sábado, 16 de setembro de 2017

Antes de medicar, conhecer o lugar

Amigo,

Você queria falar comigo sobre atenção primária. É que presenciou meu discurso de como me converti a esse mundo na faculdade, mas também testemunhou as reclamações contra o cotidiano que nos esmaga diuturnamente nos ambulatórios de lá. 

A conversa vai ser longa. Estarei lhe enviando cartas. Vou aproveitar este momento de reencontro com a medicina de família, agora que assumi papel de supervisor de médicos que estão no interior do Ceará. É um jeito diferente de olhar o que já fiz, vou olhar do alto.  

A primeira viagem que fiz, tinha que me encontrar com cada médico, mas queria conhecer o lugar. Se a família e o emprego principal me desobrigassem, passaria uma semana rondando, ouvindo as pessoas, fotografando as belezas, o normal e a feiúra dos cantos. Sentaria à pracinha no final da tarde para passear e aqui e ali escutar as conversas jogadas fora. Conheceria as iguarias da região, o pulso do comércio, o esforço da agricultura e da criação de gado, visitaria os cartões postais, embrenhar-me-ia na vegetação tentando sentir os espíritos elementais, subiria ao alto do serrote para ver o quanto tudo o que vi e ouvi era pequeno e parte de algo maior. Só então eu desceria para os doentes. 

Talvez daria para a equipe me reservar um canto no carro das visitas para os debilitados que não podem ir à unidade de saúde. Em cada casa, não sendo o médico, bisbilhotaria a arquitetura, a decoração, a simbologia da vida espiritual e as fotos das recordações. Nos tempos vagos da anamnese dos médicos, aproveitaria para perguntar algo da pessoa mesma, que não fosse dor, nem desespero. 

Sentir no corpo o que é estar dia e noite no lugar, a distância ao trabalho, o ritmo da vida, o silêncio da noite, como o vento se move quando todas as portas estão fechadas. 

Se a família e o emprego principal me desobrigassem por completo, tomaria um ano para entender como as festas modificam a cidade, como se prepara, como se despede delas. Como o ano nasce, como ele vem à pino em junho, como ele morre ao comemorar o nascimento de Cristo. Conhecer os sacerdotes do lugar, suas ladainhas, o movimento dos fiéis em busca de construir uma vida comunitária em aliança com alguma narrativa cósmica. O desafio diário de cuidar da transcendência tendo a imanência do ronco da barriga para acalmar.   

Só depois buscaria as estatísticas de doenças, os remédios e os instrumentos disponíveis para combatê-las, a evolução histórica desta luta nos último cinco anos, as condições de atendimento à população nas diversas unidades de saúde. Testemunhar algumas consultas para ver como as pessoas confessam suas dores.

Como essa liberdade não é possível, apenas um centésimo do terceiro parágrafo e um terço do penúltimo é que pude realizar. Tenho mais algum tempo por lá, quem sabe? 

sábado, 9 de setembro de 2017

Algumas pontuações pedagógicas em diálogo com a educação popular ou Educação para o Espírito

Aos alunos do segundo semestre da faculdade de medicina, estamos discutindo as melhores formas de abordar as pessoas para lhes ensinar algo que as engrandeça, fazendo somar os conhecimentos que trazemos das ciências da saúde. Se trata de ensinar formas de educação popular. 

A forma de educação mais conhecida é a tradicional ou professoral, em que o mestre se posta acima dos espectadores, transmitindo-lhes uma verdade doutoral. Geralmente é útil para platéias que já tem certa experiência ou identificação emocional com o conteúdo. Uma amiga relatou ter passado quatro horas escutando uma palestra sobre budismo que realmente a elevou. Os indivíduos propensos a esta imersão no mar de palavras do outro são aqueles que já vêm nadando por estas águas há um tempo, em busca aqui e ali de algum porto seguro que tenha um navegador experiente para lhes contar histórias de além-mar. 

