assim. Revelei-lhes que estudiosos da filosofia da ciência vem mostrando, a exemplo de Edgar Morin, que nenhuma pesquisa científica se dá sem influência ou conflito de interesse. Todo pesquisador é um apaixonado. A história de vida de cada um direciona o leme. É o que Morin chama de themata. A minha dica para eles é que não se envergonhassem de seus thematas. Eles dão sentido à busca. No final das contas, voltando para aquele esquema do Sponville, é Deus, ou o amor, ou o espírito que move a verdade. Sem eles, a verdade é nua e oca.
Uma estudante ficou tão encantada com essa revelação que veio falar comigo depois. Não apenas ela, mas três. Os professores, quando entramos na faculdade, vivem pedindo para esquecermos o que fomos, para assumir, de forma isenta, a verdade da ciência. Bem, isso é um engano, falei, talvez eles mesmos não tenham percebido o quanto isso é impossível. Que eu é esse que abandona o si mesmo para ir em busca de algo para si? As pessoas tentam isso. Sim. E é por isso que temos vários indivíduos cindidos. São uma coisa no meio acadêmico, outra em casa ou na rua. Corpos possuídos pelo espírito científico. Quando entram na faculdade, deixam o próprio Espírito no cabide da entrada.
Dos pontos que levei, esse parece ter sido o mais comovente. De uma forma geral, trazer temas de espiritualidade para esse povo foi como ter devolvido alma ao fazer deles. Eu posso ser eu na minha busca de ser mais? Era o que a moça me perguntava, como se eu a estivesse abençoando na jornada dela. Meu Deus, como não?!
Dos milagres mais lindos que presencio na vida é poder compartilhar assuntos que me são caros e são acolhidos com amor no coração das pessoas. Como algo que palpita em mim pode fazer palpitar o que há no peito de outro? Milagre que flui.
quinta-feira, 18 de agosto de 2016
Quem gosta de parto vaginal?
Nas nossas práticas de ambulatório de pré-natal, em que atendemos pessoas em situação de risco social do arredor da Unidade Básica, faço questão de sempre perguntar: "Qual a sua preferência de parto?". Em unanimidade elas respondem "o normal", que é o vaginal.
É uma pergunta idiota. As pacientes atendidas em Unidades Básicas do Nordeste não tem direito de escolha. Há uma possibilidade teórica de liberdade. Todavia, há um obstáculo gigantesco entre a teoria e a prática. Atendidas por médicos de família ou partícipes do Programa Mais Médicos, lhes é dificultado o direito de escolha do médico que vai lhes acompanhar até o termo, ou o obstetra ou a maternidade. Por praticidade, a divisão segue o critério de território. É aquele médico, aquele obstetra e aquela maternidade que cobre tal região.
A escolha da via de parto é indicação do obstetra que decide o que é o melhor, tecnicamente, para a ocasião. Não que isso - a escolha ficar ao encargo do especialista por critérios técnicos - seja errado, mas é estranho que não seja igual para a rede particular. Quem tem um plano de saúde já diz sua preferência desde o início. E se o obstetra discordar, troca-se de médico.
Faço questão de perguntar para as gestantes que atendemos sua preferência, porque evidencia o choque do modo de vida daquelas pessoas com as nossas alunas. Entre estas, raras são as que se submeteriam ao parto vaginal, por causa da dor, das lacerações possíveis. Não há documentário que lhes convença do contrário.
Então, questionei:
- Esse movimento de renovação da vontade pelo parto vaginal tem crescido nas classes mais favorecidas. Que perfil de clientes vocês acham que exemplifica essa vontade?
- Os naturebas. - replicou a moça.
De fato, há uma certa predominância desse "comportamento natureba" entre as mães que defendem o parto vaginal. Como seria isso?