A outra forma de educação que vem ganhando espaço nas últimas décadas, que predomina em quase toda nossa formação, é a do estímulo-recompensa, ou treinamento. É o que se faz quando se dá dez ou A+ para um aluno que cumpriu certa etapa a contento. É boa para formar hábitos e sedimentar patamares de conforto, mas raramente permite mergulhos mais profundos. 

Para mergulhar é preciso a virtude de arriscar-se, de enfrentar abismos. É preciso, ainda mais, estar preparado para as feridas do caminho. Só uma motivação para além das recompensas menores pode propiciar essa empreitada. Visa-se um horizonte esplêndido cujo percurso pode ser recheado de desafios terríveis, até mesmo de vários motivos de desistência. É (quase?) uma questão de fé persistir neste aprendizado. 

Por último, uma forma de educação muito querida dos movimentos populares e dos condutores de terapias de grupo é a de construção coletiva do saber ou dos círculos de cultura freireanos. O círculo é o modelo das relações sem arestas de poder, buscando-se ativamente despertar a força e a verdade de cada uma das vozes que compõem o grupo. O problema maior que se origina deste tipo de pedagogia, a que deram pra chamar de pedagogia do oprimido (das vozes tradicionalmente reprimidas), é como agregar conhecimentos que sejam exteriores ao círculo de cultura.

Quando nos deparamos com uma obra clássica que sobreviveu à corrosão do tempo, ela nos fala de verdades humanas que reverberam em nossa alma. Muitas vezes é preciso esforço para sair da sua própria ilha, percorrer as realidades inéditas que esta obra trás, para só então conseguir entendê-la. É preciso, muitas vezes, negar a si mesmo, para só depois se reencontrar em um lugar mais alto e mais profundo de si. 

Se ficamos girando em torno do respeito das verdades do círculo que se formou para "produzir conhecimento", muitas vezes estagnamos apenas no que este círculo é capaz. Cria-se um sentimento de tribo e um conjunto de defesas para proteger as relíquias culturais do povo. 

Há alguns conhecimentos, porém, que não são de povo algum, porque são de todos. Por vezes violentam nossa própria forma de enxergar a realidade, arrebatando-nos. Mesmo as comunidades tradicionais, tão protegidas pelos círculos de cultura, sabiam disso. Daí a figura dos xamãs, que davam norte aos espíritos do lugar. Seus êxtases traziam revelações de um mundo das ideias, quiçá de um mundo dos princípios, fazia sombra na comunidade, provocava genuflexões espontâneas.

A teoria da pedagogia do oprimido busca desconstruir qualquer tradição xamânica, qualquer conhecimento que seja passado por alguém que se intitule portador da verdade, representante da sabedoria que se ergue em um indivíduo singular sobre o coletivo. 

É verdade que o charlatanismo se vale dessas vestes para subjugar os ingênuos. Mas, nem tudo é charlatanismo. Junto com a briga contra estas classes nobre-sacerdotais, vai-se o assassinato de verdadeiros mestres espirituais, toda sorte de profetas e conselheiros que eram o pivô da harmonia da comunidade. Aquele que estava no meio-termo entre a alma humana e o divino, estes dois polos que a muito custo se equilibram, ao custo da vida, ao lucro da morte. 

Os círculos de cultura freireano costumam ser inimigos dos que sobem em palco e vomitam conhecimento, isto é, da pedagogia tradicional, a que chamam de transmissão bancária. São reticentes a respeito dos homens carismáticos, cuja liderança é capaz de arrastar multidões com um discurso de horas.

Assim como expus onde as outras pedagogias eram boas, faço o mesmo sobre a do oprimido. Proliferam onde há muitas vozes caladas por algum desmando crônico, alguma ditadura lacônica, que apenas edita ordens de uma cátedra. Feito o magma da Terra, as pessoas querem se expressar. Todavia, o que acho que a pedagogia do oprimido não deu conta de captar ainda é quando as vozes caladas são às do alto, que querem brotar na possessão dos corpos. O divino que se manifesta entre pescadores e carpinteiros é a próxima liberdade que devemos respeitar. 

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

História de Vida e Medicina: em busca da possibilidade de diálogo

Todo semestre sou convidado para dar uma aula não usual à medicina: história de vida. Antes de conviver com minha orientadora de mestrado da educação nem sabia que isso era pauta de pesquisa. Hoje, a vejo como a chave para algumas portas que tento abrir na ciência dura. 

História de vida, ou biografização, ou narrativas de si, é algo que posso explicar de forma bem simples: o ato de reconstruir sua vida através das suas próprias palavras em determinado momento. É você contar como viveu. Quem estuda os discursos elaborados com esse propósito percebeu  várias particularidades que estão se amontoando em ciência, forjando capítulos nas ciências humanas. Uma das particularidades mais conflitantes com o que entendemos de história para a medicina é a liberdade da pessoa de ressignificar o que viveu através das palavras do agora. Para a medicina o nome disso é mentira, e dribla a possibilidade diagnóstica. 

Dessa forma, como sei bem onde piso, começo minha aula desafiando os estudantes em um caso clínico. A história (da doença)  da paciente vai se revelando na medida em que eles vão conseguindo decifrar as charadas dos sinais e sintomas. Depois do furor inicial, do diagnóstico mais provável encontrado, que era o gabarito que estava na minha cabeça quando formulei o caso, os levo para entenderem a diferença entre o que seria a história de um paciente e a história de vida contada por uma pessoa. Basicamente os faço perceber que aquela busca uma verdade diagnóstica, o sujeito condutor da construção sã desta verdade é o médico (às vezes é preciso estancar a verborragia do paciente); já na história de vida da pessoa, é ela que é o sujeito, e a verdade que importa é a que ela está conseguindo construir agora. 

Perceba que aqui se chocam exatamente as duas epistemes das ciências irmãs e briguentas, grosso modo, a verdade geométrica, que independeria das variações da realidade, e a interpretação pessoal do vivido, que pega a realidade como argamassa de uma narrativa. 

Para que, na medicina, a história de vida tivesse efeito de verdade, eu teria que provar ao médico que toda aquela narrativa aponta para a doença como entidade construída, que a doença não é um fato biológico independente que se apoderou do indivíduo forjando sintomas, mas é uma construção de uma caminhada. 

Quando falo isso, parece um discurso sedutor para os humanistas. Tal visão respeitaria a singularidade e a potência dos atores sociais para moldar o entorno. Mas, sinto estar falando de uma abstração incognoscível para os epidemiologistas que dominam a nossa forma de fazer ciência, isto é, baseada em evidências. Porque o que o epidemiologista ou o pesquisador clínico busca é exatamente o suco da realidade que não se altera com os acidentes de percurso provocados pela intervenção humana. Daí eles buscarem as fórmulas matemáticas para lhes ajudaram nesta higienização das teses. Seguindo essa esteira de produção de entidades nosológicas, acabam por encontrar sinais e sintomas consensuais em vários indivíduos em tal magnitude que podemos dizer que, na verdade, não sofrem eles do peso da própria vida, mas de uma doença comum a todos, a partir da qual podemos formular protocolos de pesquisa a fim de entender o melhor tratamento para - a doença. 

Não é fácil encontrar o campo em que estas duas vertentes vão se harmonizar da forma como a medicina ocidental oficial está cristalizada, então, como itinerário de pesquisa e de engrandecimento pessoal, estou indo atrás do estudo de outras racionalidades médicas que permitem vislumbrar o que seria a ponte entre estas formas de enxergar as histórias. Como a história de vida pode desaguar na história da doença?

Três formas já se me apresentam: o vitalismo homeopático, a antropologia da medicina tradicional chinesa, a perspectiva de causa-e-efeito do reencarnacionismo espírita. Desenvolve-los-ei em outros momentos. 

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Querendo sair da faculdade logo ao primeiro dia

A moça chegou para mim com um desejo nos olhos, assim interpretei. Queria que eu abençoasse sua vontade de não permanecer na medicina.