Ele nasce de uma consciência ecológica de respeito pela natureza. É afeito a acreditar que há uma razão que nos une, algo de divino e espiritual, mesmo que não seja Deus. O corpo, como partícipe desse conjunto, tem suas razões de ser em cada ato. Dessa forma, esvazia-se a culpa da natureza. Não passamos mais a vê-la como inimiga, mas como mãe benfazeja e providencial. Gaia. Não há porque lutar contra ela. Não há pecado imanente, mas uma inocência do que está por aqui e do que está por vir. Um gosto por pensamentos sistêmicos, isto é, aqueles que englobam numa só razão todos os efeitos e causas surge nessa população. Daí voltarem-se também para as medicinas alternativas que sempre possuem uma visão cósmica bem coerente e coesa embasando suas práticas, ainda que as pesquisas de medicina baseada em evidência não provem nada. Replicam: "a inexistência de provas não prova a inexistência".
Na trilha desse pensamento ecológico vem uma crítica contra a medicina moderna, cuja ciência nasceu em busca de enfrentar a natureza má, que mata, que destrói. Enfatizam assim o malefício das nossas intervenções, exaltam a iatrogenia, isto é, o erro médico. É uma razão reativa. Detratam a tecnociência que embasa a medicina moderna a fim de fazer erigir novas formas de olhar o cuidado com o ser humano.
Aqui a dor é entendida como um mal a ser sanado, daí o envolvimento cirúrgico-anestésico. Lá a dor é uma parte da vida, um prelúdio para as alegrias que advém do parto. Exaltam a liberação dos hormônios de prazer, como que o natural equilíbrio da balança após tanto sofrimento.
O debate envolvendo essas duas correntes vem se enovelando. De um lado, o primado do especialista como burilador da natureza. Isso corresponde em arte ao classicismo. A natureza não é bonita per si, mas deve ser lapidada para tirar dela o diamante. Do outro, o primado da natureza sobre qualquer vivente. Nisso temos o romantismo alemão que via nos cartesianos uns tolos redutores. A natureza basta per si.
Enquanto essa luta viceja na saúde suplementar, o que me inquieta é boa parte da população escolher o parto vaginal, não pelas benesses dele, mas pela necessidade social.
É uma pergunta idiota. As pacientes atendidas em Unidades Básicas do Nordeste não tem direito de escolha. Há uma possibilidade teórica de liberdade. Todavia, há um obstáculo gigantesco entre a teoria e a prática. Atendidas por médicos de família ou partícipes do Programa Mais Médicos, lhes é dificultado o direito de escolha do médico que vai lhes acompanhar até o termo, ou o obstetra ou a maternidade. Por praticidade, a divisão segue o critério de território. É aquele médico, aquele obstetra e aquela maternidade que cobre tal região.
A escolha da via de parto é indicação do obstetra que decide o que é o melhor, tecnicamente, para a ocasião. Não que isso - a escolha ficar ao encargo do especialista por critérios técnicos - seja errado, mas é estranho que não seja igual para a rede particular. Quem tem um plano de saúde já diz sua preferência desde o início. E se o obstetra discordar, troca-se de médico.
Faço questão de perguntar para as gestantes que atendemos sua preferência, porque evidencia o choque do modo de vida daquelas pessoas com as nossas alunas. Entre estas, raras são as que se submeteriam ao parto vaginal, por causa da dor, das lacerações possíveis. Não há documentário que lhes convença do contrário.
Então, questionei:
- Esse movimento de renovação da vontade pelo parto vaginal tem crescido nas classes mais favorecidas. Que perfil de clientes vocês acham que exemplifica essa vontade?
- Os naturebas. - replicou a moça.
De fato, há uma certa predominância desse "comportamento natureba" entre as mães que defendem o parto vaginal. Como seria isso?