Falou-me de ser muito boa em matemática e não gostar de biologia. Lembrei de um grande amigo que quis me convencer a permanecer na faculdade porque fora dela eu poderia ser isso ou aquilo, mas não médico. Dentro dela eu seria médico e depois poderia ser isso ou aquilo. Na verdade o argumento é fraco, reconheço. Ele não me convenceu pelo argumento, mas porque foi uma pessoa que esteve ao meu lado me incentivando todo tempo, ele e sua esposa, amigos adoráveis.

Jean-Paul Sartre achava que o indivíduo constrói sua história e que quando, por exemplo, ele vai perguntar o que fazer a alguém, já vai tendencioso para aquele que acha que vai endossar a escolha que esconde. Se isso não for uma lei universal, pelo menos parecia ser a verdade daquela moça.

O que alguém quer me falar quando diz que não gosta de biologia, mas ama matemática ao primeiro dia de aula de medicina, com lágrima nos olhos, que a mãe aconselhou que terminasse pelo menos o primeiro semestre, mas que achava que não adiantaria de muita coisa, etc?

Ela veio para mim porque sou quase da idade dela, tenho barba desgrenhada, não uso jaleco, não tenho expressão professoral. Creio que eu era o padre perfeito para a perdoar. E talvez fosse. Não porque acho que ela não deva ficar na medicina, mas porque acho que isso não é o que importa. Apanhei à faculdade demais para reconhecer isso. A grandeza desta vida é a formação da personalidade, o diamante que restará ao final do embate diário com as pressões sociais e os anseios que a alma traz.

A gente começa se conhecendo. O corpo parece uma coisa indomável sob o domínio do bebê, depois nos apoderamos dele como instrumento. Encontramos o nosso lugar em nós mesmos, depois entre os nossos, para então sermos arremessados para os estranhos. Querem que contribuamos com o projeto humano. Esse é o momento da escolha da profissão. Há lugar ao sol para toda ocupação, e todas elas geram vida.

Estou falando a partir de uma trajetória que flutuava muito na decisão de ser médico, cercado por fortes pressões familiares. Acabou que deu certo. Há quem não terá o mesmo êxito se quiser seguir o mesmo caminho. É que guardava em mim um diálogo mal feito com papai que precisava ser resolvido. Conto isso em outro lugar. Quando resolvi, passei a ser o médico que realmente queria ser, e, coisa risível, que meu pai também queria. Só que ele não viveu até me ver assim. Morreu um ano e meio antes de me formar. Fundi, enfim, minha vontade à dele, sem arrependimento, com carinho. Enterrei ele em mim, morreu junto o filho, floresceu o homem


O ápice da formação da personalidade é se reconhcer parte de uma história infinita, nadando numa correnteza muito especial, e - momento de êxtase - ver o sentido de tudo isso nos planos de Deus, ou no que quer que valha como ordem transcendente ali logo ao final. Há quem não chegue aí. Um dia pretendo chegar. Espero que essa moça consiga também fazer desaguar o sangue dela onde o coração puder pulsar com mais vigor. Independente da profissão, o movimento é o mesmo.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Preparação para Residência médica (o que não se ensina)

Não vou falar de matérias, mas das coisas do espírito. É que a medicina é grande demais, e em um texto não cabe tudo que cai no processo seletivo da residência. Das questões espirituais, cabe tão pouco, mas vale, ao menos, um alerta, que se ninguém fala, passa batido. 

É mais para quando estiver já dentro. Você tem que se desfazer de uma ilusão: "não espere assessoria absoluta". Falei sobre o medo na postagem passada. Lá pelas tantas disse que, mesmo em equipe, a solidão da decisão lhe acompanha. No final, é sempre você. Só que, pode ser que no começo e no meio do processo também se encontre sozinho. 

Participei da greve geral dos residentes ao ano de 2010. Testemunhei as discussões sobre "quem daria suporte para as emergências", e as réplicas de que "qualquer serviço deveria poder funcionar sem residentes". Fui um dos que compareceu ao Conselho Regional de Medicina para discutirmos a ética da nossa greve e do esvaziamento que faríamos aos serviços. Reivindicávamos não sermos mão-de-obra barata nos hospitais. 1. Melhorar as estruturas hospitalares; 2. Aumentar o suporte de preceptores; 3. Respeitar nossos limites (de hora, de sono, de necessidade de auxílio-moradia); 4. Aumentar nossa bolsa. Deu em pouca coisa o fuzuê inteiro.

Foram dois anos difíceis com péssima estrutura hospitalar, fraco suporte de preceptores, desrespeito aos nossos limites, bolsa exígua. Algumas vezes ouvi boatos de residentes que choravam, mas lamentação no repouso era o que não faltava. 

Então, o que quero lhe falar é que nunca na história da humanidade conseguimos conciliar a verdade social com a verdade da alma. Sempre o ideal ficou além e apenas nos serviu de ideia reguladora. Mas, serviu. 

Essa minha fala pode ser usada para dois propósitos opostos. Um ruim, que é uma má-fé. Gestores podem se apoderar dela e dizer: "viu, trabalhem e estudem, é uma virtude!". Um bom, que é uma virtude: "trabalhem e estudem, apesar de tudo". Essa dica é para a alma, não é para os gestores. 

Se fôssemos esperar pelos que assumem os altos cargos, não cresceríamos. Nossos principais movimentos de amadurecimento vêm de dentro. As pressões exteriores que querem nos esmagar (lembrem do sistema músculo-esquelético, da lei da Frank-Starlin) só podem nos fazer mais fortes, se suportarmos. A diferença é que enquanto a matéria esgarça, o espírito prossegue. 

Não encontrei um grande médico nessa jornada que não tenha gerado grandeza da miséria, da opressão, da dificuldade. Esse é o último sentido da alquimia. Fazer sublimar o metal menor de que somos feito no ouro do espírito.

Alguns se perdem no caminho. As doenças que afetam a auto-estima e a vontade são batalhas épicas à parte. Se remédios forem precisos, são bem-vindos. Temos de terminar essa vida tentando chegar no sonho, pouco importa se enfaixados. As cicatrizes sinalizam as lutas; os calos, o trabalho; a pele causticada e rugosa, não termos temido o sol. As flechas do inimigo são tantas que encobrem o céu? Ótimo, combateremos à sombra. 

O que quero lhes prevenir é da desistência, acreditando que não há mais jeito. É uma ilusão a ausência de saída. A única saída inescapável é a morte. Se não morremos ainda há fuga, é possível estratégias. Se tivermos morrido... bem, não estaríamos mais tendo essa conversa. 

Não nesse molde. 

sábado, 8 de julho de 2017

O medo de enfrentar a vida profissional

Estou com dois amigos próximos se formando em medicina. Depois de seis anos de preparação estão com medo de enfrentar as doenças que o trabalho traria. Conversava com minha esposa acerca do mesmo sentimento que nos tomava à época.

Não quero falar que vai passar. Não passa. Um professor emérito dizia: "paciente-livro-paciente". Mas, o medo não cessa. Adquire-se uma técnica de deslizar pela realidade. Alguns padrões de raciocínio e de conduta são enraizados. O medo sempre fica. 

Não podemos deixar de viver porque ele está presente. Ele nos protegeu de muitas quedas. Salvou-nos de grandes apuros. Protege-nos, mesmo, de ferir as pessoas com a exposição impensada de tudo o que tem dentro de nós. 

De fato, seu excesso, congela. Sentia vontade de não sair do sofá. É um momento de crise. Depois de seis anos de faculdade, apascentado pelos preceptores, um dia, você está sozinho. 