Ele nasce de uma consciência ecológica de respeito pela natureza. É afeito a acreditar que há uma razão que nos une, algo de divino e espiritual, mesmo que não seja Deus. O corpo, como partícipe desse conjunto, tem suas razões de ser em cada ato. Dessa forma, esvazia-se a culpa da natureza. Não passamos mais a vê-la como inimiga, mas como mãe benfazeja e providencial. Gaia. Não há porque lutar contra ela. Não há pecado imanente, mas uma inocência do que está por aqui e do que está por vir. Um gosto por pensamentos sistêmicos, isto é, aqueles que englobam numa só razão todos os efeitos e causas surge nessa população. Daí voltarem-se também para as medicinas alternativas que sempre possuem uma visão cósmica bem coerente e coesa embasando suas práticas, ainda que as pesquisas de medicina baseada em evidência não provem nada. Replicam: "a inexistência de provas não prova a inexistência".
Na trilha desse pensamento ecológico vem uma crítica contra a medicina moderna, cuja ciência nasceu em busca de enfrentar a natureza má, que mata, que destrói. Enfatizam assim o malefício das nossas intervenções, exaltam a iatrogenia, isto é, o erro médico. É uma razão reativa. Detratam a tecnociência que embasa a medicina moderna a fim de fazer erigir novas formas de olhar o cuidado com o ser humano.
Aqui a dor é entendida como um mal a ser sanado, daí o envolvimento cirúrgico-anestésico. Lá a dor é uma parte da vida, um prelúdio para as alegrias que advém do parto. Exaltam a liberação dos hormônios de prazer, como que o natural equilíbrio da balança após tanto sofrimento.
O debate envolvendo essas duas correntes vem se enovelando. De um lado, o primado do especialista como burilador da natureza. Isso corresponde em arte ao classicismo. A natureza não é bonita per si, mas deve ser lapidada para tirar dela o diamante. Do outro, o primado da natureza sobre qualquer vivente. Nisso temos o romantismo alemão que via nos cartesianos uns tolos redutores. A natureza basta per si.
Enquanto essa luta viceja na saúde suplementar, o que me inquieta é boa parte da população escolher o parto vaginal, não pelas benesses dele, mas pela necessidade social.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Trabalhe em emergência. Não, digo, não trabalhe, quer dizer...
Eu tenho um amigo que ainda peleja por sobreviver à faculdade de medicina. Sou professor e poderia direcionar esse conselho para todos os meus alunos, mas se pensasse neles ficaria algo distante, e quero uma fala de mão no ombro. Falo para meu amigo.
Não trabalhe em emergências.
Você chegará cansado demais em casa, seu corpo estará quebrado por dentro, seus ossos parecerão estilhaçados de tanto esforço. Nós dois que nos esmeramos no pensamento de humanização da relação de assistência caímos decepcionados com o sistema que come nosso tempo com o paciente.
Não. Trabalhe em emergências.
Lembrei que o conhecimento que aprendemos na faculdade é dinamizado como nunca antes à beira do leito do paciente, na margem da mesa da consulta. Os olhos são treinados para as diferentes cores da pele doente, para os andares quebrados, para os inchaços e as assimetrias, de tal modo que muitos diagnósticos você já os dá enquanto o paciente entra no consultório.
Esqueça. Não trabalhe em emergências.
Com o tempo você se confia demais nesse olhar aquilino e diminui a fala. Quando o bicho pega no plantão, você fica cego para o espírito, vê apenas corpos adoecidos, entra e sai das salas sem cumprimentar, apenas para dar seguimento a raciocínios diagnóstico-terapêuticos.
Isto é, trabalhe em emergências.
Em boa parte dessas entradas você vai ver que o remédio que acabou de prescrever logo atrás já fez efeito. As dores que chegaram gritando foram sanadas. O semblante calmo vem te agradecer já na sua entrada. Quando você exerce sua atividade com proficiência, a sua simples presença passa a ser alento e segurança para quem estava aflito, para a equipe até.
Não, garoto, não trabalhe por lá.
Esses poderes sobem a cabeça. Vem a vontade de fazer piada dos sofrimentos, por eles se tornarem comuns no seu dia. Por saber que essa morbidade não causará morte, que aquela passará em tal tempo, que aquela outra é psicogênica. Vai querer rir da desgraça, porque ela não está em seu próprio corpo, pois o que há no seu corpo é cansaço desejoso de descontração.