Cinquenta por cento das procuras ao médico poderiam ser resolvidas com atos simples, conhecimentos básicos, orientações, nortes (dia desses um senhor de oitenta anos aparece à minha esposa ignorando que beber refrigerante no café-da-manhã prejudica o controle da diabetes). Se esmiuçássemos, mesmo a estes cinquenta por cento, poderíamos fazer mais por eles munidos de conhecimento, experiência e tempo. A rotina não vai permitir se aprofundar na consulta. Mas, a rotina também salva. Os padrões, os algoritmos, os protocolos, os manuais limitam a compreensão de cada caso, mas permitem o início do acolhimento. 

Nessa época de redes, as hiperconexões vem permitindo a resolução de dúvidas cotidianas à beira da mesa que antes levaríamos para casa a fim de estudar e dar uma resposta daqui a uma semana, um mês. O medo se dilui na rede. A pesca aos amigos já não é crime, mas imperativo. 

O que mais me salvou depois de formado foram os amigos que formei. E isso nem estava no currículo: aprofundar amizades. Eles acolhiam minhas dúvidas como se fossem deles. Por vezes, sentia-me legião ao lado do paciente. Um destes amigos, que sempre foi meio bruto, respondeu tudo o que questionei. Era o que melhor sabia daquilo, e que melhor poderia me explicar. Pedi desculpas pelo incômodo, no que me devolveu: "Por favor, você não sabe a importância que tem para mim lhe ajudar."

Todavia, metade das vezes estará sozinho. E mesmo no sentimento de equipe, cada gesto seu é um protagonismo solitário. Um paciente está no primeiro andar, o seu parceiro, no térreo. Há uma intercorrência ao seu lado. Ao lado dele, também. É o momento de acreditar em si, e naqueles seis anos. O tempo será seu mestre, e o giro da terra provoca as estações. Às vezes está sereno, outras, temporal. Algumas doenças revisitam a cidade, abarrotam as instituições, prejudicam a todos.

Alguns não suportam a urgência dos males, e buscam se resguardar na meditação da clínica. Não tem como. A vida anda de montanha russa. Cedo ou tarde o que é imperioso e inadiável lhe cai nos braços. 

No mais, foi gratificante, ao início, ter pacientes entendendo meu raciocínio lento (leia-se: cauteloso) e dizendo: "ele demora, mas é bom!". Ou ainda: "me disseram que sua consulta é psicológica". Seja lá o que isso quer dizer.

Aqui pelo Ceará, porque as engrenagens do sistema de saúde ainda engatinham, nem tudo o que você sabe poderá ser colocado em prática. Dormir com casos mal resolvidos na consciência, boa parte será porque não houve como os resolver. Estava além de suas forças. Importa, pelo menos, tê-las empregado conforme podia. 

Não saia de seu psicólogo, se o gasto com a família que formar ainda o permitir. Sair com os amigos para sempre e inevitavelmente falar dos casos alivia um pouco, mas geralmente não é lugar para chorar. 

Um pensador de que gosto muito falava que "cinco, seis, sete anos são necessários para formar um médico medíocre, e a vida, um sábio." Medíocre, no sentido de mediano. Sábio seria no sentido de suficiente. Eu, hoje, interpreto como sábio no sentido de consciente. Consciente da condição humana, da nossa fragilidade, do nosso desequilíbrio irremediável, irredutível, de que nunca teremos o último remédio, a última resposta. Daí, o medo sempre espreitar. Contudo, na sabedoria, ele não vai ser mais um sentimento temido, mas um irmão. Velhos, sentaremos com ele num balanço, acariciando os cabelos de quem amamos, sabendo que pode partir logo mais. Ter consciência da nossa impotência não nos redime de lutar, nem da nossa finitude, de viver. 

Sejam bem-vindos ao corpo místico hipocrático.

sábado, 13 de maio de 2017

Uma homenagem singular

Fui homenageado por oito alunos em um evento coletivo da faculdade. Não havia espaço, mas havia uma brecha para ela acontecer. Foi algo improvisado no roteiro da cerimônia. A mestre de cerimônia não estava sabendo. Mas, não discordou. Ninguém se impôs ativamente. O público anuiu com aplausos e risos. 

Deram-me um oscar de brinquedo por ser "O melhor tutor", só que não houve votação do efetivo de alunos do semestre, se não apenas a concordância unânime dos oitos alunos a que venho me dedicando nestes últimos três meses. Fui, portanto, o melhor tutor deles, destes oito alunos. Detalhe que nunca tiveram outro tutor. Fui, pois, o melhor e único tutor. Isso não diminui o valor da homenagem. Poderia ter sido o único e o nada, ou apenas mais um professor na vida deles. O que me fez ser elevado a alguma categoria especial?

Alguns motivos me vem em mente. Poderia ser pela inteligência, e a partilha ativa, em momentos muito particulares, dos conhecimentos gerais sobre humanidades médicas que venho amealhando nesta década de prática. Eu daria, de zero a dez, um valor cinco para este motivo. Os motivos de valores mais altos, acredito, residem na virtude que anima estas duas cenas:

[PRIMEIRA CENA] No meio de um feedback, a aluna me coloca contra a parede questionando minha expertise de tutor. Ela expõe alguns segundos de razões que provocam certa aflição ao coração, mas o peito aberto, a face acolhedora, o espírito não derrotado. Digo derrotado, uma terminologia de briga, mas o duelo que há tempos me proponho não é contra alunos ou outras pessoas que não eu. Ciente desta inerente falibilidade, acolho as críticas como tijolos da construção de mim. Onde elas podem se adaptar (no sentido piagetiano) no edifícil que já construí? A atitude de abertura ao novo que demonstrei despertou respeito no grupo. Virtude democrática? Em tempos de guerra, a fortaleza e a coragem seriam as virtudes que fariam sombra benfazeja no exército liderado. Em tempos de aprendizado, a abertura ao novo

[SEGUNDA CENA] O aluno não estava em um dia bom. As emoções estavam a flor da pele, talvez. Chamo a atenção dele por coisa boba, e de forma um tanto enérgica (ríspida?). Apenas que cuidasse para não tropeçar no fio do retroprojetor pois estava frouxo. Ele deixa escapar um palavrão contra mim. Todos os ouvidos ouvem. Senso comum que aquela reação não poderia passar incólume. Punição? Não. Diálogo! 

- [Com serenidade] Desenvolva o sentido de [palavrão]? 
- Não, mah! Deixe pra lá!
- Sério, sem problema. Deve haver algo por trás desta sua manifestação. Importa que eu saiba para crescermos. 

No dia anterior havia assistido uma palestra sobre a cultura hebraica de povos peregrinos no deserto. A expositora dizia que para um povo peregrino, a bagagem mais pesada era a mágoa. Então, ao final do dia, sob a primeira sombra, quem estivesse com questões mal resolvidas, era a hora de resolvê-las, e em frente de toda a comunidade. O dia não poderia raiar sem a concórdia. Contei este detalhe cultural para eles e completei:

- Então, estamos em peregrinação. E teremos ainda muitos sóis pela frente. Preciso que não carreguemos essa mágoa. 
- Não, mah! Foi mal! Eu gosto de você, sério. É que acho que você me persegue. 

Perguntei aos demais se sentiam o mesmo. Discordaram. Debatemos um pouco as relações do grupo. Acalmamos o ânimo. Prosseguimos a caminhada. 

Desde, então, em vez de momentos de tensão, há um clima de amizade que reina no lugar. Poderia dar um oscar para eles de "melhor turma de grupo tutorial". Também obedeceria todas as singularidades que descrevi sobre minha homenagem. É a minha primeira e única turma, o que não diminuiria a predileção. Não são assim as amizades? Podemos ter tantos melhores amigos quanto quisermos. Não é uma competição. É a vivência de uma relação singular. É, na verdade, a melhor relação que estamos conseguindo construir. Eis o significado desse "melhor". Alguns professores mantém-se em guarda contra os alunos, pois podem nos dar rasteiras. Os amigos, também, os grandes amores ainda mais. Não é motivo para não tê-los, e ainda menos, não celebrá-los.