Não, espera! Trabalhe, trabalhe sim.
Queria que você visse a gratidão dos familiares quando consegue um leito em um hospital bom, ou quando, depois de todos os seus esforços, vigilâncias, dedicação, o paciente se restabelece. Receber alguns presentinhos simbólicos.
Não espere. Saia logo de lá.
Vai experimentar o amargo de ser o primeiro a dizer que "ele(a) não agüentou". E ouvir o choro contido, ou o grito desesperador.
Espera. Não saia logo.
Olhe direitinho para esse choro ou para aquele grito. Você vai passar por isso em todo lugar da medicina que for. Contemple um pouco. Acolha-o. Você vai passar por isso em todo lugar da vida.
Mas, quando perceber que a emergência está te anestesiando da compaixão da morte, está, definitivamente, na hora de sair. Ela te engana sobre a infinitude da vida. Aprenda o que tem de aprender e siga adiante.
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Leia também:
Você deixa uma parte de si no plantão
Pior Plantão Médico
Não trabalhe em emergências.
Você chegará cansado demais em casa, seu corpo estará quebrado por dentro, seus ossos parecerão estilhaçados de tanto esforço. Nós dois que nos esmeramos no pensamento de humanização da relação de assistência caímos decepcionados com o sistema que come nosso tempo com o paciente.
Não. Trabalhe em emergências.
Lembrei que o conhecimento que aprendemos na faculdade é dinamizado como nunca antes à beira do leito do paciente, na margem da mesa da consulta. Os olhos são treinados para as diferentes cores da pele doente, para os andares quebrados, para os inchaços e as assimetrias, de tal modo que muitos diagnósticos você já os dá enquanto o paciente entra no consultório.
Esqueça. Não trabalhe em emergências.
Com o tempo você se confia demais nesse olhar aquilino e diminui a fala. Quando o bicho pega no plantão, você fica cego para o espírito, vê apenas corpos adoecidos, entra e sai das salas sem cumprimentar, apenas para dar seguimento a raciocínios diagnóstico-terapêuticos.
Isto é, trabalhe em emergências.
Em boa parte dessas entradas você vai ver que o remédio que acabou de prescrever logo atrás já fez efeito. As dores que chegaram gritando foram sanadas. O semblante calmo vem te agradecer já na sua entrada. Quando você exerce sua atividade com proficiência, a sua simples presença passa a ser alento e segurança para quem estava aflito, para a equipe até.
Não, garoto, não trabalhe por lá.
Esses poderes sobem a cabeça. Vem a vontade de fazer piada dos sofrimentos, por eles se tornarem comuns no seu dia. Por saber que essa morbidade não causará morte, que aquela passará em tal tempo, que aquela outra é psicogênica. Vai querer rir da desgraça, porque ela não está em seu próprio corpo, pois o que há no seu corpo é cansaço desejoso de descontração.
Não, espera! Trabalhe, trabalhe sim.
Queria que você visse a gratidão dos familiares quando consegue um leito em um hospital bom, ou quando, depois de todos os seus esforços, vigilâncias, dedicação, o paciente se restabelece. Receber alguns presentinhos simbólicos.
Não espere. Saia logo de lá.
Vai experimentar o amargo de ser o primeiro a dizer que "ele(a) não agüentou". E ouvir o choro contido, ou o grito desesperador.
Espera. Não saia logo.
Olhe direitinho para esse choro ou para aquele grito. Você vai passar por isso em todo lugar da medicina que for. Contemple um pouco. Acolha-o. Você vai passar por isso em todo lugar da vida.
Mas, quando perceber que a emergência está te anestesiando da compaixão da morte, está, definitivamente, na hora de sair. Ela te engana sobre a infinitude da vida. Aprenda o que tem de aprender e siga adiante.
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